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LUSO INESQUECÍVEL
Dentre as histórias de heróis anônimos que arriscaram suas vidas para salvar judeus do Holocausto, uma delas me tocou profundamente, a do diplomata português Aristides de Souza Mendes (1885-1954). Contada no livro Os Outros Schindlers, de Agnes Grunwald-Spier, curadora do Holocaust Memorial Day Trust, instituição que a cada 27 de janeiro não deixa cair no esquecimento a ignomínia cometida pelos assassinos do III Reich.

Católico romano, Aristides foi cônsul-geral português em Bordeaux e Bayonne, de agosto de 1939 até ser chamado de volta a Lisboa em 1940, acusado de desobediência por Antônio de Oliveira Salazar, ditador luso de 1933 a 1968.

Através da Circular 14, datada de 13 de novembro de 1939, todos os diplomatas portugueses foram proibidos de conceder passaportes ou vistos a três categorias de pessoas: a. estrangeiros de nacionalidade indefinida, apátridas ou portadores de “passaporte nansen” (passaportes para refugiados emitidos pela Liga das Nações); b. estrangeiros que fossem incapazes de fornecer razões válidas para ingresso; c. judeus expulsos dos seus países e despojados de suas nacionalidades.

Transtornado com a Circular, Aristides de Souza Mendes percebeu que ela ia de encontro à constituição portuguesa, que assegurava o direito de todos independentemente da religião professada. Após dias vivenciados sob oração com sua esposa Angelina, ele decidiu emitir vistos para todos aqueles que requeressem, sem custos, utilizando o seguinte argumento: “Prefiro estar com Deus contra o homem (Salazar) do que com o homem contra Deus”.

Segundo Yehuda Bauer, a assinatura dos vistos foi “a maior operação de resgate realizada por uma só pessoa durante o Holocausto”. Tendo Aristides declarado ao rabino Kruger, já em Lisboa e caído em desgraça: “Se tantos judeus têm de sofrer por causa de um católico (referência a Hitler), não faz mal que um católico sofra por tantos judeus. Eu acolhi a oportunidade com amor e não me arrependo de nada”.

Dias atrás, a editora Casa da Palavra lançou o livro Um Homem Bom, com a seguinte informação de capa: “A história de Aristides de Souza Mendes, o diplomata português que desafiou o ditador Salazar, salvou milhares de vida do Holocausto e viveu seus últimos dias na miséria”.

O livro Um Homem Bom, de Rui Afonso, um nascido na Ilha da Madeira e hoje radicado em Toronto, Canadá, é excelente leitura para quem deseja permanecer com “aquilo” roxo, sem perder a ternura jamais. Nas suas 400 páginas destacam-se fé, bravura, consciência e solidariedade humanitária de um diplomata pai de doze filhos que não titubeou no salvamento de milhares de judeus das garras nazistas, enfrentando até dedurismos de outros diplomatas. Mas que exerceu sua autoridade diante das indecisões burocráticas e puxasaquísticas do cônsul Faria Machado: “Gostaria de ver a si próprio, a sua mulher e os seus filhos nas mesmas circunstâncias que os refugiados? Você diz que está aqui para executar as instruções que recebe dos seus superiores. Muito bem, eu ainda sou cônsul em Bordeaux e, por conseguinte, seu superior. Ordeno-lhe por isso que passe tantos vistos quantos sejam necessários”.

Um livro de releituras. Para ampliar a solidariedade para com todas os povos.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 14.12.2011 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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