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FRASES & FATOS
O escritor alemão Helge Hesse, também diretor de alguns filmes de curta-metragem premiados, resolveu pesquisar frases que se ouve diariamente, muitas delas milenares, que mudaram o curso da História, investigando, de forma cronológica, o contexto histórico onde elas brotaram. E com base numa extensa pesquisa, escreveu um livro, recentemente lançado no Brasil, sob título A História do Mundo em 50 Frases,  pela Casa da Palavra. 
 
Um leitura inadiável para quem deseja conhecer um caminhar da Humanidade de mais de 2600 anos, através de uma viagem pela nossa história, desde a Antiguidade até os dias atuais, analisando como as frases pesquisadas foram pronunciadas num determinado instante crucial. Cada frase retrata uma determinada época, revelando vestígios e prognosticando futuros, mostrando a visão do mundo de cada autor.
 
Instado por amigo de décadas, Arãozinho Parnes, hoje sediado na capital da República, bem longe da Petrobras e seus larápios já identificados e merecedores de longos encarceramentos papudísticos, escolhi quatro frases, expondo-as aqui para os leitores deste site muito admirado. Ei-las:
 
1. A banalidade do mal – título completo do texto, Eichmann em Jerusalém: uma reportagem sobre a banalidade do mal, foi escrito pela notável filósofa Hannah Arendt (1906-1975), tudo começando numa noite de maio de 1960, quando Adolf Eichmann, antigo tenente-coronel das SS e um dos criminosos de guerra mais procurados, foi raptado num subúrbio de Buenos Aires, tornando-se reconhecido em Jerusalém, após 15 anos de clandestinidade sob o nome de Ricardo Klement, “um homem magro e discreto, careca, com cabelo escuro e óculos de tartaruga”. Um criminoso que não matou pessoalmente nenhum ser humano, mas foi o responsável direto pela transferência e assassinato de milhões de judeus nos campos de extermínio, por ele idealizados e controlados. Que passou, no julgamento, uma imagem banal, deliberadamente cômica, incapaz de refletir sobre o alcance das próprias ações. Comportamento que ludibriou até a análise de Hannah, muito embora Eichmann se tornasse “o paradigma de todos aqueles que negam as próprias responsabilidades nas suas ações alegando que apenas obedeciam ordens”. Muitos responsáveis pelo escândalo Petrobras-Pasadena utilizarão tal argumentação, tirando o rabo da seringa e nada devolvendo aos cofres públicos.
 
2. O dinheiro não tem cheiro – Proclamado imperador em julho de 69, Vespasiano (9-79 d.C.), de nome completo Tito Flávio Vespasiano, não tinha origem nobre. Filho de um cobrador de impostos e prestamista de província, ele progrediu no tempo do imperador Cláudio, distinguindo-se na Bretanha e sendo eleito pro cônsul no reinado de Nero, onde se destacou por não ter se enriquecido durante sua administração. Quando imperador, aos 60 anos, Vespasiano percebeu que estava à frente de um estado desagregado. Com trato simples e jovial, pôs as finanças do Estado em dia, possuindo habilidade para encontrar novas fontes de receita. Certa feita, tributando a urina que se utilizava para curtir peles, ouviu uma reação do filho. Vespasiano colocou moedas decorrentes do primeiro pagamento do novo imposto debaixo do seu nariz, dizendo simplesmente: “Não cheira”. Atualmente, o cínicos concluem que, quando se trata de dinheiro, a sua origem é a que menos interessa. Tal e qual os mensaleiros e petrobraseiros do século XXI, num país que muito precisa de um governante Vespasiano.
 
3. Deus não joga dados – Quando Alberto Einstein (1879-1955) percebeu que a mecânica quântica ameaçava abalar sua fé, ele tinha chegara à conclusão de que não existe, nem na Terra nem no universo, um sistema de referência absoluto, como aquele que, encerrado nas dimensões invariáveis de espaço e de tempo, constituíra, a partir de Aristóteles, a base de dois milênios de pensamento ocidental. Os estudos de Einstein também desfizeram as teorias de Newton, sobre a existência de espaço e de tempo absolutos. E a relatividade se explicitava: o pássaro se move por cima da Terra ou a Terra se move por baixo do pássaro? Segundo Einstein, “o espaço, o tempo, a velocidade e a massa já não podem ser consideradas medidas absolutas, mas medidas relativas, que se encontram em relação recíproca”. Tudo se confirmando, em 1919, durante uma expedição britânica para observar um eclipse solar. E muitos indagavam como Einstein iria harmonizar suas descobertas com sua religião e sua fé. E o célebre cientista jamais deixou de acreditar na existência de Deus. E a recusa de Einstein sobre a equiparação de Deus a um jogador de azar culminou na célebre frase: “Deus não joga dados”. E o século XXI ainda aguarda o desenvolvimento da teoria das cordas, baseada na suposição de que “os verdadeiros blocos de construção da matéria não são feitos de partículas, mas de segmentos enrolados (cordas), que oscilam em direções diferentes, dependendo da sua natureza”.
 
4. Não tive relações sexuais com essa mulher ... senhorita Lewinsky – Para sair da sisudez histórica, escolhi uma frase do ex-presidente Bill Clinton (1946-), que declarava peremptoriamente não ter tido relações sexuais com Mônica Lewinsky, apesar de ter nela experimentado, pela via xerecal, a introdução de um baita charuto, cubano certamente, façanha repetida várias vezes, em princípios de 1998. Tudo revelado a partir de uma gravação feita de conversas da Mônica com Linda Tripp, uma antiga colaboradora da Casa Branca. E as palavras de Clinton, numa audiência, em 26 de janeiro de 1998, pareciam querer dar um basta nas versões espalhadas. E disse mais: “Nunca pedi a ninguém que mentisse, nem uma só vez, nunca. Estas afirmações são falsas e agora tenho de regressar ao trabalho para o povo americano”. Entretanto, em 6 agosto do mesmo ano, Mônica Lewinsky declarou ter tido relações sexuais com Clinton por mais de 18 meses. Após 11 dias, Clinton admitiu ter tido uma relação imprópria com a Lewinsky, pedindo desculpas. Em novembro, Clinton indenizou Paula Jones, outra estagiária, que o acusara de assédio sexual, em 850 mil dólares. Em janeiro de 1999, o Senado votou contra o impeachment de Clinton. E a Dra. Hillary Clinton conservou-se ao lado do marido em todos os momentos, mesmo sabendo,  posteriormente, que ele havia faltado com a verdade dos fatos. O fato demonstrou a existência de duas Américas: uma liberal e tolerante e outra conservadora e cada vez mais fundamentalista. E os charutos, que fim levaram?    
 
Qual foi a pretensão do autor de A História do Mundo em 50 Frases? Ele mesmo explicita: “Esta viagem não pretende ser nem exaustiva nem equilibrada, o que aliás seria impossível, pelo fato de, entre outras coisas, nem todos os acontecimentos importantes da história universal terem dado lugar a uma frase célebre. O objetivo primordial deste livro é estimular no leitor o prazer pela história, para que, numa segunda fase, animado pela leitura e desejoso de aprofundar algum episódio, consulte a bibliografia onde estão incluídas as fontes de cada uma das frases”.
 
(Publicada em 24.03.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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