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NA BEIRA DO ABISMO
Para quem gosta de análise histórica sobre a vida na Europa, antes do Holocausto, um livro editado pela Cultrix, em 2014, deveras me impressionou pela sinceridade analítica utilizada. De autoria de Bernard Wasserstein, pesquisador da história judaica, Na Iminência do Extermínio: a história dos judeus da Europa antes da Segunda Guerra Mundial, “recapitula as tristezas e as glórias da última fase da história de 2000 anos dos judeus europeus, ressaltando suas esperanças e ansiedades, relações sociais e criatividade intelectual, valores e instituições, música, literatura e arte, tudo o que tornava a vida significativa para eles”. O autor trabalha com um conjunto de personagens os mais diferenciados: líderes políticos, boxeadores, rabinos, sionistas, donas de casa, empresários, mendigos, comediantes e crianças sem futuro. Numa amplitude geográfica descomunal, de Vilna (Jerusalém do Norte) a Amsterdã, Viena, Varsóvia e Paris, abarcando estivadores de Salônica, que falavam judeu-espanhol, e as fazendas coletivas de língua iídiche da Ucrânia e Crimeia soviéticas.
 
Numa das orelhas do livro, dois testemunhos. Um do Sunday Times de Londres: “Meticuloso, objeto de uma atenta pesquisa e comovente evocativo... Como um registro enciclopédico da vida judaica antes da Segunda Grande Guerra, o livro de Wasserstein é nada menos do que um prodígio. Nada escapa ao seu olhar... Como ele mostra, a sociedade judaica tinha uma riqueza e diversidade culturais comparáveis a qualquer outra da Europa... O Grande feito de Wasserstein é mostrar até que ponto a vida judaica na Europa estava preparada para o conflito mesmo antes de a guerra ser deflagrada em 1939. Essa não foi uma era de ouro perdida.” Outro comentário é de Andrew Nagorski, autor de Hitlerland: “Bernard Wasserstein é impiedosamente sincero na sua descrição de uma comunidade heterogênea, altamente talentosa, enfraquecida por divisões internas e pelo declínio demográfico enquanto um desastre muito maior assomava. Na Iminência do Extermínio é leitura fundamental para qualquer pessoa que esteja tentando compreender um mundo que estava prestes a desaparecer”.
 
Algumas questões são analisadas na gigantesca pesquisa de Wasserstein: Como o povo judeu, que na década de 20 tinha uma aparência de comunidade vibrante, se constituindo no grupo étnico mais instruído da Europa, em 1939, às vésperas da decisão nazista de cometer genocídio, estavam bem próximo de um colapso terminal, com numerosos judeus do centro-leste da Europa mergulhados em terrível pobreza? Por que os judeus foram vítimas do seu próprio sucesso? Por que razão, em 1939, confinados em campos de concentração, mais judeus estavam sendo mantidos em campos fora do III Reich? Existiram judeus nazistas? E como se comportavam os judeus antijudaicos? Por que as mulheres, na sociedade judaica tradicional na Europa oriental eram impedidas de alcançar destaque no setor da erudição religiosa? Quais as razões das disparidades existentes na vida comunitária judaica, variando de uma minúscula elite de plutocratas ricos a “uma horda de mascastes empobrecidos, vendedores ambulantes e mendigos, profundamente divididos ideologicamente”? Será que após setembro de 1929, quando judeus e cristãos comemoraram com festejos juntos o ducentésimo aniversário de nascimento de Moses Mendelssohn, pai do Iluminismo judaico, o crash de Wall Street provocou a derrubada do povo alemão do pedestal que ocupava como a mais orgulhosa, rica, criativa e progressista comunidade judaica da Europa?
 
A crise econômica mundial, “Quinta-Feira Negra”,  aconteceu a 24 de outubro, quando mais de 12 milhões de ações foram colocadas à venda sem encontrar compradores, no dia 29 de outubro, uma terça-feira, a Bolsa de Valores entrando em colapso, mais de 16 milhões de ações virando pó, mais de 10 mil bancos, empresas e indústrias falindo, causando milhares de desempregos.
 
O objetivo maior de Wasserstein foi “tentar restaurar no registro histórico homens, mulheres e crianças esquecidos, soprar momentaneamente uma vida renovada naqueles que logo nada mais seriam que ossos ressecados”.
 
O livro traz um epílogo com destinos conhecidos e desconhecidos de inúmeras personalidades, inclusive Hannah Arendt, Walter Benjamin, Henri Bergson, Martin Buber, Marc Chagall e Primo Levi. Entre os citados, Edith Stein, assassinada em Auschwitz, em 1942, posteriormente, em 1998, beatificada por João Paulo II como “uma filha de Israel”, canonizada em 1998. E Stefan Zweig, escritor, que se auto-eternizou-se em Petrópolis, em 1942, juntamente com a esposa.
 
O texto reflete uma muito ampla pesquisa e foi escrito com paixão e empatia, pontuado por parágrafos  que transmitem uma imagem vívida dos judeus europeus em seus momentos finais. E traz uma reflexão final do autor, por derradeiro esbofeteante: “Os judeus na Europa não reagiram passivamente à sua situação aflitiva. Eles eram atores em sua própria história. Buscavam por todos os meios possíveis, individual e coletivamente, enfrentar as ameaças que assomavam em todos os lados. Eles tentaram a emigração, mas as saídas estavam bloqueadas. Tentaram a persuasão, mas poucos se propunham ouvir, e, de qualquer modo, os alto-falantes estridentes da propaganda nazista ensurdeciam os ouvidos. Eles tentaram todo tipo de organização política, mas não tinham importância política. Um punhado deles, até mesmo antes da guerra, tentou resistir com violência, mas seus inimigos podiam levar a efeito uma mudança mil vezes pior – como demonstraram os nazistas na Kristallnacht (Noite dos Cristais). Alguns tentaram rezar, mas o seu Deus os traiu”.
 
Um relato que muito alerta os fanatizados de todos os quadrantes ideológicos de um mundo em processo inicial de parto com muitas dores. 
P.S. Nossa integral solidariedade às vítimas do terrorismo em Paris. Mas é preciso, urgentemente, conhecer melhor a História do Mundo, seus heróis, seus vilões, seus oprimidos que se transformaram em opressores e as crenças religiosas de todos os naipes tornadas cruéis assassinas nos últimos dois mil anos.  Pesquisa recente comprovam que crianças muçulmanas e cristãs são menos generosas e mais intolerantes que as educadas em lares não religiosos.
      
(Publicado em 16.11.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com/sempreamatutar)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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