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INSATISFAÇÕES DO PRESENTE
Em agosto do ano passado, aos 62 anos, eternizou-se Tony Judt, prêmio Hannah Arendt de 2007, um humanista que rejeitava radicalmente o individualismo niilista da extrema direita e o socialismo deturpado do passado, tornando-se defensor intransigente de uma igualdade de direitos situado bem acima da simples eficiência, cada agrupamento devendo confrontar os males sociais, responsabilizando-se por seu papel na construção do mundo dos amanhãs.

No seu livro último – O Mal Ronda a Terra, Objetiva 2011 – Judt denunciou veementemente: “Há algo de profundamente errado na maneira como vivemos hoje”. E lamentava que algumas perguntas não mais estivessem sendo feitas, ainda que suas respostas não fossem fáceis ou demandassem reflexões várias: É bom?, É justo?, É adequado?, É correto?. Questões que, devidamente comunicadas à comunidade planetária, minimizariam insatisfações de uma contemporaneidade que está irradiando mil e trocentas perplexidades, iras, angústias e fobias por todos os poros, favorecendo violências e destemperos que frustram as esperanças de um amanhã mais radioso para todos os povos e nações.

Na Introdução, Judt começa com uma uma notável reflexão de Alexis de Tocqueville (1805-1859), autor de A Democracia na América, um dos livros que mudaram o mundo, ainda muito pouco lido pela classe política brasileira: “Não posso deixar de temer que os homens cheguem a um ponto em que vejam todas as novas teorias como perigosas, todas as inovações como aborrecimentos cansativos, todos os progressos sociais como um passo inicial para a revolução, e que por isso se recusem absolutamente a realizar qualquer movimento”. Tal e qual políticos que, como parlapatões babaovísticos, buscam encontrar os mais diversos culpados por ocasião das denúncias com ampla veredicidade que se abatem por sobre eles, seus protetores e apaniguados. Inclusive buscando atentar com vilanias hipócritamente disfarçadas uma imprensa cada vez mais consciente das suas funções cidadãs, que denuncia abusos cometidos contra simples caseiro e manobras pouco explicadas que multiplicam patrimônio em curto espaço de tempo.

Recomendo entusiasmado alguns capítulos memoráveis do livro. Na Introdução, Judt ressalta as três grande inseguranças contemporâneas: a econômica, a física e a política. Inseguranças que alimentam medos, corroendo a interdependência entre os três poderes nos quais se apoiam as sociedades. Na área econômica, “quanto maior a distância entre os poucos ricos e os numerosos  pobres, piores os problemas sociais”, posto que a desigualdade é altamente corrosiva, apodrecendo as sociedades a partir dos seus interiores. E nos países em desenvolvimento como o Brasil, “o crescimento econômico beneficia a todos, mas privilegia desproporcionalmente uma pequena minoria em posição de explorá-lo”. E a cacetada é direcionada para a área pública, a empresarial e os diferenciados meios de comunicação, obcecados pela busca de riqueza material, mesmo que a uma velocidade bem menor que a praticada pelos inescrupulosos: “talvez seja preciso começar lembrando a nós mesmos e nossos filhos de que nem sempre foi assim. Pensar ‘economisticamente’, como temos feito nos últimos trinta anos, não intrínseco aos seres humanos. Houve um tempo em que organizávamos nossas vidas de maneira diferente”.

Finda a leitura do livro do Tony Judt, com direito á inúmeros sublinhados, uma advertência ficou latejando, a de John Stuart Mill: A ideia é essencialmente repulsiva, de uma sociedade estruturada apenas pelas relações e sentimentos suscitados pelo interesse pecuniário.

Com relação às inquietações brasileiras, que a presidenta Dilma saiba ampliar a admiração por ela sentida pela gente brasileira, na qual estou incluso, habilmente defenestrando quem, pela segunda vez, maculou sem qualquer pudor uma gestão presidencial.

PS. Num estado nordestino, alguns deputados desejam alterar a Constituição Estadual para possibilitarem a reeleição, pela vez terceira, do presidente da Assembleia. Imoralidade das imoralidades, a maracutaia merecendo forte repúdio do eleitorado.

(Publicada em 06/06/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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