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ESTATÍSTICAS E BUFONARIAS
Nas ante-vésperas das comemorações bicentenárias das suas respectivas independências políticas, boa parte dos países latino-americanos estão destinando alguns milhões de dólares para comemorações faustosas, despreocupando-se com as estruturações futuras dos seus países. Recentemente, o folclórico presidente Hugo Chávez, da Venezuela, desenterrou os restos mortais de Bolívar numa cerimônia transmitida em cadeia nacional, para iniciar uma investigação sobre um possível assassinato daquele líder. Ele só concretiza seus pronunciamentos à nação postado diante do retrato do libertador, tendo mudado até o nome do país para República Bolivariana da Venezuela. Revalorizando passados, sempre pouco atento aos amanhãs socialmente redentores, numa nostalgia mórbida ou obsessão tipicamente populista.

Nas suas suas histrionices cênicas, Chavez costuma repetir um dito de Bolívar, de  fevereiro de 1819, pronunciado em Angostura: “Feliz o cidadão que, sob o escudo das armas de seu comando, convocou a Soberania Nacional para que exerça sua vontade aboluta”. Embora sabidamente se esqueça de reproduzir um outro trecho do mesmíssimo pronunciamento: “A continuação da autoridade em um mesmo indivíduo frequentemente foi o fim dos governos democráticos. ... Nada é tão perigoso como deixar um mesmo cidadão permanecer longo tempo no poder. O povo se acostuma a obedecer-lhe, ele se acostuma a comandá-lo, e disso se originam a usurpação e a tirania”.

No livro Basta de Histórias!, de Andrés Oppenheimer, um compêndio repleto de bufonarias latinas, o autor faz justiça ao nosso país: “À exceção do Brasil, a maioria dos governos latino-americanos busca justificar sua linha de conduta nos legados do passado, mais que nas exigências do futuro”. E não contemporiza: “Não me entendam mal: eu não subestimo a importância da história nem dos historiadores. Mas nós estamos exagerando. Quando as grandes universidades latino-americanas  têm três vezes mais alunos de história do que de ciências da computação, quando os governos dedicam mais atenção às antigas propostas de homens notáveis do passado do que às daqueles que estudam as tendências do futuro, quando a imprensa – e a sociedade em geral – se envolve em polêmicas sobre onde enterrar os heróis do século XIX, em vez de debater onde colocar as crianças do século XXI para estudar, temos um problema”. E alfineta sem piedade: “Como é possível que o México, um país com 110 milhões de habitantes, com um produto interno bruto (PIB) de US$ 1,6 trilhão, tenha sua melhor universidade numa posição inferior à da melhor universidade de Cingapura, um país com menos de 5 milhões de habitantes e um PIB que não chega a US$ 225 bilhões?” 

No livro, outra estatística inquietante: enquanto as pesquisas apontam os latinos com altos percentuais de satisfação sobre seus sistemas educacionais, somente 66% dos alemães, 67% dos americanos e 70% dos japoneses demonstram satisfação. A explicação é dada por Eduardo Lora, economista do BID, que define o que ele denominou de satisfação sem fundamento: “A maioria das pessoas da região (latina) tende a julgar seu sistema educacional pela qualidade dos edifícios escolares do que por aquilo que eles aprendem”. E o autor explicita outros dados: 1. Nenhuma universidade latino-americana figura entre as cem melhores do mundo; 2. Na Universidade de Buenos Aires, a principal universidade estatal argentina tem 29 mil estudantes de psicologia e 8 mil de engenharia, diferentemente da China, onde anualmente ingressam 1.242.000 alunos de engenharia, contra 16.300 de história e 1.520 de filosofia; 3. Somente 2% do investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento (P&D) vêm dos países latino-americanos e caribenhos, quando 28% advêm dos países asiáticos, 30% da Europa e 39% dos Estados Unidos. E os tais 2% acima citados se originam em apenas quatro países: Brasil (62% dos 2%), México (13% dos 2%), Argentina (12% dos 2%) e Chile (4% dos 2%); as percentagens aplicadas pelo setor privado em P&D sobre o total na Coreia do Sul é de 74%, nos EEUU 64% e na China, que é comunista, 60%; a China investe 1,4% do seu PIB em P&D, o Brasil 0,9%, Argentina 0,6%, México 0,4%; embora tenha tirado centenas de milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, a China ainda possui 800 milhões de pobres; enquanto a Coreia do Sul registra em média 7.500 patentes por ano nos Estados Unidos, o Brasil registra 100, o México 55, a Argentina 30, a Venezuela 14, o Chile 13, a Colômbia 12 e Cuba 6; em 1950, o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada do que a Correia do Sul; a China comunista já congrega em seu território universidades estrangeiras, tendo adotado uma política oficial de “internacionalização da educação”, objetivando uma maior inserção do país na economia global.

Está chegada a hora de erradicar os debates estéreis e perceber que os asiáticos encontraram um “ismo” realista para o século XXI: o pragmatismo. E eles nem têm o melhor carnaval do mundo nem o maior futebol do planeta, pois de há muito deixaram de contemplar os próprios umbigos, tornando-se mundializantes. A China é comunista e lá toda universidade é paga, inclusive a pública. E o regime é de tempo integral. Um exemplo para os irrequietos esquerdosos que teimam em não abandonar ultrapassadas trincheiras.

(Publicada em 02.07.2012, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco
Fernando Antônio Gonçalves
 

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