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HOMENS MEDÍOCRES
Aproveitei os dias da folia momesca para duas atividades nada relacionadas: aplaudir o Carnaval de Olinda – tido e havido, este ano, como o mais autêntico e animado carnaval do Brasil, para alegria da prefeita Luciana Santos – e ler O Homem Medíocre, consagrado trabalho de José Ingenieros, argentino notável falecido na passada década de vinte.
O livro é um ensaio dirigido aos jovens, propondo tarefa nobre: estigmatizar a rotina, a hipocrisia e o servilismo, três grandes virus que desenobrecem a vida de qualquer um. E a orelha do livro já traz sadia advertência: é rigorosamente verdadeiro que os sujeitos mais depreciáveis são justamente os pregadores da moral, raramente ajustando o próprio comportamento à prodigalidade de suas palavras. Muito diferentemente de Ingenieros, que sabia bem renunciar a costumes e engajamentos considerados por ele perniciosos e que escrevia sem ruborizar-se, diferentemente dos sepulcros caiados denunciados pelo Homem de Nazaré, observadores dos arqueiros mínimos nos olhos dos vizinhos, pouco se lixando para as traves enfiadas nos seus próprios.
No ensaio tornado público pela Juruá Editora, o autor divide os seres humanos em três categorias: inferior, medíocre e superior. O inferior  possui uma personalidade não desenvolvida, vivendo abaixo da moral e da cultura dominantes. O superior é original e imaginativo, pensa melhor do que o meio em que vive e pode sobrepor ideais próprios às rotinas dos demais.
Já o ser humano medíocre é imitativo por excelência, plenamente adaptado para viver em rebanho, a refletir rotinas, preconceitos e dogmatismos para sua domesticidade. Incapaz de concretizar um ideal, raciocina pelas cabeças dos demais, encontrando-se fora dele o talento, a dignidade e a virtude. Os medíocres são “cegos para as auroras, ignorando a quimera dos artistas, o sonho dos sábios e as paixões dos apóstolos”.
O cartão de visita dos medíocres é a sua vulgaridade. Admiradores de um utilitarismo egoísta, imediatista, miúdo e mesquinho, ignoram que as grandezas do espírito exigem a cumplicidade do coração, posto que “o homem sem ideais faz da arte um ofício; da ciência, um comércio; da filosofia, um instrumento; da virtude, uma empresa; da caridade, uma festa; do prazer, um sensualismo”. E a conseqüência não poderia ser outra: “a vulgaridade transforma o amor à vida em pusilanimidade, a prudência em covardia, o orgulho em vaidade, o respeito em servilismo”. 
Não recomendaria a leitura do ensaio de José Ingenieros aos mediocres. Eles certamente não o entenderiam, posto que dotados de portentosa indigência  intelectual, carecendo de bom gosto, toda leitura neles produzindo os efeitos de um lento envenenamento.
O homem medíocre nada assume. Originalidade causa-lhe calafrios. Como não aprecia decidir, remete as alternativas para uma assembléia chamada de coletivo, onde os seus esclarecimentos para o andamento dos trabalhos tornam-se dispensáveis, posto que sensaborões e nada elucidativos.
O medíocre carrega uma característica: a inveja. Analisa José Ingenieros: “se possui a intenção de praticar o bem, equivoca-se até chegar ao assassinato: poder-se-ia dizer que se trata de um cirurgião míope, predestinado a ferir os órgãos vitais e conservar a víscera cancerosa”.
Um poeta, Joaquim Maria Batrina, é lembrado no livro O Homem Medíocre, quando analisa a incapacidade do dirigente peba em diferenciar inveja e emulação. Eis os versos: “A inveja e a emulação / parentes dizem que são; / embora em tudo diferentes, / finalmente também são parentes, / o diamante e o carvão.”
Dante, na Divina Comédia, considerou os invejosos indignos até do inferno. No entanto, ele em muito ampliaria as dependências da capetania (terras do Capeta) para os medíocres, aqueles que não vislumbram oportunidades sadias, despreparados sempre para funções socialmente mais responsáveis.
 

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