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DO GOLPE À VERDADE, 50 ANOS
Na capa última de um livro, texto me chamou atenção: “Este é um livro vivo. Atual. Em suas páginas, pulsam e desfilam tanto os protagonistas do golpe de Estado de 1964 quanto as passeatas de junho de 2013. Longe de tratar a História como um passado distante, Mário Sérgio de Moraes coloca o leitor no meio dela, quase como mais um personagem. Você sente e ouve os sons dos movimentos populares, misturados às canções da MPB que tentavam driblar a censura imposta pelo governo militar. Em linguagem clara e acessível, 50 Anos Construindo a Democracia – Do Golpe de 64 à Comissão Nacional da Verdade, SP, Instituto Vladimir Herzog, 2014, reconta como se instalou e se manteve, durante 21 anos, uma ditadura que começou tentando disfarçar-se de ‘revolução’ democrática, terminou ruindo com uma inflação disparada e corrompida por dentro, apodrecida pela tortura, pelos sequestros e assassinatos cometidos por seus agentes. Acima  de tudo, ao mostrar o clima de opressão que marcou aqueles anos e os primeiros passos da reconstrução da democracia, esta obra demonstra e ilustra os mil motivos para se manter e proteger a liberdade, impedindo a instalação de qualquer ditadura, e evidencia como este precisa ser um compromisso de cada um de nós, todos os dias”.
 
Assinado por Nemércio Nogueira, do Instituto Vladimir Herzog, o trecho acima me fez adquirir um exemplar, iniciada sua leitura numa noite chuvosa da capital pernambucana, com Copa do Mundo acontecendo numa Arena Pernambuco espetacularmente drenada. E a dedicatória oferecida ao casal Waldemar e Célia Rossi pelo autor me fez relembrar os tempos da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, episcopado Dom Hélder Câmara, quando  as ações da CJP eram direcionadas para os mais vulneráveis, para os mais fracos, para os oprimidos e presos políticos. E no combate a uma cultura da violência que, a médio e longo prazo, pode e será alterada no contexto de uma educação pela cidadanização. Sem menosprezar o combate da violência contra os idosos, contra as crianças e adolescentes, contra os sem teto, contra os sem terra, contra os sem nada, interferindo propositivamente nas políticas públicas, tudo sem perder o foco, a direção, o caminho e a perspectiva de uma sociedade mais justa, mais humana, mais fraterna e menos desigual.
 
O autor, como historiador, entrelaça processos sociais e fatos políticos com manifestações culturais e outros episódios correlatos, estabelecendo um panorama multifacetário da vida brasileira nos últimos cinquenta anos. Alertando os mais jovens e os mais desatentos para o nosso atual juvenil e ainda inexperiente regime democrático, existindo um imenso caminho pela frente, no sistema político e eleitoral, na educação, na saúde, na gestão pública, na economia e no pleno respeito aos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para uma democracia que ainda não chegou aos 30 anos, diz o autor, transpusemos um imenso oceano, embora seja necessário difundir, nos mais diversos rincões comunitários, os acontecimentos que enegreceram o país diante do mundo, assassinando muitos, exilando outros tantos, torturando milhares, castrando a crítica e ampliando o número de delações e dedos-duros, favorecendo a emersão de peleguismos gerenciais que muito contribuíram para a multiplicação de políticas públicas que apenas anestesiam os fragilizados ou mais beneficiam os favorecidos de sempre.
 
A leitura do livro do Mário Sérgio de Moraes é por demais cativante, além de “cidadanizante”, através das inúmeras cenas relembradas por ele. Uma delas, acontecida no DOI-CODI de São Paulo, quando torturadores travestidos de seres humanos comentavam que “tem vários comunistas infiltrados no governo e aqui até o presidente Geisel entra no pau”.  E outra, artigo publicado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, no Jornal do Brasil e sob título ‘Anistia, não vens como te imaginava’, com o seguinte trecho: “Anistia, vens pela metade ou por dois terços? ... Estabelece o crediário em matéria de justiça, de magnanimidade e visão política? ...Ou preferes maior consumo de palavras, se estas, e só estas, bastam? ... Quero-te alta e perfeita e não uma baixinha de quatro dedos e andar cambaio. Quero que voes. Com asas te imagino, sobre os desencontros e mesquinhezas dos pobres intérpretes de tua grandeza luminosa”.
 
Um dos capítulos do livro – Hora da Virada: o caso Vladimir Herzog – toca profundamente a consciência dos que pelejam por um Brasil mais digno e justo para todos os seus habitantes. Com três cenas inesquecíveis. A primeira, 1973, quando Vlado disse a sua esposa Clarice: “Vou entrar para o Partido Comunista. Hoje só existem duas forças organizadas em que eu posso fazer um trabalho mais consistente: a Igreja e o Partidão. Mas na Igreja, não me sinto à vontade, sou judeu. Então vou entrar para o partido”. A segunda, fala de Dom Paulo, quando do culto ecumênico realizado no dia 31 de outubro de 1975, na Catedral da Sé, em memória de Herzog: “De fato, Deus é o dono da vida ... Maldito é aquele que mancha suas mãos com o sangue do seu irmão. O Senhor não aceita a violência em fase alguma como solução de conflitos!” A terceira, aconteceu após a realização do culto ecumênico, ainda no altar, quando dom Hélder Câmara disse no ouvido de dom Paulo: “Hoje  a ditadura caiu”.
 
No primeiro capítulo – Os Protagonistas Desta História -, o autor reproduz a letra da música “Oriente”, de Gilberto Gil: “Se oriente rapaz / Pela constatação de que a aranha vive do que tece / Vê se não se esquece / Pela simples razão de que tudo merece / Consideração. / Se oriente rapaz / Pela rotação da terra em torno do sol / Sorridente rapaz / Pela continuidade do sonho de Adão.”
 
E a última referência do livro do Mário Sérgio de Moraes é de autoria do jornalista Vladimir Herzog, assassinado covardemente nos porões de um regime pérfido: “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”. Relembrando outro judeu notável, Elie Wiesel, sobrevivente do nazismo, Prêmio Nobel da Paz 1986: “O carrasco mata duas vezes; a segunda pela imposição do silêncio”.
 
O livro do Mário Sérgio de Moraes não tem linguagem acadêmica, propositalmente destinado  aos jovens que conhecem pouco o período ditatorial da nossa História. E que necessitam ampliar sua visão binoculizadora.
 
Estamos verdadeiramente num tempo de ressignificar os nossos ontens, para saber em que porto efetivamente bem atracar.
 
(Publicada em 07.07.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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