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LEITURA RESTAURADORA
Recomendo com vivo entusiasmo, para os que se distanciarão dos feriados momescos que se aproximam, a leitura do livro de um físico consagrado mundialmente, apaixonado por questões que até bem pouco tempo não eram consideradas científicas, sempre seguro de que é a curiosidade que se agiganta em nosso interior, nos erguendo acima das mediocridades do cotidiano e das banalidades que asfixiam os despreparados imediatistas ao longo das suas existências nulificantes.
 
O livro se intitula A simples beleza do inesperado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, Marcelo Gleiser, Rio de Janeiro, Record, 2016, 194 p. Que homenageia “a truta que não peguei e a equação que não resolvi”, ratificando um pensar famoso do filósofo Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.), um pré-socrático: “Não entramos nos mesmos rios, pois as águas que fluem são sempre outras.”
 
O talentoso cientista brasileiro Marcelo Gleiser é articulista da FSP desde 1997, escrevendo semanalmente uma coluna onde explica a ciência para milhares de leigos, inclusive eu. Na Universidade de Dartmouth, EUA, leciona a disciplina “Física para Poetas”, atraindo centenas de pessoas que não possuem nenhuma ligação com a Física. Suas explanações se caracterizam por relatos da História da Ciência e dos seus principais cientistas, sempre com explicações elucidativas sobre os fundamentos dos experimentos científicos demonstrados em sala de aula.
 
Em 1997, lançou, no Brasil, seu primeiro livro, A Dança do Universo, tratando da origem do Universo sob as vertentes científica e religiosa. O livro, dirigido a um público não especializado, logo tornou-se um marco da divulgação científica em nosso país.
 
Declaradamente agnóstico, Marcelo Gleiser possui uma postura equilibrada, afastado dos radicalismos religiosos paspalhões, que enervam e multiplicam agnosticismos idiotizantes por uma mídia distanciada léguas das posturas centradas no bom senso e na razão. Eis duas opiniões dele: “Para mim, não há absolutamente nenhuma dúvida de que o sobrenatural é completamente incompatível com uma visão científica”; “Se sou ateu, só fico transtornado quando vejo a infiltração de grupos religiosos extremistas nas escolas, querendo mudar o currículo, tratando a ciência em pé de igualdade com a Bíblia; se concordo que o extremismo religioso é um dos grandes males do mundo; se batalho contra a disseminação de crenças anticientíficas absurdas como o design inteligente e o criacionismo na mídia, por que, então, critico o ateísmo radical de Dawkins? Porque não acredito em extremismos e intolerância. É essa crença ignorante que deve ser combatida. É a hipocrisia usada sob a bandeira da fé que deve ser combatida, não a em si.”
 
Gleiser reconhece o papel que a fé desempenhou e desempenha nos contextos socioculturais, históricos e de definição do ser humano, posicionando-se contra o radicalismo tanto religioso quanto antirreligioso. Em suas palavras: “Nós conhecemos o mundo por causa de nossos instrumentos... O problema é que toda máquina tem uma precisão limitada. É impossível criar uma teoria final porque nunca vamos saber tudo. Temos de aprender a ser humildes com relação a nosso conhecimento de mundo, que sempre será limitado.”
 
No seu livro, Gleiser reproduz a metáfora por ele construída no seu livro A Ilha do Conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido, Rio de Janeiro, Record, 2014: “Considere que o conhecimento que acumulamos através dos séculos forme uma ilha. À medida que aprendemos mais sobre o mundo, a ilha cresce. Como toda boa ilha, essa também é cercada por um oceano, no caso, o oceano do desconhecido. Entretanto – e aqui vem a surpresa -, quando a ilha cresce, cresce também o perímetro que a separa do desconhecido. Com isso, ao aprendermos mais sobre o mundo, acabamos de criar mais ignorância: as novas perguntas que podemos fazer que, antes, não podiam ser antecipadas. Ou seja, o conhecimento gera novos desconhecimentos.”
 
A honestidade intelectual do Gleiser sensibiliza todos aqueles que possuem um mínimo de bom senso: “Nada melhor para um jovem com aspiração de ser cientista do que ser forçado a entender de cara que devemos confiar na razão como guia, mas não exclusivamente. O Universo é racional, mas sendo uma ‘estrutura magnífica que podemos compreender apenas imperfeitamente’, nosso pensamento não pode abrangê-lo em sua totalidade.” E declara, sem titubeios: “No Brasil, o kardecismo - a doutrina espírita baseada na obra de Allan Kardec – conta com milhões de adeptos. Tenho vários amigos cientistas que se proclamam espíritas sem ver qualquer conflito entre sua ciência e sua crença no mundo do além.”
 
Confesso que relerei o livro brevemente. Para rabiscá-lo ainda mais, admirando a beleza intelectual de um cientistas brasileiro amplamente desfrescurizado, que não se imagina o ó-do-borogodó, mas que confessa ser um desafio enfrentar, sem destemor nem corporativismos, o grande vão espiritual da contemporaneidade, onde inúmeros ainda não perceberam, sempre proclamando que “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”, embora o triângulo nunca tenha sido retângulo.
 
PS. A dedicatória do livro já sensibiliza de saída para a leitura: “Para a truta que não pequei e a equação que não resolvi.”
 
(Publicado em 20.02.2017 no site do Jornal da Besta Fubana e no site www.fernandogoncalves.pro.br)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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