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GUIAS HISTÓRICOS E CULTURAIS
Outro dia, num educandário recifense de classe média, particular e misto, todos vestibulandos 2016, apresentei uma questão na fase final de um papo sem fricotes, a ser respondida por escrito: Na opinião de vocês, quem é a mulher mais célebre de todos os tempos, em todas as áreas da história? A classe toda se agitou, a votação tomou conta do ambiente, tudo transcorrendo na mais esfuziante participação coletiva.
 
Dos quase duzentos votantes (rigorosamente 197), Maria, a mãe do Homão da Galileia só foi lembrada por três alunos, duas mulheres e um homem, possibilitando-me a oportunidade de recomendar um livro sem bobajadas religiosas edificadas como verdades absolutas: Maria: a mãe de Jesus, Jacques Duquesne, RJ, Bertrand Brasil, 2005, 194 p. E ainda apontei três leituras de textos apócrifos (não canônicos) que despertaram a curiosidade de inúmeros cristãos sobre a mãe do Homão: o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho do pseudo-Mateus e o Livro da Infância do Salvador. A fonte citada foi Apócrifos da Bíblia e pseudo-epígrafos, 2v., Eduardo de Proença (org), SP, Fonte Editorial, 2010/2012. E incentivei todos para que pesquisassem no Google a Sagrada Família, consultando ainda o evangelho de Lucas (2,40), de tríade (Jesus, Maria e José) muito difundida a partir da Renascença.
 
Aproveitei a oportunidade para sugerir também aos presentes um livro que muito ampliará os conhecimentos de crentes e não crentes: Para conhecer a Bíblia: um guia histórico e cultural, Philippe Sellier, SP, Martins Fontes, 2011, 332 p. Sua leitura proporcionará uma visão mais consistente sobre a riqueza e a diversidade dos Livros que compõem o AT e o NT, seus personagens e os episódios que marcaram a cultura ocidental, incentivando uma plêiade de notáveis – escritores, filósofos, pintores, iluminadores, mestres-vidraceiros, escultores, gravadores, diretores de cinema e de televisão e cordelistas, além de exegetas e analistas em assuntos religiosos.
 
O autor do livro acima, Sellier, é professor emérito da Universidade de Paris IV – Sorbonne, traz informações históricas e culturais elucidadoras por excelência. Alguns exemplos: na expressão corrente “separar o joio do trigo” (Mt 13,24-30), joio em latim é zizania, que gerou a expressão “semear cizânia”, significando “introduzir perturbação, discórdia”; a expressão “descobrir seu caminho de Damasco”,  ainda hoje usada, tem origem no Atos dos Apóstolos 9, quando o fariseu Saulo de Tarso, um perseguidor de cristãos, converteu-se aos cristianismo, após ter sofrido uma queda de cavalo, ficado cego e ver, posteriormente, caídas as escamas dos seus olhos, significando uma mudança radical de vida; o Salmo 119, um poema organizado em ordem alfabética no hebraico, foi aplicado pelos cristãos à Lei do Amor do Evangelho; o Evangelho de São João, escrito em Éfeso pelos anos 90 e diferentes dos outros três, denominados sinópticos, posiciona-se  contrariamente às tendências pré-gnósticas surgidas ao final do primeiro século da nossa era, tendo o último capítulo (21) sido provavelmente acrescido pelos que cercavam o apóstolo.
 
Leituras que amadurecem consciências religiosas, favorecendo o que dizia o apóstolo Paulo: “quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e racionava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (1Co 13, 11). 
 
Com base nos resultados pífios do levantamento feito pelos alunos, também fiz menção a uma biografia sobre a mãe de Jesus, escrita por uma brasileiro. Intitulado Maria: a biografia da mulher que gerou o homem mais importante da história, o livro foi editado pela Globo, em 2015, tendo como autor Rodrigo Alvarez, um pesquisador que escreve sob assuntos complexos de um jeito muito compreensivo, sendo a leitura do seu texto de grande utilidade para os neófitos no conhecimento dos temas relacionados com os misteriosos desígnios de Deus para com esta singular personalidade. Muitos acontecimentos, esquecidos em papiros empoeirados, foram resgatados pelo autor, favorecendo uma compreensão mais nítida sobre a hoje considerada “Mãe de Deus”, uma mulher notável, que após uma gravidez controvertida, de uma fuga para o Egito, das pregações do filho ainda quase adolescente e de sofrimentos insuportáveis aos pés do madeiro onde ele foi crucificado como subversivo, dividiu a história da humanidade em antes e depois do seu próprio filho, o “deus encarnado”, na concepção de John Hick, teólogo de referência internacional, premiado, em 1991 com o Prêmio Grawemeyer, destinado ao pensamento inovador da área dos estudos de religião, autor do aplaudido A Metáfora do Deus Encarnado, RJ, Vozes, 2000, onde “a ideia da encarnação divina é melhor compreendida como ideia metafórica, e não literal, Ele agindo através da corporificação de um amor que é reflexão humana do amor divino”. 
 
Finalmente, para solidificar mais as reflexões escritas e orais de uma vida futura, profissional e pessoal da turma de vestibulandos, uma ferramenta de muita valia, inclusive para estudantes de Ensino Médio que pretendem alcançar uma vivência acadêmica consistente, de sólidas estruturas cognitivas: Os 100 argumentos mais valiosos da filosofia ocidental: uma introdução concisa sobre lógica, ética, metafísica, filosofia da religião, ciência, linguagem, epistemologia e muito mais, Michael Bruce & Steven Barbone (orgs), São Paulo Cultrix, 2013.  Na contracapa a proposta: “Esmiuçando a prosa filosófica, normalmente densa, os autores separaram 100 argumentos famosos e influentes, incluindo citações-chave, para explicar a abordagem e o estilo original. Cada argumento é revelado em sua forma essencial, com premissas e conclusões claramente identificadas e a forma do argumento especificado”.
 
PS. Um Natal 2016 muito porreta, sem muitos sacos de Noel, embora recheado de mil e um bons propósitos não fingidos, mais solidário com todos aqueles que, no Brasil, desempregados, podem ser classificados como os “Severinos de Maria”, do sempre lembrado poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto, que devem ser mais respeitados e com pleno direito a terra, trabalho, capacitação profissional e liberdade.
(Publicado em 19.12.2016, no site do Jornal da Besta Fubana e no site www.fernandogoncalves.pro.br) 
 
 

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