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FUNDAMENTALISMOS ATUAIS
Textos inteligentes muito me sensibilizam, na razão direta da repulsa que sinto por escritos lamurientos, babaquaras, idealizados como se o mundo inteiro ainda estivesse na época das cavernas, onde apenas uns poucos que sabiam ler dominavam os analfabetos, que ovelhosamente os imaginavam de patamares direcionais mais lúcidos, sempre possuidores da mais absoluta verdade.

Dentre as leituras inteligentes que me enriquecem cotidianamente, ampliando a minha ainda insuficiente “enxergância”, o site do Leonardo Boff – www.leonardoboff.com – é um dos mais lidos, pela argúcia do refletir e pela contemporaneidade das suas análises. Também expostas em mais de 70 livros publicados, um deles – Jesus Cristo Libertador - sendo responsável direto pelo meu retorno ao cristianismo, quando me tornei um militante helderista, até hoje soldado raso.

O último livro do Leonardo, posto à disposição dos leitores brasileiros pela editora Vozes, fornece, com rara didática, esclarecimentos valiosos sobre os atuais fundamentalismos vigentes nos quatro recantos do planeta. Sob título Fundamentalismo Terrorismo, Religião e Paz – Desafio para o século XXI, o ex-franciscano, hoje referência mundial em temas como ética, ecologia e espiritualidade, membro titular da Iniciativa Internacional Carta da Terra, descreve o surgimento dos fundamentalismos protestante, católico, islâmico e da globalização. E mais o fundamentalismo neoliberal e o fundamentalismo científico-técnico. Detalha os dois principais fundamantalismos políticos, o de Bush e o de Bin Laden e proclama a concretização de uma paz universal a partir das religiões, sustentando a posição ético-idealista defendida pelo teólogo Hans Küng no seu clássico Uma ética global para a política e a economia mundiais, editado pela Loyola, 2001. Uma ética planetária também enaltecida pelo frei Carlos Josaphat em seu trabalho mais recente – Ética Mundial – Esperança da Humanidade Globalizada, Vozes, 2010 -, quando ele estimula a transcedência da fé e a audácia da razão, denunciando sem titubear: “Com o imenso poder do Ocidente, permitindo o desenvolvimento do mundo moderno, em grande parte graças à exploração do novo mundo, se abrem alas para o mal social, para a corrupção apoiada e dinamizada pelas técnicas mais e mais organizadas a serviço das ambições, da criação e acumulação de riquezas nos continentes que se davam como o centro e, até certo ponto, donos da civilização e da cultura”.

Leonardo Boff, em seu livro, justifica por que a paz tem que se iniciar pelas religiões. Porque as principais áreas de conflito hoje têm subjacente uma questão religiosa. E ele cita o livro O choque das civilizações (1966), do professor Samuel Huntington, docente na escola de diplomatas de Harvard: “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central que mobiliza as pessoas”.

Lamentavelmente, na própria nação norte-americana, existem os que pensam em utilizar a força na crescente favelização planetária. Segundo dados da CIA, em 2002 havia um bilhão de  pessoas desempregadas, subempregadas e favelizadas no mundo, num crescimento de 25 milhões por ano. Para a CIA, eles são “óleo queimado”, “zeros econômicos”, “massa supérflua”, “que sequer merecem entrar no exército de reserva de capital”. E para que não se pense que estão despercebidas as consequências geopolíticas de um “planeta de favelas”, o Pentágono, segundo revela Boff, montou um esquema denominado MOUT – Military operations on urbanized terrain (Operações militares em terreno urbanizado), onde se diz friamente que “as cidades fracassadas e ferozes do Terceiro Mundo, principalmente seus arredores favelados, serão o campo de batalha que distinguirá o século XXI; a doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e de duração ilimitada contra segmentos criminosos dos pobres urbanos. Esse é o verdadeiro choque de civilizações”.

Ler o livro do Leonardo Boff é ainda perceber que “o fundamentalismo não padece apenas uma interpretação negativa. Há neles aspectos positivos que vale resgatar. Quando mais vamos aos fundamentalismos do cristianismo, do judaísmo e do islamismo, mais encontramos a dimensão libertária, o cuidado com os pobres e a veneração para com a natureza”. 

Para Boff, os ensinamentos de São Francisco de Assis e de Rumi, contemporâneos no século XIII, um na Itália e o outro no Afeganistão e na Turquia, poderiam inspirar a ampliação de relações marcadas pelo saber conviver, através da fraternidade universal, relegadas todos os tipos de indiferença.

Mais não posso dizer. Estragaria o prazer de uma leitura cidadã do livro do Boff, mundializante por natureza.

PS. Para quem deseja esmiuçar 2500 anos de brigalhadas entre o Oriente e o Ocidente, recomendo Mundos em Guerra, de Anthony Pagden, Novo Século, 2010

(Portal da Revista ALGOMAIS, 26/07/2010, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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