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DESAFIOS PARA CLASSE MÉDIA
O fato é por demais representativo para o momento atual de crise planetária, onde um desabestalhamento se faz amplamente urgente em todos os setores. Também num país onde, dizem,  Deus é brasileiro, e que se deseja passado a limpo com todos os erres e effes por detrás das grades, sem lero-lero nem mas-mas-mas, de palitó, farda, toga ou macacão
 Um endinheirado nordestino classe mais que média-média, travestido de empreendedor XXI , resolveu observar o milagre asiático no seu endereço de origem , bem ali do outro lado do mundo. Comprou passagem ida-e-volta, conseguiu a companhia de um alguém que arranhava bem um inglês quebra-galho  e partiu lampeiro que só para conhecer o outro lado do mundo.
 Após os desembaraços alfandegários, na primeira parada anunciou seu maior desejo: conhecer um Mestre Zen, desses tidos e havidos como um danado-de-bom na sabedoria. E foi parar num dos mosteiros existentes, obstinado e pretensioso que só vendo.
 Encontrar um convento antigo foi quase um já. E um Mestre Zen à sua inteira disposição foi cortesia turística de primeira hora. Apresentado, as inevitáveis  perguntas, argumentações lógicas à parte, não tardaram .
 De repente, o Mestre Zen, já sentindo os seus bagos desacomodados, resolveu também questionar:
- Você sabe muitas coisas, não sabe ?
A resposta veio de bate-pronto:
- Percebe-se, caro Mestre?
 Sorriso sibilino, todo já análise feita, o Mestre retornou:
- Estou disposto a lhe testar, o amigo concorda?
Peito estufado, sem pestanejar, externou um " Como não , caríssimo Mestre " enxeridíssimo e sem qualquer reticência . E com um acréscimo desafiador: - Pode perguntar o que quiser.
 O diálogo foi mais ou menos assim, como me contaram depois:
 - O amigo sabe onde está neste momento?
 - Claro que sei, caríssimo Mestre. Estamos num lindo bosque.
 - E onde está este bosque, amigo?
 - Ora, prezado Mestre. Na Ásia.
 - E onde está a Ásia?
 - No nosso planeta Terra, Mestre, com certeza, utilizando um “com certeza” típico dos emergentes amerdaçados.
 - E onde está o nosso planeta, amigo?
 - Ora, Mestre ... No Universo, claro!
 - E onde está o Universo, caríssimo brasileiro?
 O embatucamento foi pra ninguém botar defeito. O suor principiava a correr sovaco abaixo .  Mas a resposta não tardou:
- Na verdade, aplaudido Mestre, eu realmente não sei.
E a ponderação severa, a penúltima, aconteceu:
- Veja só, o amigo nem sabe onde está e acha que já sabe muito. O amigo ainda tem muito que aprender, sem dúvida alguma.
 Emputecidíssimo, o notável rebateu sem mais as conveniências de um bom relacionamento:
- Qualé, Mestre, até mesmo o senhor não sabe a resposta correta, né não?
 O xeque-mate até hoje não se desinstalou da supina cuca do:
- Pois esta é a nossa diferença, amigo caríssimo. Minha ignorância é baseada em meu entendimento, enquanto o seu entendimento é baseado em sua ignorância. Sou um tolo bem humorado, você é um sério idiota.
 A posição da classe média brasileira será decisiva para os destinos nacionais, numa hipermodernidade envolta com uma crise braba. Lamentavelmente, nos últimos vinte anos, a classe media brasileira tem estado acorrentada a duas visões equivocadas. A primeira, quando defende os imensos privilégios de um compulsivo consumo, como se ele fosse viável para o todo nacional. A segunda, mais ingênua ainda, é a de exigir sacrifício dos privilegiados de sempre, como se eles estivessem dispostos a desprendimentos solidários. 
 Uma hipermodernidade sadia deve reincorporar as vantagens das relações perdidas, dos gostos esquecidos, dos níveis culturais despedaçados por um consumismo imediato e asneirado pelos endinheirados de final-de-semana, culturalmente apatetados, presas fáceis dos "magos da mente", inúmeros já explicitando um cansaço generalizado, incomodativo até, rima perfeita para  tocaias fascistóides.
 Deveria uma atenta classe média estar sempre de olho vivo diante do notável provérbio iídiche: "Para o verme num rabanete, o mundo inteiro é um rabanete". E para um outro, nordestiníssimo, todo povão: “Quem gosta de sempre botar, um dia vai levar sem dó, piedade e cuspe”. Seja qual for a cor do olhinho  e a textura da pele.
 

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