facebook
Aumentar fonte  Diminuir fonte  Indicar esta página  Imprimir esta página
EMBAIXADOR DA INDIGNAÇÃO
Um jovem de 93 anos,  Stéphene Hessel, tornou-se recente celebridade mundial como a nova coqueluche da esquerda francesa, ao conclamar a sociedade planetária para uma onda de não-violência contra os atuais abusos do capitalismo financeiro. Seu panfleto Indignez-vous!, na França, de apenas 32 páginas e por apenas 3 euros, já vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares, com edições já lançadas em Portugal, Espanha (em espanhol, basco, catalão e galego), Turquia, Escandinávia e Coréia do Sul. No Brasil, a editora Leya, São Paulo, também divulgou o manifesto, provocando rebuliço nos meios mais atentos. E a revista semanal americana The Nation deverá publicar o texto do Hessel na íntegra nos próximos dias. E o que poderia ser visto como um fenômeno tipicamente francês, um brado contra a reforma do Estado e financeirização de tudo, transborda pelas fronteiras da Europa.

Na contra-capa da edição brasileira, Sylvie Crossman, diretora da Indigène Éditions, testemunha: “Que sorte a nossa, poder nos alimentar da experiência deste grande resistente, que sobreviveu aos campos de concentração de Buchenwald e de Dora, que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, foi embaixador da França e agraciado com a Legião de Honra!” ... “É verdade que , no mundo complexo de hoje, as razões para se indignar podem parecer menos claras e nítidas do que nos tempos do nazismo. Mas, ‘procurem e encontrarão’: as distâncias crescentes entre ricos e pobres, o estado do planeta, o tratamento dispensado aos imigrantes ilegais e aos ciganos, a corrida para ter cada vez mais, a competição, a ditadura dos mercados financeiros...”.

No Brasil, inúmeros fatores estão acumulando indignações brabas: a morosidade do Poder Judiciário, a bandidagem que campeia nos três poderes brasileiros, as justificativas descabidas de dirigentes públicos diante de comportamentos etílicos pouco condizentes de subordinados, os interesses comunitários sendo aviltados por espúrios interesses particulares, o hedonismo consumista de uma classe média possuidora de uma nada exemplar fina estampa, programas televisivos descriativos e amorais, puritanismos e cavilosidades religiosas tridentinas, preconceitos ostensivos e disfarçados para com negros, pobres, homoafetivos e nordestinos, para não falar em alguns entrelaçamentos pilantras estabelecidos entre áreas públicas e privadas, intituladas PPP, hoje também reconhecidas como Picaretagens Público-Privadas. 

O que pede  Hessel em seu manifesto Indignai-vos!? Apenas que se estabeleça “um conjunto de princípios e de valores sobre os quais se apoiaria a moderna democracia”. E mais: o  desentrelaçamento da mídia das garras das elites financeiras, aposentadorias que possibilitem aos trabalhadores encerrarem com dignidade seus dias, a nacionalização dos grandes bancos, o desmonte dos grande feudos econômicos e financeiros, a subordinação dos interesses particulares ao interesse coletivo, um mais acelerado desenvolvimento crítico-criativo das crianças e adolescentes das escolas públicas, a valorização crescente dos professores do Ensino Básico e Fundamental, uma Universidade que imponha respeito sem agachamentos boçais, entre outras metas possíveis.

Um alerta final é feito por Hessel em seu livro: a pior das atitudes é a da indiferença diante dos problemas sociais, econômicos e ambientais. O momento exige uma capacidade de se indignar, para enfrentar dois desafios planetários, com os quais somos interdependentes: a distância que se agiganta entre os muitos pobres e os muitos ricos, um deles. O outro é o não-cumprimento, quando não total desrespeito, à Declaração Universal dos Direitos Humanos, principalmente aos seus artigos 15 e 22.

Parecendo comungar com o ideário do sempre amado Dom Hélder Câmara, Hessel faz uma conclamação aos jovens: “Estou convencido de que o futuro pertence à não-violência, à conciliação das diferentes culturas. ... O terrorismo não é eficaz. Na noção de eficácia é necessária uma esperança não violenta. ... Devemos entender que a violência dá as costas à esperança”. E explicita apelo feito por ocasião do sexagésimo aniversário do Programa do Conselho Nacional da Resistência, em 8 de março de 2004: “uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massas, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos”.

O mundo se contorce. O parto está à vista! Abaixo os capatazes de riso fácil e os psicopatas político-partidários!!

(Publicada em 06/02/2012, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

Site criado com o sistema Easysite Acadêmico da eCliente.
ECLIENTE INFORMÁTICA