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HORIZONTES BRASILEIROS
Confesso a minha mínima simpatia pela Míriam Leitão, jornalista brasileira mais premiada do país. Sua chatosidade televisiva me enerva, talvez por ela apresentar uma performance pouco atraente para os telespectadores nos noticiários informativos mais significativos. Vai daí a minha resistência emocional em ler os seus textos, muito embora muito bem escritos e apresentados sob uma lógica que merece aplausos.
 
Apesar da ingresia gratuita, surpreendi-me enormemente com a leitura do seu livro História do Futuro: o Horizonte do Brasil no Século XXI, RJ, Intrínseca, recentemente lançado. Um conjunto de reportagens devorado em menos de uma semana, onde a Leitão analisa meio ambiente e clima, demografia, educação, economia, classe média, política, saúde, energia, agricultura, tecnologia, cidade e mundo, sempre com interpretações voltadas para as próximas décadas, identificados os obstáculos, quando seguramente saberemos menos emocionalmente conhecer nossos defeitos, nossas virtudes e nossas potencialidades, com seus riscos e vantagens não exploradas. E, segundo ela, “o combate à corrupção será feito com a tenacidade com que derrotamos a ditadura, a hiperinflação e estamos reduzindo a pobreza ... com um mercado interno mais amplo, estabilidade monetária e muito talento empreendedor”.
 
As tendências apontadas pela Míriam Leitão são resultados de quatro anos de pesquisas, viagens, entrevistas com pessoas dos mais diferenciados calibres. Apontaria, neste espaço fraternalmente concedido pelo papa Luiz Berto, algumas dos balizamentos delineados pela competente jornalista, que não tem pretensões de fazer previsões mas sim de ampliar enxergâncias:
1. Há 18 países que possuem 70% da biodiversidade do planeta. O Brasil é o maior de todos. Mas a Amazônia teve desmatada, entre 1992 e 2012, uma área equivalente aos estados RJ, SP e ES. Há a necessidade de eliminar o conluio entre os criminosos e seus protetores políticos.
2. A população brasileira está encolhendo. Em 2050, o país terá menos dez milhões de crianças de zero a quatro anos do que tinha em 2010. No país, perdem a vida por ano mais brasileiros que o total de soldados americanos mortos em 15 anos na Guerra do Vietnam, a maioria sendo de jovens negros. Na nação brasileira, fala-se mais de 200 línguas, existindo mais de 200 tribos indígenas, algumas ainda isoladas do mundo.
3. Na área da Educação, apesar de alguns avanços, o país ocupa os piores lugares no Pisa, a mais conhecida avaliação internacional sobre aprendizado. A sala de aula do futuro será totalmente diferenciada das  atuais, dada a velocidade digital que se agiganta.
4. Na Economia, a confiança sobe e desce tal e qual uma montanha russa. O futuro da moeda exige mudanças governamentais e no comportamento das famílias, tornando-se urgente saber lidar com dívidas adquiridas. Os desafios serão aumentar a produtividade e proteger vidas humanas. Urge encontrar respostas para enfrentar os obstáculos já emergidos.
5. A desigualdade ainda permanece muito alta: 1% mais rico da população é possuidora de ¼ de toda a riqueza brasileira, os 5% mais ricos detendo quase metade. Mulheres ganham um terço menos que os homens, negros recebem menos que brancos, o machismo tolhe as mulheres, o racismo constrange e fere os negros, impossibilitando uma democracia mais legítima e uma economia mais taluda.
6. No segmento político, nossa democracia se encontra em crise, embora nunca tenha sido tão forte. O cidadão está insatisfeito, exige-se mudanças na comunicação, o desafio maior sendo o de saber superar as turbulências sem romper o tecido construído após anos de regime militar. O combate à corrupção deverá ser intensificado e uma reforma política se faz urgente em todos os segmentos sociais. Segundo a autora, o coronelismo necessita  ser erradicado, posto que ele “pressupõe a decadência do poder privado e funciona como processo de conservação”. E mais: “os coronéis não eram poderosos apenas pelo que possuíam, mas também porque recebiam favores do Estado”.
7. Na área da Saúde, ainda se morre de tuberculose , uma doença que foi dominada nos anos 1940. O saneamento é mínimo em todo território nacional. Um dos maiores especialistas brasileiros, economista André Médici, afirmou recentemente que “o Brasil gasta pouco e gasta mal com a saúde”.
8. Em relação ás nossas fontes energéticas, o país ainda se encontra desatento a geração de energia fotovoltaica, a que vem do sol e a que mais cresce atualmente no mundo inteiro. A eólica já é maior que a nuclear, em 2018 tendo a mesma capacidade de uma Itaipu. Embora integrando o grupo de países com menor risco hídrico do planeta, não podemos facilitar com as estiagens.
9. Um alerta: se o agronegócio parasse de produzir e exportar por alguns meses, o pais quebraria. O campo tem que ouvir a ciência e os nossos laboratórios já possuem conhecimento sobre como o país deve continuar sendo vencedor nas próximas décadas.
10. Embora execute o programa Ciências sem Fronteiras, que envia estudantes para o exterior, o Brasil continua fechando suas portas à entrada de equipamentos e substâncias de pesquisas, não ratificando acordos de cooperação com centros de tecnologia de ponta.
11. Das 23 megacidades do mundo, duas são brasileiras. De 2005 até 2050, acontecerá a maior onda de urbanização da história da humanidade, com uma população que passará de 3,2 bilhões para 6,3 bilhões. Do todo planetário, 67% estarão nas cidades. O economista Edward Glaeser afirma que “as cidades não empobrecem as pessoas; elas atraem os pobres”. E as cidades necessitam, com criatividade e coragem política, favorecer mais espaços para ônibus, bicicletas e pedestres, reestruturando áreas mortas, favorecendo uma mobilidade mais compatível com as necessidades dos trabalhadores urbanos, com os administradores das cidades, tomando decisões com olhos voltados para as exigências do futuro. Sem risinhos nem paternalismos oportunistas.
 
O livro da Leitão nos conscientiza mais, favorecendo o conhecimento de nossos erros trágicos e de nossos avanços animadores. Retomar o crescimento, antes que seja tarde, requer grandezas morais, decisões embasadas na vontade popular, balizamentos para algumas décadas, favorecendo uma cidadanização solidária, participativa, nunca demagógica nem eleitoreira. Com a transparência que impossibilite ansiosos delinquentes de meterem as mãos nos cofres públicos.   
 
(Publicado em 19.10.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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