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EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Denuncia Karen Armstrong, atualmente uma das mais aplaudidas especialistas na área de religiões comparadas: “falamos demais sobre Deus e, geralmente, ficamos na superficialidade”. E declara que muitos ficam perplexos quando, definindo Deus como um Ser Supremo, ela os rebate afirmando que Deus não é um ser, “e que na verdade não temos ideia do que estamos dizendo, quando afirmamos que ele é bom, sábio ou inteligente. ... Tendemos a domesticar a alteridade de Deus. ... Os políticos citam Deus para justificar seus atos, os professores o usam para manter a ordem na sala de aula e os terroristas cometem atrocidades em nome de Deus”. E ela ainda classifica como imensamente atrasado o atual pensamento religioso, apesar de nosso formidável desenvolvimento científico e tecnológico, ainda imperando a teologia como disciplina verborreica, fruto muitas vezes de pensares humanos capengas e castradores.

O livro de Armstrong – Em Defesa de Deus, Companhia das Letras 2011 –, uma leitura altamente desabestalhante, bem que deveria ser lido após uma outra leitura inteligente. Intitulado O Espírito do Ateísmo, do filósofo ateu francês André Comte-Sponville, Martins Fontes 2009, nele se ressalta “o revivescimento da espiritualidade” nas últimas décadas, ainda que recheado, em múltiplos aspectos, de obscurantismos, integrismos e fanatismos, além de cavilosos oportunismos mercantilistas. Ele, que foi educado no cristianismo, não possui mente tacanha: “Que seria do Ocidente sem o cristianismo? Que seria o mundo sem os deuses? A humanidade é uma e a religião dela faz parte, a irreligião também, e nem uma nem outra são suficientes”. E arremata com muita argúcia: “Deus, se existe, é transcendente. As religiões fazem parte da história, da sociedade, do mundo (elas são imanentes). Deus é tido como perfeito. Nenhuma religião pode sê-lo. A existência de Deus é duvidosa, a das religiões não”.

Quando Sponville faz sua análise do “revivescimento da espiritualidade”, ele faz lembrar monsenhor Ivan Illich, autor do discutido livro Sociedade sem Escola (Vozes), falecido em 2002, que sempre proclamava que não se deve nunca confundir salvação com igreja. E a máxima de Santo Inácio de Loyola – “Mais conhecer, para mais amar e servir” – deveria ser o passo primeiro para uma caminhada espiritualista libertadora, sem os coquetismos e salamaleques dos que apenas desejam manter cativos os que não anseiam por uma liberdade existencial que os faça viver melhor, mais leves, mais abertos e mais livres, sempre percebendo ligados à Criação.

Se alguém me perguntasse como deveria proceder para início de uma espiritualidade libertadora, eu recomendaria o livro Cristo, de Maria de Fátima Maldaner e Raul Paiva, integrantes de um  grupo de jesuítas e religiosas que fundaram o CEI – Centro de Espiritualidade de Itaici, em 1989, com um objetivo bastante definido: irradiar a espiritualidade libertadora, sem os perrengues e birras dos distanciados dos novos conceitos, das novas mentalidades, dos novos procedimentos evangelizadores e das  pilhas teológicas e pastorais pouco energizantes, de há muito enferrujadas.
Os Exercícios Inacianos contidos no Cristo destinam-se aos cristãos de todas as denominações que desejam ultrapassar-se, sem descambar para afeições desenxabidas, favorecendo uma enxergância mais próxima do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador muito amado. Que um dia, muito enfurecido, baixou a lenha nos vendilhões do Templo, exacrando os que faziam da casa d’Ele um simples mercado, ainda não televisivo àquela  época.

Para as pessoas que imaginam ser de Igreja porque vai quase diariamente lá se encontrar com outros fiéis, os Exercícios Inacianos podem catapultar iniciativas transreligiosas, sem as obsessões de serem melhores que as outras, favorecendo as potencialidades evangelizadoras explicitadas na Parábola dos Talentos. E recordando advertência de Calvino, quando ele alertava sobre “os temores de alguns desvairados ignorantes que tentam obstruir os caminhos da ciência”.   

Para quem deseja alimentar-se espiritualmente,  sem faniquitismos nem olhinhos revirados, bracinhos para o alto e axilas exibidas, os Exercícios Inacianos contidos no livro são excepcionais. Insumos ouro de lei para “quando a voz da verdade se ouvir, e a mentira não mais existir, será enfim, tempo novo de eterna justiça, sem mais ódio, sem sangue ou cobiça, vai ser assim”, no canto profético do cantador e poeta Zé Vicente.

PS. O livro Jesus – Aproximação Histórica, de José Antonio Pagola, Vozes, 2010, seguramente muito ampliará uma visão mais consistente sobre o Homão da Galileia.  Favorecendo, numa Semana Santa, crentes e não-crentes, agnósticos e ateus, posto que “muita gente está confusa e até furiosa com o conceito de Deus que lhe foi legado”.  
 
(Publicada em 18/04/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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