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Quando eu estava me preparando para uma noitada de leitura sobre As Quatro Viagens de Colombo, de Laurence Bergreen, eis que os Correios me entregam um texto considerado como um dos mais importantes deste século, cem anos que ainda principiam sem saber para onde vão, repleto de individualismos, camarotizações idióticas, hedonismos pedantes, multiplicação de preconceitos e globalizações espúrias, onde “mercado é ferramenta para organizar uma economia produtiva. Mas não pode regular tudo: política, lei, espaço público, saúde, educação... Quando o poder é muito concentrado, seja nas mãos do governo ou de oligopólios privados, há espaços para ineficiência e corrupção... Os brasileiros me parecem preocupados com corrupção.”, opiniões do autor, filósofo Michael Sandel, um dos mais populares professores da Universidade de Harvard, cujas aulas on-line já foram visitadas por mais de doze milhões de alunos, também em séries exibidas nas redes públicas TV PBS e BBC.

O livro se intitula Dar e Receber – Uma Abordagem Revolucionária sobre Sucesso, Generosidade e Influência, Sextante, 2014. De Adam Grant, o mais jovem professor titular e o mais bem avaliado docente da Wharton School, também pesquisador e orientador premiado, consultor do Google, IBM, Fórum Econômico Mundial e Nações Unidas. E que ainda carrega o título de um dos melhores professores de administração de menos de 40 anos, além de ser PhD em Psicologia Organizacional por Michigan e bacharel por Harvard.

O livro Dar e Receber é uma baita bofetada, divertida e revolucionária, de como gerenciar os novos ambientes empresariais, familiares e comunitários, desmentindo de uma vez por todas aquela expressão, conhecida pela turma do mensalão brasileira, de que “o mundo é dos espertos”. Um trabalho altamente recomendável para a classe política brasileira, de todos os naipes e sentenças, hoje envolvida com acusações recíprocas de incompetência e corrupção, ausência de criatividade e chularias outras, além das conivências e covardias que em tempos outros muito alegrariam o Dr. Guilhotin, aquele personagem sinistro da Revolução Francesa.

No texto  do Adam Grant, como psicólogo organizacional ele corrobora com os pesquisadores que dividem as pessoas em três categorias profissionais: os tomadores (takers), os doadores (givers) e os compensadores (matchers). Os primeiros gostam mais de  receber que de dar, sempre fazendo a reciprocidade pender para o seu lado. Não são cruéis nem maldosos, apenas cautelosos e defensivos. 

Os doadores fazem a reciprocidade pender para a direção dos outros, preferindo dar mais que receber, ministrando aos menos favorecidos maneiras estratégicas de formar benefícios para si próprios. Não se submetem a atos de sacrifícios, apenas mantendo o foco no agir dos interesses alheios. A psicóloga Margaret Clark, de Yale, revela que a maioria das pessoas age mais como doadoras nos relacionamentos mais íntimos.

Nas funções empresariais, entretanto, um terceiro estilo aparece: os compensadores, que se empenham em preservar o equilíbrio, onde seus relacionamentos são regidos por troca de favores uniformes. Segundo Grant, “dar, receber e trocar são três estilos fundamentais de interação social, mas as linhas entre eles são tênues e voláteis”.

Diferentemente dos arroteiros políticos da nossa pátria, “a vitória dos doadores desencandeia efeitos em onda, contribuindo para o êxito de outros indivíduos no contexto”. O investidor de risco Randy Komisar capta a essência da questão: “É mais fácil vencer quando todos querem que você vença. Quem não faz inimigos chega ao topo com mais facilidade.”

E o livro descreve um doador caipira que assinava suas cartas de propaganda política como Sampson’s Ghost (Fantasma de Sampson). E que foi derrotado várias vezes, embora sendo considerado o mais popular dos políticos da lista. E que seu verdadeiro nome era Abraham Lincoln. Uma liderança norte-americana incontestável, que quando conquistou a presidência dos EEUU, em 1860, não titubeou em convidar os três candidatos derrotados indicados pelo Partido Republicano para ocuparem lugares como secretário de Estado e secretário do Tesouro, o terceiro para Procurador Geral. E a historiadora Doris Kearns Goodwin relata em Lincoln, sua biografia, que “todos os membros da administração eram mais conhecidos, mais instruídos e mais experientes na vida pública que Lincoln. A atuação deles como secretários poderia ter eclipsado o obscuro advogado das pradarias”.    

E a justificativa dada por Abraham Lincoln a um repórter valeria a pena estar estampada em todos os gabinetes executivos brasileiros: “Não tenho o direito de privar a país dos serviços deles”. E a conclusão da biógrafa Kearns Goodwin merece endosso geral: “o sucesso de Lincoln em manejar os fortes egos desses homens no gabinete sugere que, quando se trata de políticos realmente notáveis, as qualidades que geralmente associamos a decência e moralidade – generosidade, sensibilidade, compaixão, honestidade e empatia – também podem ser poderosos recursos políticos”. 

O livro Dar e Receber é uma excelente oportunidade para compreender o que disse Chip Conley, um empreendedor vitorioso contemporâneo: “Ser doador não é bom nas corridas de 100 metros, mas é valioso nas maratonas”. E como a questão do longo prazo está encurtando, ela está se tornando um dos fatores que tornam a doação mais produtiva em termos profissionais. 

Quem planta, colhe, já dizia um muito antigo adágio popular, embora uma advertência final seja mais que necessária: que os doadores jamais sejam considerados ingênuos ou submissos. O livro do Adam Grant mostra como os doadores se protegem na mesa de negociação, capacitando-se para reforçar o rítmo de doação de maneira acelerada. Favorecendo um nunca rastejar. Entendendo porque doar primeiro é um caminho promissor para alcançar sucesso, sempre auxiliando o progresso profissional de outros semelhantes.

PS. A história contada por Adam Grant sobre  Kenneth Lay, o principal vilão do escândalo da Enron, com falência e tudo, considerada durante cinco anos consecutivos, pela revista Fortune, como empresa mais inovadora dos EEUU, merece ser lida e relida, para melhor classificar as homenagens hipócritas distribuídas mundo afora, inclusive com personalidades que sempre valeram apenas um tostão furado, “papudais”, merecedoras de uma boa temporada na Papuda.  

(Publicada em 04.05.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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