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DE TIJOLO EM TIJOLO ...
Contar a trajetória escolar do Anderson Lima da Silva, morador do bairro Pedreira, zona sul da capital paulista, é relembrar uma iniciativa que muito poderia ser multiplicada  nas zonas urbanas pernambucanas, envolvendo instituições religiosas, clubes de serviço, unidades de ensino superior, organizações não-governamentais, SESC, SESI  e SENAI. Também grandes e médias empresas particulares, muitas delas sempre a vivenciar um “rebolation” metido a piedoso, apenas mugangas assistencialistas marqueteiras que não vão a lugar algum, somente desilusões cívicas acumulando.

Vamos aos fatos: filho de pernambucanos que vieram tentar a vida em São Paulo, a mãe faxineira e o pai pedreiro, Anderson Lima da Silva estuda há oito meses no cursinho pré-universitário da UNEAFRO – União de Núcleos da Educação para Negros e Classe Trabalhadora, tencionando ingressar numa universidade pública, em geografia ou ciências sociais ou serviço social.  Solidário e cidadão, também tornou-se voluntário na secretaria do cursinho, mesmo indo contra às vontades do pai e da mãe, que o aconselhavam a dar preferência a um trabalho remunerado, posto que, segundo eles,  “trabalho voluntário não enche a barriga de ninguém”.

Entretanto, para a grandeza da pátria e felicidade geral da nação, o pernambucano Anderson tem cabeça feita e muitos bons propósitos. Ele acredita que o cursinho ajuda “na inclusão das pessoas que vêm da base”, posto que o foco da UNEAFRO é preparar os alunos para as universidades públicas federais e estaduais “que não foram feitas para nós, negros, trabalhadores e toda essa massa das bases”.

A UNEAFRO possui 42 cursinhos espalhados pelo Estado de São Paulo, alguns funcionando de segunda a sexta-feira, das 19 às 22,45 horas, outros funcionando aos sábados, das 8 às 17 horas. Neles, além de transmitir os conteúdos cobrados pelo ENEM, outros temas são postos em debate, “pois não adianta o aluno ser craque em matemática se ele não é politizado”, pois “a diferença entre cursinho popular e o comercial está basicamente no valor e nos objetivos de cada um: o comercial tende a ter suas atividades voltadas quase exclusivamente para os vestibulares, enquanto os populares tendem a oferecer, além da preparação para os vestibulares, um olhar voltado para a formação cidadã”.

Mensalmente, a UNEAFRO ministra uma aula pública numa das praças da capital paulista. Segundo seus organizadores, “uma maneira de debater o modelo da educação”, principalmente os graus que embasam para a vida universitária.

Além do exemplo do Anderson, um outro, na área feminina, ratifica a forte ascensão da mulher no mundo do trabalho qualificado contemporâneo. E a vitoriosa é uma empregada doméstica, a Lurdinha, também mãe de família, que tinha abandonado o ensino médio há quase uma década.  Depois de um ano de cursinho, ela ingressou no ensino superior e está devidamente matriculada no curso de Engenharia Mecânica de um Centro Universitário de São Paulo. E continua trabalhando como doméstica para sustentar seus rebentos. Talento e muita disposição para ultrapassar as barreiras das desigualdades sociais.

Os exemplos deveriam ser multiplicados Brasil afora, agregando instituiçõe que se  integrassem em projetos educacionais que conjugassem competência e cidadania, um binômio que conduzisse à construção de caminhos brasileiros transformadores. Sem jamais pôr no baú dos menosprezos a reflexão do educador pernambucano Paulo Freire: “Não há possibilidade de pensarmos o amanhã mais próximo ou mais remoto, sem que nos achemos em processo permanente de ‘emersão’ do hoje, ‘molhados’ do tempo que vivemos, tocados por seus desafios, instigados por seus problemas”. 

Saber meter a mão em merda para resolver o caos reinante, como proclamava Jean Paul Sartre, está a exigir a emersão pedagógica de três setores radicalmente interdependentes: a Arte, a Ciência e a Filosofia. A Arte, traçando o planejamento da composição, criando percepções e afetos. A Ciência, erigindo suas estruturas de referência, criando funções. E a Filosofia, através do tear da imanência, analisando conceitos e favorecendo novas reflexões evolucionárias.

Somente através de três “pensações” – pensar por percepções, pensar por funções e pensar por conceitos – favoreceremos novos caminhares e acontecimentos pedagógicos, consolidando cenários emergentes mais condizentes com uma democracia embasada num processo produtivo de amplo respeito pelo Trabalho, pelos Direitos Humanos e pela participação de todos aqueles que desejam fazer a hora, sem apenas jamais esperar acontecer. Sempre seguindo a canção, considerando todos irmãos.

(Publicada em 29.07.2010, Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 
 

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