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NOVELA DO FILHO DO SILVINO
 Gosto que me enrosco de gente “ispilicuti”, termo utilizado pela minha mãe, quando sua mente ainda não se encontrava danificada pelo mal de Alzheimer. A significar danadinho, buliçosamente espirituoso, que gosta de invencionices e de buscar resposta para tudo. Tal e qual o Junior do João Silvino, que bolou um roteiro de novela baseado nas ficções surgidas nas televisões latinas.
 O enredo do Junior divide os personagens em categorias: a dos coitadinhos  inconseqüentes, de expressões quase dementes, ansiosos por  proteção ou milagre para solução dos seus problemas; a dos cornistas inconformados, que desejam a mulher e/ou marido de volta, pouco se lixando para os penduricalhos acumulados nas testas; a dos depreciadores raciais, que reduzem seres humanos a condições vexatórias; a dos abestalhados juvenis, que atordoam professores, pais e avós, tias e agregados, com lacrimosos uis e ais meus Deus; a dos que agridem, provocando lesões criminosas; a dos atropelados, cirurgiados, esparadrapados, sequestrados, cabeças raspadas, patrimônios dilapidados, além dos desacordados de longo percurso; e a dos amassos inconvenientes e cios descontrolados. E mais: a dos jagunços pebas e freiras perversas, os primeiros retratando bandidos de meia pataca, tipos famintos e maltrapilhos, sem eira nem beira, apenas nordestinidade; a dos celerados travestidos de raptores, políticos e outras porcarias; a dos messiânicos e das profecias advindas de patamares não terrestres, de lufadas que tentam arrepiar até os cabelos do sovaco dos aleijados; e o bloco do merchandising, hoje um dos setores mais rentáveis, que incrementa as receitas e diminui os custos da produção, até utilizando aviões de combate modernos, de preferência oficiais.
Além disso, os personagens devem ter  participação cênica de acordo com o ritmo da novela ou parentesco com gente graúda da instituição, mesmo que o conteúdo ético não seja o mais apropriado para estes tempos turbulentos de início de século. A falta de caráter não pode ficar ausente da trama, tampouco a infidelidade e o troca-troca dos pares, devendo ter uma boa prioridade as posturas raparigais, os trambiques e os cinismos mais acafajestados, da serventia ao senhorio. Sem esquecer os salamaleques dos  emergentes e as paraplegias.
Para umas ocasiões, se faz indispensável o retorno de superados preconceitos e estereótipos, não podendo faltar velhas fofoqueiras, meninotes de recado, policiais corrutos, subornos, além das patologias contemporâneas dignas de registro.
O Junior tem estratégias tidas e havidas como infalíveis: audiência garantida, enrolação mais prolongada; maldades e perversidades, somente com atuações cinco estrelas de atores de belíssimas performances, mesmo que para isso seja utilizada maquiagem anti-dinossáurica e pílulas de soerguer cabeças tombadas; e muita publicidade dos participantes em comerciais de TV e rádio, das pinturas de casa às manifestações de sabão em pó e torcidas de bem geladas para ver a lona do peitoril desabar.
Os capítulos finais se destinam para dar uma arrumadinha convergente na trama e seus diversos segmentos. Uma tesourada no bandido metido a sabido, uma queimadinha do brabão no depósito de escravos, uma boa sova na malvada comerciante de meninos, dada pelo marido ex-assaltado e também chifrado, coronel virando cangaceiro e cangaceiro disputando o amor da mocinha, os meninos, já crescidinhos, inaugurando-se em festas de sala e cama e os avôs se viagrando para não perderem a fama de picadeiros.
 Dependendo da audiência, testemunhos de mentirinha, cenários escondendo a miséria de milhões e competentes doses anestésicas contribuindo para um arremate sempre bonzinho. Para faturamentos cada vez maiores, novas histórias “panem et circensis” serão escritas, posto que, afinal de contas, ninguém é de ferro para enfrentar os desafios da vida.     
 

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