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IGREJA COM OUSADIA
 Com a eternização do cardeal italiano Carlo Maria Martin, no último dia de agosto passado, despertou-me o interesse de reler  Diálogos Noturnos em Jerusalém: sobre o risco da fé, editado pela Paulus/PUC-RJ em 2008, um papo frutuoso entre o ex-arcebispo de Milão e o padre jesuíta Georg Sporschilol, acontecido em Jerusalém, onde assuntos múltiplos foram tratados sobre uma Igreja que necessita sair das desesperanças causadas nas últimas décadas para um nível elevado de evangelizaçao libertadora, principalmente entre os jovens pensantes e não-ruminantes.  


Nas entrelinhas do livro, percebe-se a preocupação do cardeal Martini, a de que vivemos na era das pulhas as mais diferenciadas. Que independem de  sistema econômico, escolaridade e renda, raça e religião, sexo e ideologia. Ilude-se hoje abertamente, utilizando os mais diferenciados meios e métodos de enganação, da praça pública à televisão a cabo, passando pela Internet, universidades e organizações não-governamentais, algumas delas neo-governamentais. Vitimando os abestados de sempre. 


O cardeal Martini parecia levar conta duas sinalizações, uma feita pelo economista Celso Furtado (“O planejamento não deve destruir as raízes da criatividade”), a outra advinda de William Edwards Deming ("A transformação deve ser feita por pessoas que detenham um profundo conhecimento"). Balizamentos indispensáveis para os que pugnam por uma igreja voltada para todos. Com um modo peculiar de bem vivenciar a mensagem cristã, sem histerismos nem calhordices canônicas, tampouco nepotismos e autoritarismos dos complexados, tudo respaldado num transecumenismo cativador, revigorante. Arrebatador, como todo bom pescador de novos companheiros, posto que uma andorinha só jamais edificará nossos amanhãs espirituais. 


Uma das preocupações latentes do cardeal Martini se voltava para com os que conquistam fiéis através de sabidíssimas pilantragens, talentosos show-men, artistas de sacristia, oferecendo mundos e fundos através de embromações cênicas, induzindo a ampliação do cinismo da caridade dita solidária.  Segundo ele, “a caridade é bonita. Aproveitamento da miséria dos outros é coisa bem diferente de uma eficaz evangelização libertadora”. 


Nas suas últimas entrevistas, o cardeal Martini não se acovardou: “O padre Karl Rahner usava de bom grado a imagem das brasas que se escondem sob as cinzas. Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas sobre as brasas que muitas vezes me assola uma sensação de impotência. Como se pode livrar as brasas das cinzas de modo a revigorar a chama do amor? Em primeiro lugar, devemos procurar essas brasas. Onde estão as pessoas individuais cheias de generosidade como o bom samaritano? Que têm fé como o centurião romano? Que são entusiastas como João Batista? Que ousam o novo como Paulo? Que são fiéis como Maria de Mágdala? ... “A Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo papa e pelos bispos. Os escândalos da pedofilia nos levam a tomar um caminho de conversão. As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas que envolvem o corpo são um exemplo disso. Estes são importantes para todos e, às vezes, talvez, são até importantes demais. Devemos nos perguntar se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja ainda é uma autoridade de referência nesse campo ou somente uma caricatura na mídia?”
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 02.11.2012)  
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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