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ENTREVISTA COM MULHER DE TALENTO
Sabedor da minha admiração pela economista pernambucana Tânia Bacelar de Araújo, o João Sivino da Conceição me visitou na semana passada, trazendo entrevista concedida por ela à Revista Camponesa, uma publicação da Associação de Apoio às Comunidades do Campo do Rio Grande do Norte – AACC/RN. Tânia Bacelar, para os poucos que ainda não a conhecem, é PhD em Economia pela Universidade de Paris, professora da Universidade Federal de Pernambuco e sócia-diretora da CEPLAN-Consultoria Econômica e Planejamento, Recife.

O João Silvino selecionou as partes principais da entrevista da Tânia Bacelar, informando que vai apresentá-las no Centro Comunitário Josefa da Conceição, num bairro da periferia do Recife, instituído para homenagear a mãe dele, já eternizada, uma líder comunitária que alfabetizava “os que desejavam ser cidadãos e profissionais sindicalizados com carteira assinada”.

Eis perguntas e respostas escolhidas:
P – A recente crise do euro e a crise financeira internacional de 2007 são sinais de que o neoliberalismo está chegando ao fim?
R – Estamos num desses momentos em que a onda liberal arrefece, mas não há sinais de sua exaustão. Para as grandes corporações globais – especialmente seu braço financeiro -, quanto menos regulação melhor. Mas não resta dúvida que a temática da presença do Estado na vida social ganhou importância em meio à crise. Para países como o Brasil, ainda em fase de construção/consolidação de seu projeto de nação (Celso Furtado chamou de “construção interrompida”) este debate é muito importante. Liberalismo exarcebado em sociedade muito desigual, como a nossa, tende a ampliar as desigualdades e não é isso que queremos. Mas não queremos recriar o estado desenvolvimentista conservador do século XX que resultou na oitava economia do mundo com indicadores vergonhosos e liderança mundial – junto com Honduras e Serra Leoa – em padrões de concentração de renda e riqueza.

P – O Bolsa Família é um dos programas do atual governo que mais recebe críticas, embora, por ouro lado, tenha reconhecimento internacional. Qual a importância do Bolsa Família para a economia nordestina?
R – Além de dar cobertura mínima de renda a milhões de pessoas – obrigação do Estado – o fluxo significativo de recursos captado pelo Nordeste (cerca de R$ 5,5 bi/ano, por ter mais da metade dos pobres do país) impactou positivamente a economia regional. O “Bolsa Família” ao dinamizar o consumo popular, estimulou as economias locais de muitos municípios, especialmente dos mais pobres. Basta ver o impacto nas feiras semanais, nos armazéns, nas mercearias. As críticas de parte das elites diminuíram quando tais resultados se firmaram. Mas vale lembrar que nos anos recentes, o Nordeste liderou a criação de empregos formais no país e que o aumento real significativo do salário mínimo também foi muito positivo para a região, pois temos 28% da população total do Brasil, mas temos mais da metade dos que ganham salário mínimo.

P – Em sua opinião, qual o significado das Eleições 2010 no Brasil? O que está em jogo neste momento?
R – Está em jogo a construção de um país crescentemente importante no contexto mundial e que tem escolhas estratégicas importantes a fazer. E isso é uma vantagem: poder escolher. Escolher, por exemplo, aproveitar o fato de que é uma das fronteiras mundiais de recursos naturais num ambiente internacional que está mais consciente do desafio da sustentabilidade ambiental. Aqui vai se travar uma batalha importantes para a construção de um outro padrão de desenvolvimento. Outro desafio importante é o da educação. Não dá mais para postergar. Temos que discutir uma verdadeira e necessária “revolução” educacional, para usar uma palavra forte. Avançamos, mas o que precisa ser feito é de outra dimensão e as forças conservadoras são muito fortes no nosso país.O projeto delas é mesquinho, excludente: inserir apenas as partes modernas do Brasil no mundo e tratar “o resto” no máximo com políticas sociais. Mas a redemocratização do país as enfraqueceu e espero que os avanços prossigam. O Brasil é um dos poucos países que pode liderar um novo padrão de desenvolvimento que marque o século XXI: desenvolvimento econômico com respeito à natureza e envolvimento de todos na vida produtiva, social, cultural e política do país.

Como Tânia Bacelar, o João Silvino e eu comungamos do pensamento de Celso Furtado: a necessidade imediata de diminuir a distância que separa o Brasil real daquele que realmente poderia ser. Lamentando que a temática do desenvolvimento, segundo Marcio Pochmann, presidente do IPEA, tenha sido “transformada em algo anacrônico, peça do descrédito e, por que não dizer, escachado pela elite do pós-modernismo como se fosse algo antiquado, pertencente ao filme de Spielberg O Parque dos Dinossauros. E a sociedade teve que se acomodar ao contexto geral da mediocridade, da esperança que as próprias forças de mercado resolvessem desenvolver-se por meio da competição”.

O desenvolvimento da social-democracia brasileira ainda se encontra dando os primeiros passos. Urgindo uma efetiva tesão educacional em todos os níveis de ensino, para que possamos melhor participar da vida política nacional sem os desprezos explicitados pelos tiriricas de todas as classes sociais, palhaços que buscam novos palcos com zerada quilometragem cívica. 

PS. Amanhã se comemorará festivamente a Independência do Brasil. Entretanto, quando alcançaremos a independência de mesmo para todos os brasileiros?

(Portal da Revista ALGOMAIS, 06/09/2010, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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