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ENCRUZILHADA EDUCACIONAL
Numa expectativa amplamente positiva da aprovação do Plano Nacional de Educação 2011-2020 e do Plano Estadual de Educação 2011-2014, ambos com os seus reflexos emprendedores, aproveitei os dias primeiros do ano novo para leituras de comentários sobre a Educação Brasileira publicados em revistas e jornais de grande circulação.

E o primeiro texto lido foi Priorizar os avanços na educação, de Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo. Que forneceu uma certeza para todos nós, neste início de nova década: “A educação mudará a nossa realidade social e econômica, com reflexos diretos na qualidade de vida dos trabalhadores e na eficiência das empresas, se contagiar todo o país e se transformar em uma mobilização política como a que nos garantiu, por exemplo, o controle da inflação”. Deseja ele uma baita mobilização, “que deverá ser referência cultural e política para o nosso povo”, sempre devendo ser levado na mais alta consideração o posicionamento feito pelo presidente Lula , quando da sua posse, no Congresso Nacional, em 2003: “Mudar com coragem e cuidado, humildade e ousadia, mudar tendo consciência de que a mudança é um processo gradativo e continuado, não um simples ato de vontade, não um arroubo voluntarista. Mudança por meio do diálogo e da negociação, sem atropelos ou precipitações, para que o resultado seja consistentemente duradouro”. Uma filosofia de gestão que consagrou o ex-presidente como o mandatário mais aplaudido de toda história republicana brasileira.

Na edição especial da revista Carta Capital intitulada Ideias para Dilma, a parte Educação coube ser analisada pelo professor Vladimir Safatle, docente de Filosofia da USP. Que explicita, de modo oportuno, o paradoxo brasileiro de muitas décadas: “Fala-se muito no ensino para dar a falsa impressão à maioria dos brasileiros de que os problemas são profundamente complexos”. Segundo o professor Safatle, talvez não haja, no mundo, uma outra nação onde se fale tanto em educação como aqui, muito embora os resultados ainda se encontrem num patamar bastante desalentador, ainda que eivado de muitas esperanças, embora nem sempre reembrando George Bernard Shaw, quando ele, há mais de cem anos, já proclamava que “a pobreza é o maior dos males e o pior dos crimes”.

Os questionamentos do físico brasileiro Raul Abramo deveriam ser amplamente debatido na universidades e nos conglomerados empresariais: “Por que muitas universidades na China, na Índia e até na Europa fazem muito mais que a USP, embora com muito menos dinheiro que ela?”; “Quais as causas das idiossincrasias entre empresas privadas e as universidades, como se as primeiras fossem se apropriar das segundas, tidas corretamente como um bem público?” “Por que as bolsas de pós-graduação tendem a evitar riscos, muitas vezes não atentando para alunos com potencial, embora com formação mais precária?”

Há ainda uma mentalidade tupiniquim-capitalista no ensino superior brasileiro dotado com uma fingidamente responsabilidade social. Onde muitas vezes se ensina primariedades para não estimular competitividades profissionais futuras, não ampliando a criticidade discente, deixando os mais débeis na doce ilusão de estarem frequentando de mesmo um curso superior. Como ainda há uma visão macunaímica no lado público, quando inúmeros imaginam-se donos do poder, despossuídos de uma competência estratégica de fazer o revolucionário do Manifesto Comunista triturar os próprios ossos. 

Num dos relatórios da Unesco, o da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, a ênfase dada para se levar as estratégias educacionais a bom termo estrutura-se sob três atores principais: a comunidade local, principalmente os pais, a diretoria e os professores; em segundo lugar, as autoridades constituídas; em terceiro lugar, a comunidade internacional. Quando um desses pilares se irresponsabiliza, as reformas não seguem adiante, favorecendo então formas autoritárias de impor diretrizes, ampliando as burocracias e os pedantocratas, que desconhecem, em seus cantinhos rodeados de bajuladores, as cinco grandes sequelas provocadas pela desigualdade: a que faz desperdiçar talentos, a que mina a sociedade e suas instituições, a que fragiliza a coesão social, a que limita o crescimento econômico, e a que transmite pobreza, inclusive a mental, de uma geração à outra, onde “a impotência parece estar sempre no centro de uma vida ruim”.

PS. Para o Dr. Anderson Gomes, novo secretário de Educação do Estado de Pernambuco, desejando-lhe uma feliz conjugação do trinômio eficiência-eficácia-efetividade na concretização dos objetivos traçados pelo Governador Eduardo Campos, uma liderança política nacional inconteste, que há muito assimilou o balizamento do nunca esquecido poeta lusitano Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

(Publicada em 10/01/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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