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MEMÓRIA SEMPRE REVIVIDA
Sem qualquer pressa, o professor Júlio Verne abriu o livro que trazia nas mãos e leu para os alunos de sua classe, numa instituição de ensino superior, quase todos eles sem muita dedicação para conhecimento e análise de fatos passados que envergonharam a humanidade. Leu pausadamente, contendo revolta justificável pelas ações praticadas a mando de um paranoico cruel, que conseguiu manipular uma sociedade inteira, a alemã, tida por muito culta: “Sem gritar nem chorar, pais e filhos judeus tiravam as roupas, reuniam-se em círculos familiares, beijavam-se e despediam-se uns dos outros, esperando por um sinal de outros homens da SS que ficavam perto da vala com chicotes nas mãos. ... Um homem e uma mulher de aproximadamente 50 anos, com duas filhas, de 20 e 24 anos, três meninos, de 10, 7 e um de apenas 1. A mãe segurava o bebê. O casal se olhava com lágrimas nos olhos. Depois, o pai segurou as mãos do menino de 10 anos e falou com ele ternamente; o menino lutava para conter as lágrimas. Então ouvi uma série de tiros. Olhei para a vala e vi os corpos se contorcendo ou imóveis em cima dos que morreram antes deles.”

Diante de uma plateia agora perplexa pela leitura de um testemunho real, pois até então nada lhe tinha sido transmitido, o professor Verne repetiu o testemunho do médico psiquiatra Augusto Cury, também cientista, psicoterapeuta e escritor: “Eu não me curvaria diante de uma celebridade ou autoridade política, mas curvo-me diante dos educadores, especialmente dos professores de história e sociologia, que sabem que uma sociedade que não conhece sua história está condenada a repetir seus erros no presente e expandi-los no futuro”. E arrematou, com sinceridade d’alma, como se estivesse impregnado de uma missão quase sagrada: “No dia em que um professor deixar de provocar a mente de seus alunos e não mais conseguir estimulá-los a pensar criticamente, estará pronto para ser substituído por um computador”.

O estupidificante cenário acima, testemunhado por observador nazista em um campo de concentração, está contido no livro O Colecionador de Lágrimas, Planeta, 2012, do já acima citado escritor. De títulos que somam mais de 16 milhões de exemplares vendidos somente no Brasil, sendo ele publicado em mais de 60 países. Neste romance histórico, Cury analisa o inconsciente coletivo de uma sociedade, a alemã, que se deixou ser manipulada por um austríaco rude, paranoico e inculto que manipulou, através da utilização de técnicas sofisticadas, a emoção de uma coletividade tida e havida como mais que bicentenariamente culta.  

O personagem do romance do Cury certamente leu o livro Consumido, do Benjamin R. Barber, diretor da Walt Whitman Center for the Culture and Politics of Democracy, EEUU, que aponta como as prováveis consequências de um consumismo esquizofrênico poderá afetar os filhos, a liberdade e a cidadania de um século como o atual. Sua reflexão, no livro, se encaixa como uma luva nas análises feitas pelo professor Júlio Verne: “O etos infantilista está dominando julgamentos dogmáticos, com base em ‘preto no branco’, na política e na religião substituem as complexidades cheias de nuanças da moralidade adulta, enquanto as marcas da infância perpétua são impressas em adultos que se entregam à puerilidade sem prazer e à indolência sem inocência.  Daí a atração do novo consumidor pela idade sem dignidade, por roupas sem formalidade, sexo sem reprodução, trabalho sem disciplina, brincadeiras sem espontaneidade, aquisição sem propósito, certeza sem dúvidas, vida sem responsabilidade e narcisismo até a idade avançada e até a morte sem um vestígio de sabedoria ou humildade. Na época em que vivemos, a civilização não é um ideal nem uma aspiração, é um videogame”. E que também não deixou de compulsar um outro texto famoso do Barber intitulado Jihad X McMundo, onde ele analisa como a globalização e o tribalismo, as duas atuais e paradoxais tendências do globo, estão transformando o planeta.  

Com profundo pesar, lastima-se atualmente o pouco apetite intelectual de uma juventude para as Ciências Humanas, principalmente História, Sociologia e Filosofia, mais voltada para “receitas prontas” e informações que não requerem o uso mais intensivo de um pensar reflexivo não-cartesiano, preocupação notável de Celso Furtado, de formação humanística, patrono da minha turma de graduação em Economia, que alfinetava com plena preocupação política: “O quadrado da hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos, mas será que o triângulo é retângulo?”.

Uma indagação que ainda se encontra plenamente contemporânea, se analisarmos a obrigatoriedade das universidades e instituições federais destinarem 50% das suas vagas a alunos oriundos da rede pública. Para uns um resgate histórico, para outros uma medida que puxa o ensino superior para baixo, embora muitos debatedores ainda não tenham percebido que o “triângulo” da questão não é retângulo, o buraco situando-se muito abaixo de uma criticidade paulofreireana, autenticamente não-autoritária, tampouco paranóica. Inclusive a preocupar aqueles que estão observando as bestialidades dos programas televisivos, de consequências desagradáveis para a nossa ainda muito tímida democracia participativa.  

(Publicada em 14.01.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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