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LEITURA PARA ENXERGÂNCIAS
Outro dia, na editora da UFPE, por ocasião do lançamento do livro A Revolução Peregrina e Outros Ensaios, com textos do sempre lembrado e insubstituível escritor Nilo Pereira, encerrando as comemorações do centenário do seu nascimento, recebi uma sugestão de leitura do culto professor José Luiz Delgado, admiração minha de longa data, fraternidade situada quilômetros acima das diferenciadas religiosidades pessoais.

O livro por ele indicado foi A Marcha da Insensatez – de Troia ao Vietnam, da escritora Barbara Tuchman (1912-1989), editora José Olympio, 1985. A autora foi considerada à época pela crítica “a mais bem-sucedida historiadora dos Estados Unidos e, também, a melhor”. Sem mais delongas, o livro foi encomendado à Livraria Brandão, em São Paulo, recebido quatro dias depois, via Sedex, em excelente estado de conservação. De parabéns o Eurico Brandão Junior, notável continuador do empreendimento paterno.

Na sua pesquisa, Barbara Tuchman, duas vezes agraciada com o Prêmio Pulitzer, ressalta um fenômeno observável ao longo da História: “a busca, pelos governos, de políticas contrária aos seus próprios interesses”. Em outras palavras, por que decisores políticos com tanta frequência agem de forma contrária às recomendadas pela razão, sobrepujando até os próprios interesses?

No seu best seller mundial, a autora analisa acuradamente quatro situações históricas de insensatez: a Guerra de Troia; os desacertos de seis papas (Sisto IV, Inocêncio VIII, Alexandre VI, Leão X e Clemente VII), que provocaram a Reforma Protestante; o rei Jorge III e a perda da América; e a tragédia do Vietnã, a mais desmoralizante derrota norte-americana da história contemporânea. Ressalta ainda que os desgovernos resultam da combinação de quatro características: a tirania ou opressão, a ambição desmedida, a incompetência ou decadência, e a insensatez ou a obstinação.

Na sua análise, reproduz Tuchman a reflexão de um historiador inglês: “Nada mais injusto do que julgar homens do passado pelas ideias do presente. Tudo aquilo que se possa dizer a respeito de moralidade e sabedoria política se constitui, certamente, em conceito passível de alteração”. Uma ainda muito oportuna recomendação.

Como exemplo religioso, Tuchman relata sucintamente a história de Roboão, que assessorado por jovens e babões colegas de infância resolveu não acatar as sugestões dos seus sábios conselheiros, não oferecendo concessões aos derrotados, preferindo ampliar a ferocidade vingativa de um tal de Adoram, do Doi-Codi da época, que terminou seus dias assassinado a pedradas, provocando a fuga desembestada de Roboão e a sua classificação pelos hebreus de “modelo de insensatez”.

A História, antiga e contemporânea, continua repleta de portentosas insensatezes. Humanos que se imaginam donos da verdade – reis, papas, bispos, presidentes de república, guardas de quarteirão, juízes de qualquer instância, ditadores e semi-ditadores, dirigentes de clube de futebol e de federações, vigias de prédios e goleiros de times famosos, entre outros – que não percebem seus irrefreáveis envolvimentos nas fogueiras da vaidade ou no endeusamento bajulático dos seus derredores, imaginando-se sempre “flodões” insubstituíveis.

Uma outra história do livro ilustra notável faceta da insensatez. Imagine um papa chamado Leão X, da casa dos Médicis, que precisava de dinheiro para construir uma basílica gigantesca que seria denominada de São Pedro. Para tanto espalhou vendedores de indultos por tudo quanto era recanto, uns monges mendicantes, que ofereciam de porta em porta certificados papais que perdoavam todos os pecados. Os vendedores de certificados  tinham até um slogan, bolado por um cretino mais atilado chamado Tetzel, que era monge dominicano: “Tão logo o dinheiro tilintar nos cofres, a alma subirá aos céus”. Na Universidade de Wittenberg, entretanto, um dos professores recusou-se a atestar a autenticidade dos certificados das indulgências. Seu nome era Martinho Lutero, um filho de mineiro que tinha ingressado na ordem agostiniana. O resto da história, todo mundo cristão desabiscoitado sabe de cor e salteado. 

O livro da Barbara Tuchman tem um epílogo intitulado Uma Lanterna na Popa. Nele se diz que “o repúdio da razão é a primeira característica da insensatez.”  Que recebe apoio irrestrito da vaidade, da ambição, do excesso de poder, da paralisia mental, da prática nepotista, dos complexos de superioridade, das aparências e dos preconceitos. E da ausência de críticos construtivistas indutores de debates sobre as alternativas ainda não postas à mesa. Sem estes, sempre haverá alternâncias bruscas entre altos e baixos, luzes e sombras, vidas e mortes. Tal e qual a história de Montezuma, imperador do México de 1502 a 1520, cuja passividade abilolada e o arrependimento tardio lhe custaram derrota, desânimo e vida.

(Publicada em 28.10.2010, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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