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MEMÓRIAS DE GUERRA
 Amplia-me a tristeza quando constato gigantesca parte da juventude brasileira sem um mínimo conteúdo histórico-filosófico em seus embornais cognitivos profissionais. Sou daqueles que acreditam que uma geração que desconhece seus passados terá imensas dificuldades para enfrentar  os amanhãs que terão pela frente, num século como o atual, individualista, pouco solidário, com manchas gigantescas de autoritarismo, dotado de mil e um preconceitos contra negros, pobres, homossexuais, não-cristãos, judeus, índios, palestinos, mulheres e ateus. Uma geração que não sabe nada sobre os horrores sofridos por milhões de jovens, vítimas das guerras imperialistas e civis que deixaram um sem-número de mortos ao longo dos últimos trezentos anos de história planetária. A mais violenta de todas tendo sido a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), causando fome, destruição e morte a um sem-número de crianças e adolescentes inocentes.

Para que pais e mães possam melhor se conscientizar na preparação cívico-humanística de seus filhos, duas pesquisadoras, Sarah Wallis e Svetlana Palmer, a primeira norteamericana e a segunda soviética, ambas sediadas na Inglaterra, coletaram e catalogaram cartas e diários de adolescentes que viveram sob os horrores da Segunda Guerra. Escritos que representam “um espaço de confidências e questionamentos, de preservação da dignidade, da independência de espírito e pensamento.” Editado do Brasil pela Objetiva, Éramos Jovens na Guerra, 2012, foi organizado cronologicamente, “conduzido pelas histórias dos autores, contextualizadas pelos fatos históricos e entrelaçadas para ressaltar os paralelismos e confrontos de ideias e emoções.” 

A coleção de escritos tem começo pelo depoimento do adolescente polonês Edward Niesobski, 16 anos, iniciado em 1º de setembro de 1939, quando “1,5 milhão de soldados alemães e 2.700 tanques começaram a atravessar a fronteira da Polônia”. Seus apontamentos revelam temor e perplexidade: “Hoje, por volta das cinco horas da manhã, foi disparada uma sirena; e vieram então os ataques aéreos. ... Os insaciáveis guerreiros alemães tomam territórios com suas garras vazias. Eles querem tirar de nós todos os nossos locais mais queridos. ... Eles tentaram nos impedir de reconstruir a Polônia depois da última guerra e agora apontam armas para o nosso peito, armas que guardavam escondidas todo esse tempo”.  

Em junho de 1941, quando da invasão da Rússia, o estudante Yura Ryabinkin, 15 anos, que morava com a  mãe num apartamento de três quartos em Leningrado, pôs em folhas de papel a sua estupefação: “Ao sair de casa, notei que o varredor de rua estava usando uma máscara de gás e uma faixa vermelha no braço. ... Ele dizia que bombardeios alemães haviam atacado Kiev, Jitomir e Sebastopol às quatro da manhã e que Molotov foi ao rádio anunciar que estávamos em guerra com a Alemanha! ... Mais notícias: talvez eu não seja afinal aceito no Exército, pois sou muito jovem e tenho pleurisia”.

Na primavera de 1942, enquanto Churchill e Roosevelt ainda discutiam como desafogar a pressão dos nazistas sobre a URSS, Hitler estudava com seus comandados a criação de  mecanismos que deixassem o Reich “livre e esvaziado de judeus o mais rápido possível”, a população alemã de nada sendo informada, posto que a imprensa tinha recebido, a 7 de janeiro daquele ano, “ordens de não publicar nada sobre a questão judaica nos territórios ocupados”. Os campos de morte, o primeiro em Chelmno, perto de Lódz, tinham como objetivo único “limpar” a região de judeus e ciganos. E os apontamentos do polonês Dawid Sierakowiak, 17 anos, são angustiantes: “No gueto, a fome aumentava, os suprimentos eram deliberadamente reduzidos antes da chegada dos transportes, para estimular mais pessoas a partir para os ‘reassentamentos’”. ... “Minha santa mãe, amada, exaurida e abençoada, caiu vítima da besta hitlerista sedenta de sangue. Ela era completamente inocente, e se foi apenas por causa dos corações perversos de dois tchecos, médicos que vieram à nossa casa nos examinar. ... Apesar de sua grande angústia, minha pobre mãe, que sempre esteve pronta para qualquer coisa, e sempre, infalivelmente, acreditou em Deus, mostrou total presença de espírito. Falou conosco sobre o seu destino com um fatalismo e uma lógica que partiu meu coração”.Em 8 de agosto de 1943, Dawid morreu, depois de completar 19 anos, vítima da terrível “doença do gueto”, mistura de tuberculose e fome. 

A última anotação feita no livro é de autoria do nova-iorquino David Kogan, exatamente seis anos depois da invasão da Polônia pela Alemanha. E reflete um simbolismo que deveria envergonhar  os dos tempos de agora: “Escrevendo no fim do dia, eu ouço a transmissão radiofônica da rendição do Japão ao general MacArthur e representantes das Nações Unidas. Eles estão narrando como se fosse um jogo de beisebol. Só espero que não voltem a jogar mais o jogo da guerra”.

Os relatos feitos pelos 16 adolescentes merecem ser lidos, rabiscados e discutidos em sala de Estudos Sociais das escolas brasileiras do Ensino Médio. Para ampliar os conhecimentos, a criticidade e a cidadania de todos na direção de uma realidade democrática sem populismo, nem carreirismos, sem corrupções nem mensaleiros, tampouco sem os assistencialismos eleitoreiros que “matam de vergonha ou viciam o cidadão”, como cantava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, hoje mais que centenário e nunca esquecido.

(Publicada em 14.10.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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