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FATOS E FANTASIAS
Sou um defensor intransigente dos estudos históricos ministrados desde as primeiras séries do Sistema Educacional Brasileiro. Favorecendo uma compreensão crítica mais qualificada das causas dos principais problemas estruturais nacionais, sempre escamoteadas por explicações macunaímicas, fantasiosas muitas,  inventadas outras tantas.
 
Buscando minimizar as minhas deficiências no conhecimento de fatos históricos, tenho me dedicado, nos últimos anos, a algumas leituras sobre guerra mundial, ditaduras, antissemitismo, processos de desabestalhamentos mentais, ampliação da espiritualidade e relatos históricos de heroísmos individuais e coletivos.     
 
Em uma das minhas últimas leituras sobre o III Reich e seus assassinos, deparei-me com um livro atualmente somente encontrado em sebos qualificados do país. O livro Os Últimos Dias de Hitler, de H. R. Trevor-Roper, SP, Flamboyant, contém excelente prefácio do escritor André François-Poncet, da Academia Francesa, onde ele explicita, respondendo, dois questionamentos feitos pelo autor do livro: Como conseguiram esse homem (Hitler) e seu bando arrebatar e manter o poder?; e Como esteve tão perto de vencer a guerra (Segunda Guerra Mundial)?
 
Segundo o prefaciador, a resposta da primeira pergunta é simples: “Hitler surgiu numa época conturbada, como uma espécie de Messias pelas aspirações da multidão. Foi o ponto de encontro, a materialização das ambições, dos rancores, dos ódios, das nostalgias, dos velhos sonhos, das paixões arraigadas, dos preconceitos seculares de milhões e milhões de alemães. Antes de ser uma causa, foi um efeito, um reflexo. Antes de ser voz, foi eco”.
 
Para a segunda questão, uma outra resposta não difícil: “Ele deveu seus êxitos militares – êxitos que, de resto, lhe agravaram a megalomania e a loucura – às qualidades do seu povo, mas também, em medida não menos grande, à negligência, à cegueira de seus adversários, à recusa destes em ouvir as advertências para que abandonassem suas comodidades e cuidassem em tempo útil de enfrentar o perigo que os ameaçava”.
 
O livro revela ainda algumas fantasias feitas por oportunistas, quiçá vigaristas, cabendo ao autor do livro a incumbência de efetivar as pesquisas esclarecedoras que redundaram no notável estudo. Algumas delas: a declaração de um tal doutor Karl Heinz Späth, de Stuttgard, que sob juramento declarou ter cuidado de Hitler ferido do pulmão por tiro de artilharia russa, na tarde de 1° de maio, tendo constatado posteriormente sua morte; depoimento da jornalista suíça Carmen Mory, segundo a qual Hitler estaria escondido numa propriedade da Baviera, com Eva Braun, sua irmã e o marido Hermann Fegelein, as quatro personalidade com intenções suicidas em caso de descoberta pelos adversários; e anúncio feito por rádio, pelo almirante Dönitz, segundo o qual Hitler teria sido morto no dia 1° de maio combatendo à frente das suas tropas, em Berlim.  
 
Numa extensa Introdução em nova edição, escrita dez anos após a primeira, Trevor-Roper nos brinda como efetivou suas investigações, desmontando algumas “versões” que costumam pulular em mentes descuidadas diante de acontecimentos emocionais que afetam comunidades inteiras. Uma das personalidades desmitificadas por ele é a de Eva Braun, esposa de Hitler por um dia, que é tratada com desprezo e severidade, classificada como tola, puerilmente sentimental e vulgar, muito embora se dirigindo a Berlim, encerrando-se no bunker para morrer ao lado de Hitler, tendo sido a primeira pessoa a se envenenar no dia 30 de abril de 1945. De igual coragem, Goebbels e esposa também se  solidarizam com o até então comandante do III Reich, “fazendo-se matar a tiros de revólver por um nazista de sua devoção”, depois de envenenar os próprios seis filhos.
 
Ainda no dia 25 de abril, Hitler se agitava como um possesso, expedindo mensagens para todas as direções, como se ainda tivesse nas mãos o comando geral das operações do Reich. Diante da inexistência de respostas, alucinava-se, indignava-se, proclamava traidor todos os seus principais auxiliares, tornando-se mais apoplético quando tomava conhecimento das negociações iniciadas por Himmler com o conde Bernadotte, delegado da Cruz Vermelha sueca, objetivando a obtenção de um armistício com os Aliados. Exasperação ampliada diante do fato dele classificar sempre o assassino Himmler, a mais poderosa e mais temida personalidade do III Reich, depois do próprio Führer, de “o fiel Heinrich”.  
 
No sua pesquisa histórica, Trevor-Roper demonstra cabalmente a morte do famigerado Hitler, após entrevistar onze das vinte e tantas pessoas que permaneceram no bunker até o fim, embora as circunstâncias em que se deu a morte, seu sepultamento e o destino do seu corpo continuassem ainda, à época da feitura do livro, envoltas em denso mistério. Algumas das entrevistas foram efetivadas na prisão de Flensburgo (Keitel, Jodl, Dönitz e Speer), enquanto outras se concretizaram em Berchtesgarden (as duas secretárias de Hitler, Wolf e Schröder). Ainda sendo possível localizar outros membros do círculo de Hitler que haviam deixado o bunker por volta de 22 de abril, os quais indicaram os que tinham permanecido em Berlim.
 
O livro historia a crescente alucinação criminosa de Hitler nos últimos dez dias. Um depoimento de Gottob Berger, um dos chefes das SS, que presenciou um dos destemperos do alucinado, é retrato fiel do que se passava no bunker: “Gritava com força cada vez mais. Logo a sua cara empurpureceu. Acreditei que ia dar-lhe, a qualquer momento, uma congestão. Tive a impressão, inclusive, de que havia sofrido um ataque, porque seu lado esquerdo... porém, não podia vê-lo com nitidez. Mantinha imóvel o braço esquerdo, que há uma quinzena se movimentava com facilidade. E parecia que não pisava muito bem com o pé do mesmo lado. Muito menos a mão esquerda podia manejá-la como de costume. Só movia a mão direita”.
 
No livro também é analisada uma afirmação de Hitler em 1942: “Se não se tem família à qual legar a casa, a melhor coisa a fazer é incendiá-la e arder com tudo quanto ela contém. Que bela pira funerária!”.
 
O leitura de Os Últimos Dias de Hitler, de H. R. Trevor-Roper, faz emergir as intenções patológicas de um facínora através de pesquisa feita por um historiador de talento, também psicólogo versado nas melhores disciplinas de Oxford, sobre um Reich que se pretendia milenar. 
 
(Publicado em 23.03.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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