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ESTUPEFAÇÕES
O filósofo-militante italiano Antônio Gramsci afirmava, nos seus escritos de luta por um socialismo libertário, humanitário, sem pelegada e nunca exclusivamente estatal, que a crise se instala quando o que é obsoleto não deseja sair e o inovador não consegue se implementar, emergindo desse choque o que ele denominava de fenômenos mórbidos.  Os quais deverão ser ferreamente combatidos sob uma compreensão nunca dualista, sempre multifacetária, relegando-se os que apenas pensam em minutos, sem paciência alguma para plantar árvores.

Três fatos me causaram estupefações nos últimos dias. Não levando em consideração a hierarquia das suas importâncias, a tragédia acontecida no Realengo, Rio de Janeiro, ação criminosa  de um psicopata fundamentalista, que se suicidou, semelhante a do psicopata que atirou num shopping holandês e também se matou, não deve ser resvalada para adoção de políticas de segurança públicas histéricas açodadamente implementadas. Com todo respeito para com as famílias dos brasileirinhos chacinados, o futuro da segurança do país se encontra na dependência direta de uma diferenciação, pelos eleitores brasileiros, entre políticos por vocação e políticos por profissão, estes ansiosos em meter as patas nos cofres públicos, como muito bem denunciou corajosamente, tempos atrás e em plenário, a deputada estadual Cidinha Campos, do Rio de Janeiro, denunciando, sem meias verdades, as canalhices e pilantragens da maioria dos parlamentares que compunham aquela casa dita parlamentar, transformada num covil de ladrões, usando aqui expressão utilizada numa famosa passagem sagrada.

A segunda estupefação advém do noticiário jornalístico: carona clandestina concedida nos dois voos do avião presidencial que transportou, ida e volta, a presidenta Dilma Rousseff ao Rio Grande do Norte, foi infiltrada na aeronave, sem a ciência da primeira mandatária, por um comandante irresponsável de nome Geraldo Corrêa de Lyra Junior. Um ato considerado afrontoso abuso de autoridade, uma ousadia que deve ser exemplarmente punida, inclusive com a demisão dos responsáveis maiores do Gabinete de Segurança Institucional. Neste país, a hierarquia não deve ser menosprezada, não se permitindo “jeitinhos” de profissionais despreparados, sejam eles civis, militares ou eclesiásticos.

A estupefação número três vem da incapacidade do Ministério da Educação em dar um salto de qualidade nos diferenciados graus de ensino brasileiro, mesmo já ampliadas suas dotações orçamentárias. Entre 1992 e 2009, o número de estudantes saltou de 38,3 milhões para 57,3 milhões, dos quais 45 milhões frequentam instituições públicas. Entretanto, constata-se uma gigantesca incompetência estratégica do Ministério da Educação em implementar uma política capacitacional pública de excelência mínima. Para se ter uma ideia, o PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos, criado desde 2000, apontou o Brasil como ocupante da 52ª. posição entre todos os países (73) numa prova recente de Matemática. Para uma melhor visibilidade da precária Educação Brasileira: a nota do Brasil, no Pisa em 2006, foi 390, do Uruguai 428, do Chile 438, do Japão 531, dos EEUU 489 e a da Finlância 563, acima da média da OCDE que atingiu 500. Entretanto, o  que mais espanta é o percentual do PIB percapita brasileiro gasto com educação superior, divulgado pelo Education at Glance 2010: enquanto a média OCDE situa-se em 40, Estados Unidos 58, Japão 42, Coreia do Sul 34, o Brasil expressa um indicador 102, somente em gastos públicos. E a constatação que se faz é pra lá de preocupante: “os filhos das classes sociais mais abastadas estudam em escolas de nível médio pagas para se prepararem para ingressar nas melhores carreiras das universidades públicas”. Daí serem muitos amplamente favoráveis à cota de 50% das vagas nas IES públicas para oriundos dos dois primeiros graus de ensino públicos, independentemente de gênero e etnia. Proposta que muito me sensibiliza.

A meta do Todos pela Educação é melhorar a qualidade dos dois primeiros graus de ensino do país. Seu lema é muito estimulante: “Todas as crianças na escola, aprendendo”. Entretanto, o lema do Todos pela Educação deveria se converter num “Todas as crianças na escola, aprendendo e apreendendo”. Com punições exemplares para quem fizesse da Educação um trampolim politiqueiro ou deliquencial, como os atos criminosos praticados por três mulheres de prefeitos alagoanos, desviando milhões de reais da merenda escolar do Ensino Fundamental daquele Estado. Que deveriam permanecer por longo tempo atrás da grades, com seus respectivos maridos, evitando a ampliação das indignações comunitárias e outras tragédias que vitimam a infância  brasileira.

Aplaudo reflexão do teólogo e educador Rubem Alves: “A presença dos ratos na vida pública brasileira é evidência de que nosso povo não sabe pensar, não sabe identificar os ratos ... Não sabendo identificar os ratos, o próprio povo, inocentemente, abre os buracos pelos quais eles entrarão”. Segundo Alves, “é a educação do povo o fundamento da democracia” e “se a educação não cumprir a sua missão, o povo não aprenderá a pensar e estaremos condenados a conviver permanentemente com os ratos”.

Comungando com o pensar do Rubem Alves, desde já estou polindo meu título de eleitor para 2012, quando acompanharei os políticos por vocação que anseiam ultrapassar, pelas urnas, os pensamentos caquéticos do liberalismo mercadológico e os da esquerda totalitária, ideários de há muito já em estágios desconexos com a realidade.

(Publicada em 11/04/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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