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DESCUIDOS DE PORTUGUÊS
Não há necessidade alguma de assistir o asinino BBB para se perceber erros gritantes cometidos contra a Língua Portuguesa em nossa sociedade. Descuidos orais, derrapagens escritas, jumentalidades televisivas e baboseiras mil nos meios acadêmicos, cometidos por gente graduada em “falcudades” de muito marketing e frágil transmissão de saber. 

Desde o famoso “a menas que”, pronunciado pelo hoje multimilionário  ex-presidente Lula da Silva, a atenção de parte da sociedade brasileira voltou-se para a denúncia das grosserias cometidas contra a Língua Portuguesa. Mais ainda com a emersão de muitos milhares para as classes C e B, saindo de situações vexaminosas, o “ter” a prevalecer sobre o “ser”, a favorecer a ampliação dos menosprezos por uma fala escorreita, uma oralidade de bom calibre, um ensinamento a beneficiar objetivos claros, concisos e compreensíveis da língua camoniana, também pessoana por derradeira.

Nos últimos doze meses, venho colecionando algumas “preciosidades”, abaixo relatadas para os leitores do site do Jornal da Besta Fubana, esse recanto coordenado pelo papa Luiz Berto, um arretado transmissor de informações e charges pra lá de atualizadas. Eis a pequena amostra:

1. Outro dia, recebi um e-mail de uma conhecida de muitos anos. Dizia ela: - Querido, fazem vinte dias que estou de férias no Rio de Janeiro e....   Eu fiquei a pensar: - Ela certamente não sabe que fazer, pois quando se exprime tempo o verbo fazer é impessoal. Ex: Faz dez dias, pode fazer doze anos, etc...

2. Telefone de São Paulo, depois do apagão: - Nando, houveram muitos problemas por aqui... E eu, delicadamente, respondo: - X, aqui se soube que houve muitos problemas por aí!! Ele não se apercebeu ou se fez de mouco. A expressão “houveram” provoca hemorroida braba.

3. E o famoso “há dois meses atrás”, talvez a mais famosa redundância da Língua Portuguesa. Que faz uma concorrência danada com os também pronunciados “entrar dentro”, “sair para fora”, “encarar de frente” e “elo de ligação”. Que muitas vezes passam desapercebidos dos dos DLs – Desligados da Língua.

4. Em época de construção de estádios de futebol, a mais moderna válvula de escape dos gatunosos   “gpf” (ganhos por fora), li outro dia, num jornal sulista metido a sério, que o “estádio Fulano dos Grudes custará R$ 1,25 bilhões”. Quando número só pede plural somente a partir de duas unidades. Como também é correto dizer que “aquela região tinha 0,7 habitante por quilômetro quadrado”, jamais “0,7 habitantes”.

5. Numa recente premiação esportiva, ouvi um comentarista dizer que o atleta ZYZ já tinha ganho quatro “troféis”, o que me fez quase cair da poltrona onde estava com o meu neto de quatro anos, que ainda não tem conhecimento sobre ganho de troféus, com ou sem chapéus (nunca chapéis), mesmo após os mingaus.

6. Um funcionário do prédio onde moro me disse outro dia que estava com o cabelo muito comprido e que, no dia seguinte, iria ao “cabelereiro” que morava perto da casa dele. Elogiando a iniciativa, disse que pagaria a ida dele ao cabeleireiro. No que ele respondeu “obrigado, meretríssimo”, me deixando com cara de puta, sem jamais ter sido meritíssimo na minha vida, pois não sou da área jurídica.

7. Num açougue perto da Madalena, bairro que muito admiro, de mercado famoso nacionalmente, vi uma empeitada madame socialite pedir ao atendente dois quilos de “colchão” mole. Fiquei até pensando que ela iria dormir ali mesmo, antes mesmo do rapaz pesar o coxão solicitado. 

8. Num bar do Recife Antigo, local onde ainda se aprecia um legítimo uísque escocês, sujeito falando mal do ex-presidente: - Gente, ele ficou rico, “haja visto” sua conta bancária. Um boêmio de excelente calibre cultural, advogado consagrado e meu amigo de longa data, delicadamente rebateu: - Amigo, a locução é haja vista e nunca varia. Daí, haja vista sua conta bancária, haja vista aquelas acusações, haja vista tantos desmandos, etc..

9. Num relatório de uma auditoria feita numa repartição pública de Teresina, Piauí: “Partiu ‘a’ dois dias e deverá voltar daqui ‘há’ uma hora”. “Há” indica passado e equivale a “faz”, enquanto “a” exprime distância ou tempo futuro. Daí o correto: “Partiu há dois dias e voltará daqui a uma hora.”

10. Auxiliar do Tribunal de Justiça escreveu em seu relatório para o juiz: “Infelizmente, não sei “aonde” ele mora. Não sabia o coitado diferenciar onde e aonde: o primeiro indica uma situação estática e o segundo  se emprega com verbos em movimento. Exemplos: não sei onde ele mora, não sei aonde ele quer chegar.

De um livreto esclarecedor – Os 300 erros mais comuns da língua portuguesa – de Eduardo Martins, jornalista e especialista em Língua Portuguesa, autor do Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de São Paulo, me inspirei nas notas acima. Uma excelente leitura para se evitar as fórmulas desgastadas e amplamente batidas, algumas até integralmente fora de uso. E que também evita pronunciar “récorde”, “gratuíto”, “a menas que”, “perca”, “predizer” e outras palavras e expressões que atrapalham a comunicação escrita e oral, favorecendo o imbecilismo nacional e a idiotice de alguns programas radiofônicos e televisivos.  

(Publicada em 24.02.2014, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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