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DEPOIS DA VISITA DE FRANCISCO
 O mundo não acabou ao final da visita do papa Francisco. Alguns abobados gastaram uma nota de papel higiênico, tamanho o medo enfrentado, difundido por alguns sabidões que queriam levar vantagens das desgraças alheias. Promessas às pencas foram feitas, inclusive a daquele novo-rico que se dispôs a dar metade dos seus depósitos bancários se nada de ruim acontecesse, atualmente sofrendo de uma baita amnésia, desesperando a diocese local, que já fazia mil e uma programações contando com o ovo no fiofó da perua, como dizia minha vó Zefinha, uma mulher que mal sabia assinar o nome, dotada de uma invulgar inteligência, dessas de fazer brutal inveja em alguns formandos de “falcudades” de chiqueiríssimo nível classificatório, dessas que apenas iludem abestados.

Entretanto, apesar de tudo ter saído bem para o Santo Padre, apenas ressaltando a fragilidade do planejar de dois medíocres executivos cariocas, Paes e Cabral, um livro merece ser lido pelos jovens mais antenados, cristãos libertadores. Trata-se de Vivendo no fim dos tempos, de Slavoj Zizek, um dos mais aclamados teóricos contemporâneos, também filósofo e psicanalista, esloveno nascido em 1949 e diretor internacional do Instituto de Humanidades da Universidade Birkbeck de Londres. 

Imbricando diversas áreas do conhecimento, Zizek efetua uma crítica inovadora, cultural e política, da pós-modernidade, identificando os quatro cavaleiros do apocalipse de uma estupenda  crise mundial, seguramente terminal para o regime capitalista, segundo alguns analistas mais emocionalmente impulsivos: a crise ecológica mundial, os desequilíbrios no sistema econômico, a revolução biogenética e o crescimento das divisões e rupturas sociais. Que correspondem, segundo Zizek, aos seguintes estágios de luto: negação ideológica, explosões de raiva e tentativas de barganhar, seguidas de depressão e aceitação. Que resulta num livro eminentemente emancipador, de oposição incisiva a atual ordem global, também de oposição radical à mistificação ideológica que a sustenta.

Sobre o filósofo esloveno já se falou de tudo: que é stalinista e anticomunista, antissemita e pró-Israel, materialista vulgar e idealista desvairado. Segundo ele, o tema basilar do livro é incrivelmente simples: “o sistema capitalista global aproxima-se de um ponto zero apocalíptico”. A partir daí, Zizek faz uma descrição terrificante das ameaças futuras, criticando veementemente os catastrofismos, ideológicos e religiosos, oferecendo um porto seguro onde a história pode ser revertida. Para tanto, ele dispara suas farpas implacáveis contra a utopia liberal, a teologia política, o retorno da crítica da economia política, o surgimento do cogito proletário, concluindo paradoxalmente: “no século XX, a esquerda sabia o que fazer, mas tinha de esperar pacientemente que as condições estivessem maduras para isso”. E que, agora, não se sabe mais o que fazer, embora a urgência nos impele assim mesmo à ação, diante das atuais situações de desestruturações mundiais.   

No posfácio, Slavoj Zizek ressalta uma reflexão de G.K. Chesterton: “O estadista realmente prático não se ajusta às condições existentes, ele acusa as condições desajustadas”. E ele reproduz uma expressão muito usada na China, de alguém que odeia alguém: “Que você viva em tempos interessantes!” Significando, historicamente, períodos de inquietação, guerra e luta pelo poder, onde milhões sofreram terríveis consequências. E Zizek denuncia: estamos nos aproximando de uma nova época de tempos interessantes, depois de muitas décadas de Estado de bem-estar social, onde a crise econômica parece se tornar permanente, onde muitos analistas “catastrofizam” amanhãs, confundindo traumas estruturais e ridículas estratégias sobrevivenciais grupais.

E nunca esquecer, relembra Zizek, a reflexão feita por Simone Weil, em 1965, quando publicou Seventy Letters (Londres, Oxford University): “Há uma classe de gente neste mundo que caiu no grau mais baixo de humilhação, bem abaixo da mendicância, privada não só de toda consideração social, como também, na opinião de todos, da dignidade humana específica, da própria razão – e são esses os únicos que, de fato, são capazes de dizer a verdade. Todos os outros mentem”. E ele mesmo fecha seu livro com uma afirmativa que, certamente, irritará meio mundo: “O comunismo, hoje, não é nome da solução, mas o nome do problema: o problema das áreas comuns em todas as suas dimensões: as áreas comuns da natureza como substância da vida, o problema da área comum biogenética, o problema da área comum cultural (‘propriedade intelectual’) e, por último, mas não menos importante, o problema da área comum como espaço universal de humanidade, do qual ninguém deveria ser excluído. Seja qual for a solução, ela terá de resolver esse problema”. E é o próprio Zizek quem faz uma pergunta de difícil resposta: “Se os capitalistas mais dinâmicos hoje são os comunistas que ocupam o poder na China, esse não é sinal definitivo do triunfo global do capitalismo?”

A visita do papa Francisco muito ampliou a enxergância de uma juventude brasileira que liberou energias escondidas, ao constatar que ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem cristãos, cada um desejando puxar os óbolos para suas sacolinhas, às escondidas, como se Deus estivesse morto, mortinho da silva. A evolução tecnológica ampliou desesperos, gerando indiferenças, quase já eliminando do cotidiano o vocábulo solidariedade. Lembremo-nos do saudoso Dom Hélder Câmara: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico". 

Está na hora de as Igrejas Cristãs, sem firulas nem fricotes, perseguirem uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus próprios pontos fracos, suas comunicações deficientes, oferecendo um serviço religioso que contemple as aspirações espirituais socialmente comprometidas da nossa juventude, num servir capaz de exprimir louvores, contemplações e adorações autenticadas pela palavra do Senhor da História, buscando evangelizar libertariamente sem enganações nem baboseiras.

(Publicada em 29.07.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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