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DESAFIOS DO FNCE
 Na XXXIX Reunião Plenária Nacional do FNCE - Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, acontecida em Florianópolis, Santa Catarina, de 21 a 24 do corrente, fomos eleitos pelos pares para a vice-presidência da região Nordeste, mais uma missão para Pernambuco, na gestão encabeçada pelo professor Maurício Fernandes Pereira, do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina e da UFSC, também pesquisador do CNPq, um especialista em Planejamento Estratégico num mundo que acelera sua mundialização . 

O tema central da XXXIX Reunião Plenária foi Educação e Diversidade na Formação dos Profissionais da Educação. Um mote sedutor que amplia as responsabilidades dos que integram o sistema educacional de um país com apreciáveis reservas em dólares, um sistema financeiro consolidado, bom nível de consumo interno, baixas taxas de desemprego e inflação sob controle, muito embora ocupando a 84ª. posição, entre 187 países, no IDH mundial, além de uma  muita vexatória 53ª. posição no PISA - Programa Internacional de Avaliação de Alunos, envolvendo 65 países. E  ainda exibindo uma estatística preocupante: 38% dos alunos que chegam à universidade são portadores de insuficientes conhecimentos de Português e Matemática, vitimados por gigantescos apagões cognitivos. Fato denunciado pelo professor Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, em recente entrevista à revista Caros Amigos, n° 186, setembro 2012: “Há dez anos consecutivos, os índices de letramento dos brasileiros permanecem horrorosamente os mesmos: apenas 25% da nossa população entre 14 e 65 anos é capaz de ler e assimilar um texto de complexidade mediana e de realizar cálculos matemáticos mais complexos” ... “A educação brasileira é uma grande farsa. E 90 por cento da nossa educação superior, pelo menos aquela que deveria formar educadores, é uma imensa picaretagem”. 

Creio que já tarda a profissionalização da Educação Brasileira. Urge a adoção de estratégias que reflitam as novas demandas comunitárias, num contexto cada vez mais multicultural. Com a ciência, teórica e aplicada, consubstanciada numa solidariedade para com o derredor, a ensinar as melhores maneiras de pensar, bem assimilada a dimensão do que seja parceria e a revitalização de todas as faixas etárias. E nunca esquecendo Joãozinho Trinta, que nos advertia sem dó nem piedade: “quem gosta de miséria é intelectual”.

Significativo é o pensamento do professor Ronaldo Tavano Palaia, diretor da Faculdade Trevisan, refletindo alerta que se alastra pelos quatro cantos do país: “A sobrevivência das organizações na Nova Economia está incondicionalmente atrelada às habilidades fundamentais de seus colaboradores em todos os níveis hierárquicos, bem diferentes daquelas exigidas dos trabalhadores e dirigentes na Sociedade Industrial. Hoje, para que uma posição no mercado de trabalho da Nova Economia seja ocupada, é preciso dispor cada vez mais do capital intelectual, que não se traduz apenas pelo simples acúmulo de conhecimento, mas pela capacidade de identificar, obter, organizar e utilizar a informação necessária para alcançar os resultados pretendidos.”  E ele foi bem mais além: “De todas as grandes organizações seculares, como o Exército e a Igreja, talvez a Universidade seja a mais conservadora em termos de valores e práticas. Neste momento, contudo, a sociedade precisa formar, em nível superior, talentos humanos com preparo adequado para a economia digital e com grande flexibilidade de adaptação a uma realidade econômica, social, cultural e tecnológica emergente”. 

Uma Educação que se deseja ver mundialmente respeitada, a reverenciar a memória do educador pernambucano Paulo Freire, deve ser possuidora de alguns princípios balizadores: possuir elaboração própria; saber bem amalgamar  teoria e prática; manter-se em contínua atualização, sem modismos pernósticos; emular atitudes emancipatórias; e ampliar a qualificação formal e política de todos os seus segmentos. Além de ser possuidora de um acuradíssimo instinto de sobrevivência, jamais devendo ser representada por um amontoado de salas de aulas, onde impera uma caduca diferença entre alunos e professores, os primeiros sendo passivos, os demais portadores de procedimentos apenas “auleiros”, sem sabor nem arte. 

No ambiente educacional contemporâneo, evidencia-se uma diferenciação gigantesca entre moderno e modernoso.  E a reflexão do notável Umberto Eco, em seu livro Não contem com o fim do livro, Record, 2010, é significativa por excelência, numa quadratura mundial repleta de modismos incentivados por interesses puramente financistas: “Vimos que os suportes modernos tornam-se rapidamente obsoletos. Temos a prova científica da superioridade dos livros sobre qualquer outro objeto que nossas indústrias culturais puseram no mercado nestes últimos anos. Logo, se devo salvar alguma coisa que seja facilmente transportável e que deu provas de sua capacidade de resistir às vicissitudes do tempo, escolho o livro”.

Amplia-se um desconfortável “incremento preocupacional” com o andar da carruagem da Educação Brasileira. O país necessita de um maior aprimoramento qualitativo dos seus níveis educacionais. Todo dirigente educacional de bom tirocínio não pode deixar de se fazer presente técnica e politicamente diante das rápidas mutações que se estão verificando nos contextos nacional e mundial. Para, através de planejamentos estrategicamente compatíveis, reestruturar os atuais níveis educacionais, consolidando diagnósticos e prognósticos, realizações, ritmos evolucionais, sempre aquilatando seus níveis de competência com as demais instituições formadoras de uma cidadania situada e datada, usando expressão consagrada do sempre lembrado  Paulo Freire. 

Segundo Cláudio de Moura Castro, de quem sou ex-aluno sempre aprendiz, “estamos ao limite do conserto fácil”. Com a modernização econômica e a mundialização cada vez mais acelerada, que sejam eliminadas as posturas meramente burocratizantes, as contemplações dos próprios umbigos e as pesquisas que apenas engordam rendimentos mensais de alguns mais antenados. Posto que, sem grandes saltos qualitativos, ficaremos num eterno ora-veja, vendo a banda passar, sem trombone nem clarinete. 

Cabe ao FNCE persistir na luta por uma educação pública de qualidade, sem discriminar as demais modalidades oriundas do empreendedorismo particular. Desafios que são de todos nós, militantes de uma educação essencialmente redentora, “por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” (Rosa Luxemburgo). 
   (Publicada em 29.10.2012, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
    Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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