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LEITURAS CRUZADAS
Na quase unanimidade das instituições de ensino superior brasileiras, a interdisciplinaridade inexiste, a mesmice prepondera há décadas, uma cultura de fingimento desmotiva os críticos restantes, os salários não estimulando a chegada dos talentosos. Um “embromation system” faz as vezes de um “efficient system”, onde “na escola, alunos matriculados se submetem a professores diplomados para obter também diplomas; ambos são frustrados e ambos responsabilizam a insuficiência de recursos – dinheiro, tempo e instalações – por sua frustração mútua”, na reflexão de Ivan Illich em seu muito pouco analisado trabalho Sociedade sem Escolas, Vozes, 8ª edição, 1988. E a causa principal é a ausência de um novo estilo de relacionamento educacional entre o homem e seu meio ambiente, sua história e suas perspectivas futuras, rejeitando as pontes que não conduzem a lugar nenhum.
 
O mesmo fenômeno – “embromation system” – está ocorrendo nas instituições públicas que analisam desenvolvimento e planejamento, irmãos siameses que jamais deveriam ser separados, salvo por interesses politiqueiros de pouca monta. As instituições encarregadas do binômio desenvolvimento/planejamento estão repletas de burocratas, carimbólogos, estatiscoides, graduados em quase nada, servidores servis acríticos do pensamento da chefia imediata, repletos de expressões repassadas pelos modismos técnicos dos ambientes desenvolvidos, a interdisplinaridade nunca sendo sequer apreciada, por conivência oportunista ou conveniência com o nível cultural emocionalmente analfabético funcional.
 
Recomenda-se aos governantes e seus assessores de mesmo, o que hoje se denomina, nos meios intelectualmente mais apetrechados, da leitura cruzada, aquela composta de alguns livros que lidos, simultânea ou sucessivamente, favorecem análises mais realistas, as causas principais dos gramscianos fenômenos mórbidos tornando-se mais identificáveis, emergindo combates politicamente consistentes, compreensíveis pelas classes nunca lúmpen.
 
Exemplifico uma leitura cruzada. Livros utilizados: A via para o futuro da humanidade, Edgar Morin, RJ, Bertrand Brasil, 2013; O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos, Milton Santos, SP, Edusp, 2008; Guerras sujas: o mundo é um campo de batalhas, Jeremy Scahill, Cia. das Letras, 2014; e Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz: desafio para o século XXI, Leonardo Boff, Vozes, 2009. 
 
Devidamente lidos  com atenção e mente não obsessivas, a ordenação acima é a mais recomendável. No livro do Morin, atentar para a segunda parte – Reformas do pensamento e da educação – sem nunca desmerecer as demais. No trabalho do Milton Santos, estudar bem os circuitos superior e inferior, incluindo o empobrecimento do Estado, da economia doméstica e da população e os mecanismos financeiros. Na pesquisa do Scahill, escolher os dez textos mais terrificantes. E no livro do Boff, decidir sobre o mais viável do amanhã brasileiro: choque ou diálogo sob os fundamentalismos.
 
Um grupo para debate seria excelente. Desabestalharia mais coletivamente. 
Pernambuco necessita de dirigentes epimeteus e prometeus, sem sorrisinhos abobados!!!   
 
(Publicado em 25.07.2015, no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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