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MATURIDADE ESPIRITUAL
 Nas diversas redes sociais por mim recentemente percorridas, onde cultivo amizades de porte intelectual ajustado à contemporaneidade, deparo-me, com não rara frequência, com pueris manifestações religiosas, algumas delas recheadas de cretiníssimas apelações pecuniárias, daquelas que seguramente irritariam profundamente o Homão da Galileia, na sua missão desinstitucionalizadora de disseminar a paz entre todos os seres humanos.  

Algumas leituras desabestalhantes me têm proporcionado, nos últimos anos, enxergâncias  ampliadas, muito embora ainda muito diminutas diante dos acontecimentos recentes, inclusive a descoberta de dois ancentrais nossos, na Tanzânia, dois hominoides ainda com traços simiescos, habitantes daquela região há 25 milhões de anos. Uma delas advém de um alemão assasinado pelos nazistas às vésperas da derrocada do Terceiro Reich, quando Adolf Hitler partiu voluntariamente para as profundezas da escuridão. De nome Dietrich Bonhoeffer, sua reflexão me deu uma cutucada gigantesca, provocando-me novas leituras desbravadoras, abandonando de vez um ovelhismo acocorante que tanto tem retardado a evolução da formação espiritual de seres humanos de mentes não doentias. Eis o que Bonhoeffer afirmou numa carta enviada a Eberhard Bethge, datada de 16 de julho de 1944: “Nossa maioridade religiosa nos conduz a um verdadeiro reconhecimento de nossa situação diante de Deus. Deus quer que saibamos que devemos viver como quem administra sua vida sem ele. O Deus que nos permite viver no mundo sem a hipótese funcional de Deus é aquele diante do qual permanecemos continuamente. Diante de Deus e com Deus, vivemos sem ele. ... Deus é fraco e sem poder neste mundo, e essa é precisamente a maneira, a única maneira pela qual ele está conosco para nos ajudar”. 

Um dos livros mais rabiscados da área de trabalho da minha casa foi escrito por um episcopal anglicano, John Shelby Spong, bispo por 24 anos de Newark até 2000, quando se aposentou. No Brasil, seu texto reebeu o título de Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo – A Fé Além dos Dogmas, Campinas, SP, Verus Editora, 2006. Nele, sua convicção é explicitada de forma contagiante para os não-ovelhosos: “Não defino Deus como um ser sobrenatural. Não creio numa divindade que ajude uma nação a vencer uma guerra, que intervenha na cura de uma pessoa amada, que permita a certo time derrotar seus adversários, nem alterar o tempo para beneficiar quem quer que seja”. E vai muito mais além, quando afirma que as livrarias cristãs são mundialmente conhecidas pelas suas  posturas anti-intelectuais, desrespeitando incrivelmente a própria parábola dos talentos. 

Quando vejo na televisão, um partido político não muito cidadanizador defender a família e os bons costumes, recordo-me de uma afirmação do bispo Shelby em seu livro: “Algumas das críticas mais hostis à homossexualidade têm sido emitidas por homossexuais enrustidos, escondidos em vestimentas de liderança nas próprias igrejas condenadoras”. E aponta paa os grandes escândalos proporcionados por pessoas excessivamente religiosas, especialmente nas áreas sexuais e financeiras.

O bispo Spong ainda se mostra defensor-seguidor do bispo John Arthur Thomas Robinson, autor do livro Honest to God (Honesto com Deus), que deu origem a múltiplos ataques e desconsiderações dos fundamentalistas conservadores. No livro, Robinson evocava inclusive o posicionamento de Paul Tillich, que insistia que não se poderia ver Deus definido como ser pessoal, mas sim como Base da Nossa Existência. Um livro atacado inclusive por Michael Ramsey, arcebispo de Cantuária, que tempos depois se redimiu, reconhecendo a falácia das suas acusações histéricas. Que não percebia que o bispo Robinson não tratava da indiscutível realidade divina para ele, mas dos moldes antiquados de se proclamar esse mesmo Deus. Ele rta entusiasta de um cristianismo sem religião, antecedendo o Movimento Com Jesus Sem Igreja, hoje com mais de dez milhões de entusiastas na Europa.

Para apenas oferecer um “quero-mais-saber” nos leitores deste canto de página, ressalto um pensar do bispo Spong: enquanto o Deus teísta morre visivelmente na atual pós-modernidade, a histeria, o temor e a insignificância que fazem parte da autoconsciência humana crescem assustadoramente. O exemplo mais recente, nos meios televisivos, foi o do assassino britânico, mãos tingidas de sangue e portando uma foice, proclamando-se seguidor islâmico. Como se Alá tivesse ordenado tamanha atrocidade.      
(Publicada em 03.06.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco) 
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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