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LIVROS PARA CIDADANIA
 Quando das minhas últimas “pescarias” sobre livros, nos sites de minha predileção, deparei-me com dois livros de títulos mais que oportunos. De dois autores que muito admiro, um deles desde os tempos de docência universitária. O primeiro é A Cultura do Diálogo – Uma Estratégia de Comunicação nas Empresas, de Gustavo Gomes de Matos. Editado pela Elsevier, é um texto de 2006 que deveria ser amplamente debatido nos mais diferenciados setores, nesta época de ascensão de milhões de cidadãos aos mundos profissionais, onde fatos incompreensíveis necessitam ser urgentemente esclarecidos. Um deles se relacionando com duas universidades privadas, no Rio de Janeiro, que se encontram em fase pré-falimentar, enquanto seus donos estão às vésperas de receber um milionária bolada, numa escabrosa impunidade. O segundo se relaciona com um déficit no fundo de pensão dos Correios, que já havia tido um rombo de 1,4 bilhão anos antes. Os 110.000 funcionários dos Correios, a partir de abril, tiveram seus contracheques reduzidos uma média de 1,7% do salário, por tempo indeterminado, para cobrir déficit de 1 bilhão de reais do Postalis, o fundo de pensão dos servidores. Segundo dados fornecidos à Justiça, o Postalis pode levar mais de dez anos para zerar o prejuízo.

O segundo autor é o romancista moçambicano Mia Couto, atualmente considerado o maior escritor do continente africano, também um dos mais traduzidos do mundo. No livro Pensar a Cultura, Arquipélago Editorial, 2013, reunindo as primeiras palestras pronunciadas no ciclo Fronteiras do Pensamento, sete anos de existência na cidade de Porto Alegre e atualmente há três anos na capital de São Paulo, Mia Couto pronunciou a palestra Repensar o Pensamento, Redesenhando Fronteiras, oferecendo lições memoráveis para todos nós, brasileiros, que ainda não se imaginaram num pluriverso ou num multiverso, sentindo “medo da mudança, medo da desordem, medo da complexidade”. E mais: “Temos medo dos que pensam diferente e mais medo ainda daqueles que, são tão diferentes, que achamos que não pensam. Vivemos em restado de guerra com a alteridade que mora dentro de nós”.

Couto relatou fatos acontecidos com ele e a sua senhora Patrícia, quando da sua passagem pelo Recife e por Natal. Segundo ele, “quando aterrei no Recife experimentei um sentimento único. Porque há muitos anos eu já tinha visitado a cidade por via da poesia de João Cabral de Melo Neto. Aconteceu agora que desembarquei não num lugar, mas nas páginas de um livro. O chão que eu pisava era feito de palavra e metáfora. Deambulei pelo Recife de João Cabral marginado de mangues, feito de ruas como rios que ele dizia de ‘água pouca e por onde seguia até ter um destino de mar’”.    

Em Natal, da janela do hotel onde se encontrava hospedado, Mia Couto contatou uma multidão de cartazes publicitários “à porta de pequenas lojas que se apresentavam como ‘salões de beleza’ ... quem figurava nesses anúncios era sempre a imagem de uma mulher loira, magra e de olhos azuis. Andei dias por aquela cidade e não encontrei a tão celebrada mulher loira”. E concluiu: “o que observei foi essa ambivalência tão nossa (do Brasil e de Moçambique) que nasce de termos sido nações colonizadas e habitarmos ainda na fronteira entre a pobreza e a riqueza, na fronteira entre o corpo sonhado e a realidade vivida”.

As lições deixadas pelos dois livros, cada um deles por vertentes diferenciadas, deveriam ser estampadas nos corredores de lares e gabinetes políticos e empresariais de um Brasil que necessita tornar-se culturalmente dono do seu nariz, assumindo seus tropeços e realizações grandiosas. Cito algumas:
1. Aqui, preocupa-se mais com a eficácia dos mecanismos de transmissão da mensagem do que propriamente com o seu conteúdo. (GG)
2. Falo do Brasil sem ter a ingenuidade de romantizar uma nação que é feita de contrastes, de ambivalências, de desigualdades. ... O que quero dizer é que temos, Moçambique e Brasil, as mesmas doenças e os mesmos remédios, apenas em graus diferentes. E temos a nosso favor sociedades que são plenas de vitalidade e diversidade, sociedades feitas de gente que não tem medo de se trocar, nem tem vergonha de ter corpo. Feitas de gente que ama celebrar a vida como uma festa de rua. (MC)
3. A improdutividade, a perda de clientes, o defeito de máquinas e equipamentos, os acidentes de trabalho e o não cumprimento de prazos e metas são algumas das consequências geradas pela falta de diálogo e comunicação nas empresas nas quais impera clima de conflitos e disputas internas entre diretores, gerentes e funcionários. É comum, num ambiente fechado à conversação, a distorção das informações administrativas e gerenciais, o que ocasiona grandes índices de desperdício e altos custos oriundos do trabalho que precisa ser feito. (GG)
4. O pensamento nasceu para nos tornar livres, para nos dar asa e voarmos para além dos nossos limites. Foi o pensamento que nos deu barco e destino na épica viagem em que nos fizemos humanos e sobre-humanos. ... Acontece com o pensamento o mesmo que acontece à linguagem. Na infância estávamos disponíveis para apreender idiomas diversos. Depois a coisa se fecha, se sedimenta e nós ficamos prisioneiros do que sabemos. (MC)

Para os dois autores, um reconhecidamente técnico, outro intelectual mundialmente aplaudido, uma lição já por eles devidamente apreendida, deixada por um outro talento, já eternizado: “A organização não é regida por forças físicas nem biológicas, mas por confiança, entendimento mútuo, motivação. E tudo isso exige conhecimento de toda a organização, de suas missões, de seus valores, de suas metas, de seu desempenho. Todos precisam saber por que fazer, o que fazer e como fazer.”

(Publicada em 11.11.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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