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ENFRENTANDO DESAFIOS
 Em Brasília, amigo de longa data, o psiquiatra francês Ferdinand Sardin Rodrix, costuma narrar aos seus pacientes, por ocasião da primeira sessão, uma famosa lenda tibetana, de autor desconhecido e datada da Idade Média, quando a reforma monástica era tema central ao longo do século XI e uma inquietação reinava na elite da Igreja, diante da não adesão completa dos monges a uma forma de vida estritamente religiosa: 

“Um determinado monge, próximo de sua aposentadoria, necessitava encontrar um sucessor entre os seus discípulos. Encontrou, dentre os possíveis candidatos, dois jovens monges que possuíam as qualidades para sua sucessão. Como apenas um só poderia sucedê-lo, o Monge Mestre lançou um desafio, colocando a sabedoria dos dois a uma prova: ambos receberiam alguns grãos de feijão, os quais deveriam ser colocados dentro dos sapatos, por ocasião de uma subida a uma montanha próxima do convento.

Começada a prova, logo um deles, nos primeiros quilômetros principia a mancar, desistindo de continuar bem antes da metade do percurso. Tirando os sapatos, verificou-se que as bolhas formadas nos seus pés já sangravam, provocando dores lancinantes. 

Constatando que o outro monge subia a montanha com espantosa facilidade, longo chegando ao cume, indagou dele, encerrada a competição, qual teria sido o segredo do seu sucesso. Foi quando dele recebeu a informação que havia conseguido subir e descer com os feijões nos sapatos, pois antes de colocá-los havia cozinhado todos.”

O vencedor explicou que há sempre um jeito mais fácil de levar a vida, posto que alguns problemas são inevitáveis e outros nós mesmos os provocamos, intensidade e duração do sofrimento sendo por cada um determinadas. E conclui: “O enfrentamento do sofrimento depende da atitude a ser tomada, podendo conduzir ao entendimento mais acurado das causas, sempre buscando os passos da superação, sempre cozinhando os feijões que são postos nos seus sapatos de caminhante.” 

Como os mestres que nos moldaram, sigamos a reflexão do psiquiatra Augusto Cury: “Eu não me curvaria diante de uma celebridade ou autoridade política, mas curvo-me diante dos educadores, especialmente dos professores de história e sociologia, que sabem que uma sociedade que não conhece sua história está condenada a repetir seus erros no presente e expandi-los no futuro”.

Recentemente, um dos problemas mais emblemáticos se traduz nas malandragens proporcionadas pela propaganda infantil, que joga crianças contra os pais, apostando na desagregação pelo consumo, numa aposta autofágica pelo “comprismo” desenfreado, assunto esmiuçado pela psicóloga norteamericana Susan Linn, no seu livro Crianças do Consumo: A Infância Roubada. Nele, a autora esclarece que, somente aos doze anos, uma pessoa principia a compreender o caráter persuasivo da publicidade.  

É bom relembrar o cozimento dos feijões antes de postular novas caminhadas existenciais, quando uma crise planetária está a exigir reflexões e iniciativas sobre futuros cada vez mais velozes. Cabendo a cada um carregar, na mente e no coração, a mantra de Wang Xiaoping, jovem chinesa de vivacidade criadora e de pontos de vista situados muito além do apenas hoje: “Se for possível, esteja à frente de seu tempo; caso não seja, nunca fique atrás”.

(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 19.10.2012)  
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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