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FAROL PARA EMPREENDEDORES
 Numa recente confraternização de Natal, uma das irmãs de criação de Nelson Mandela, a Mônica Carvalho, paixão fraternal de décadas, me trouxe um valioso presente: um livro, com dedicatória atenciosa do autor, uma das inteligências mais portentosas da área digital, segundo Marcelo Tas também engenheiro, “um professor obcecado e tietado, inovador, fundador do C.E.S.A.R. e do Porto Digital do Recife, PhD em Computação na Inglaterra, desde 1973 envolvido com computadores, quando escreveu sua primeira linha de código, numa máquina que possuía 32K de memória e era maior que uma Kombi”. E vai mais longe o Tas: “Ao contrário do estereótipo do nerd pálido, curvado e tímido, que passa o dia colado na tela, ele tem a fala solta e o físico de triatleta. Como certos pernambucanos da gema, nasceu na Paraíba. O ‘cabra’ – expressão que usa a dar com o pau – não esconde o título honorífico de que mais se orgulha na carreira: batuqueiro titular do Cabra Alada, grupo de maracatu do Carnaval recifense”.

Seu nome? Sílvio Lemos Meira, Sílvio Meira mais conhecido, nascido em Taperoá, Paraíba, há 57 anos, “um criado tomando leite de cabra em cano de espingarda, que migrou, ainda na puberdade, para Arcoverde, Pernambuco, onde a ‘água de seu Jé’ multiplicou as suas sinapses”, segundo Marcos Magalhães, ex-presidente da Philips, atualmente diretor do ICEBrasi. Segundo Magalhães, “empreendedor é aquele que vê diferente, vê mais longe; é movido por uma causa e através dela mobiliza outros; vê o risco como estímulo e tem uma enorme capacidade de reerguer-se; é um inovador; gosta de gente; é um líder e um espelho; e também um patriota”. 

O Sílvio Meira vive se inquietando diante dos desafiadores amanhãs brasileiros, travando, nos quatro cantos do país, múltiplas batalhas contra o provincianismo, sempre a repetir, para colaboradores e discípulos, duas famosas advertências do notável poeta luso Fernando Pessoa: “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas ideias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. A segunda: “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”. 

O aplaudido cientista da UFPE já percebeu há muito tempo que uma profunda crise vem se agigantando sobre o contexto latino-americano, acarretando fortes impactos no processo de formulação de novas estratégias, públicas e empresariais, afetando o desempenho organizacional do continente. Que exige, hoje, para a superação dos obstáculos emergenciais, uma continuada formação cultural, eclética até, para que se possa entender os sistemas de trabalho e os seus inter-relacionamentos, a complexidade dos ambientes externos, tudo integrando-se nas engrenagens de um processo de desenvolvimento, muito  mais voltado para o econômico-financeiro do que para o social libertador. 

O instante nacional, segundo Sílvio Meira, está a exigir novas posturas profissionais e posicionamentos estratégicos, onde o binômio competência x criatividade deve estar substancialmente vinculado a um compromisso edificado num planejamento de longo prazo, exequível e politicamente convincente. Servirá o binômio acima de pano de fundo para a formatação de cenários que tenham como meta última a sobrevivência de homens e organizações. Uma sobrevivência apta a enfrentar novos surtos de desenvolvimento, o desenvolvimento pós-modernidade, que seguramente será de um outro padrão, mais social que apenas econômico, posto que a solução dos nossos mais cruciantes problemas não surgirá do acaso, nem advirá de caminhos trilhados por um pessimismo nostálgico, tampouco eivado de derrotismos ingênuos, nem de vitimismos histéricos. 

A advertência do Sílvio Meira, autor do Novos Negócios Inovadores de Crescimento Empreendedor no Brasil, RJ, Casa da Palavra, 2013, 416 p., de leitura pra lá de agradável, deve ser levada em consideração pelos que procuram um livro de autoajuda, desses que mostram o caminho ultra fácil ou ficam num receituário idiótico para soluções rápidos: “O autor não acredita em autoajuda e muito menos em caminhos rápidos e fáceis para construir negócios inovadores.” E cutuca mais os abestados de sempre: “Se você está procurando um texto que descreve alguns cases, sem qualquer fundamentação técnico-metodológica, de propostas, negócios e empresas inovadoras que deram certo para você imitar e criar seu negócio de bilhão de reais rapidinho, este também é um texto errado.”

O livro do Meira é pra lá de cutucador. Vacina extraordinária para os “se Deus quiser” e os “propriedade exclusiva do Senhor”, o autor é adepto entusiasta dos que queimam as pestanas, sabem-se portadores de esforços exaustivos e acreditam-se apaixonados pelos conhecimentos acumulados. Ele que descende de avós iletrados,  que levaram a vida na roça, mas que possuíam a tesão nordestina de incentivar os herdeiros a hora, sem esperar manás milagrosos acontecerem.

Já estou na metade do livro, decisivamente um texto que “não veio para responder, mas pra perguntar”. E arretado comigo mesmo por não ser quarenta anos mais novo, quando poderia, a partir da leitura dele, ser alguém de iniciativas mais empreendedoras, com ousadias que deveriam ser mais trabalhadas no meu interior de nordestino sempre apaixonado. 

(Publicado no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco, 16.12.2013 
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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