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JESUS E PEDRO, NORDESTE AFORA
 Não conheço pessoalmente o cineasta Guel Arraes, mas gostaria muito que ele lesse o texto do Eduardo Hoornaert, historiador e professor da Universidade Nacional Autônoma do México, no livro-homenagem aos 80 anos de Pe. Comblin, A Esperança dos Pobres Vive, Paulus, 2003.
 Segundo Hoornaert, depois de muitas andanças mundo afora, Jesus e Pedro se estabelecem no Nordeste. O Nazareno, olhar antenado, bem velhinho, cajado nas mãos, a face corada pelo sol, com a Torá, o livro sagrado dos seus primeiros tempos de sinagoga, ao alcance das mãos. Pedro, mais moço, observador recatado e temeroso de quase tudo, sempre ao lado d’Ele, circulando no meio das feiras e praças, prestando atenção para anotações noturnas dos ditos e chistes trocados por centenas de desempregados, de rostos estropiados por mil desesperanças, a fé inalterada no que se encontra muito acima do sol esturricante.
 No passeio, desapercebidos de teólogos, exegetas e outros talentos, os dois se deparam com uma velhinha bem chochadinha, pano preto nos cabelos embirilados, a portar um caderno de apontamentos sobre uma teologia por demais apropriada para a região: a Teologia da Enxada. Escrita pelo padre belga nordestinado, oitentão de incansáveis andanças, morador da Casa da Árvore, Bayeux, Paraíba.
 No texto de Hoornaert, lido, relido e muito apreciado, a Teologia da Enxada é considerada o mais audacioso projeto teológico de Mestre Comblin, explicitado sobre duas grandes vertentes, a da tradição da Igreja e a da teologia do povo. Segundo a velhinha, entusiasta primeira de um assentamento na periferia, “toda pregação da Mensagem deve ser capaz de ser entendida pelos mais desletrados, para que eles possam melhor compreender o que o Homão pede a cada um de nós”. Num ensino mútuo que lubrifica o querer.
 Imagino um roteiro elaborado pelo Guel, com o Milton Gonçalves bem caracterizado de noventa anos, E com Pedro, caminheiro, sempre cauteloso, embora radicalmente apaixonado pelos ensinamentos recebidos. Ambos, com ouvidos bem grudados nas explicações da velhinha sobre as intenções da Teologia da Enxada: “uma comparação constante entre o significado religioso que o povo atribui à sua vida e o sentido que lhe atribui a revelação bíblica”, a ressaltar “uma cultura nordestina impregnada de valores cristãos”, ponto de partida das reformulações necessárias para um novo caminhar, existencialmente mais solidário e com os pés no chão, na direção de um agora sem demora de pão mais bem distribuído.
 Muito material já coletado em inúmeras pesquisas efetivadas por jovens estudantes. Em Tacaimbó, Pernambuco, e Salgado de São Félix, Paraíba, existem anotações para fazer roteiros da gota serena, a redundar num filme de bom tamanho e efeitos de bilheteria semelhantes aos alcançados por  Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Uma produção que mereceria  aplausos generalizados, mais uma vez a demonstrar a inteligência do trabalhador rural, sem lenço nem documento, sem letras nem posses, que aos poucos vai se percebendo como parte essencial de um país controlado por uma elite mesquinha, que crítica tudo que não estiver ao seu gosto, sempre a reproduzir o negativo do estrangeiro, desconhecendo que o nosso grande destino, como Nação, somente será consolidado a partir de uma efetiva integração nacional, de bem menos violência e bandidagem, muito socialmente solidária, economicamente mais equilibrada.
 O final do filme retraria o Nazareno, o Pedrão e a velhinha, de mãos dadas com um sem-terra, um sem-teto, um sem-emprego e um com-fome, a pressentirem a chegada de novos tempos e horizontes para um planeta que está a merecer a convergência dos pensamentos díspares, resguardadas as individualidades, rejeitados os individualismos pernósticos ainda cheio de eiras e beiras, embora por tempos cada vez mais diminutos.
 

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