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CUTUCADAS PREVENTIVAS
Longe de mim falar de agressividades. O título acima se refere a algumas notáveis reflexões surgidas ultimamente, de autores dos mais diferenciados saberes, que se libertaram dos mesmismos fraseológicos acadêmicos, rejeitando ademais, outrossim, sem embargo, não obstante, uis, ais e ohs proporcionando fortalecimento de ações comportamentais mais historicamente comprometidas com os amanhãs libertários que se avizinham.
 
Outro dia  li na Folha de São Paulo, com entusiasmo docente que em mim não se esvai, um “dedálico” artigo do  jornalista português João Pereira Coutinho intitulado “Como Destruir um Filho” (FSP, 22.09.2015, C8). E ele fazia referência a uma história acontecida em Harvard, quando alguns alunos, sentindo-se desconfortáveis quando professor utilizou a expressão “violar a lei”, solicitaram dele a não mais repetição, posto que as universidades devem ser “zonas de conforto”, onde nunca se deve escutar aquilo que não se gosta de ouvir. Ele também cita livro escrito por Julie Lythcott-Haims, ex-decana da Universidade de Stanford, intitulado “How to Raise an Adult” (Como Levantar um Adulto), quando, “antigamente, os pais preparavam os filhos para a vida; hoje, os progenitores preferem proteger os filhos da vida – e isso se vê nas pequenas coisas e nas grandes coisas”.
 
Segundo Coutinho, “não será de admirar que, educadas perpetuamente como crianças, as crianças universitárias de hoje vejam ‘microagressões’ em cada frase, curso ou professor. Tudo é ameaça para quem foi constantemente protegido de qualquer ameaça. Um livro. Uma frase. Um conceito. E, claro, um preconceito”. E ele, citando a Lythcott-Haims, ressalta que o “overparenting” tem crescido a extremos preocupantes ao logo da última década, sendo ruína para a sociedade do futuro se não desabilitado com efetividade nos próximos anos. 
 
Overparenting, também conhecido como limpa-neves, helicóptero e parentalidade estufa, decolou na década de 1990 e se manifesta como uma combinação de ansiedade excessiva, metas de realização irrealista e antiquada advindas de pais e mães hiperprotetores, numa parentalidade-bolha que não desenvolve uma resiliência psicológica saudável, reduzindo a  criatividade e proporcionando múltiplos impasses no caminho de jovens para uma vida adulta.
 
No seu livro, a ser lançado no  Brasil em 2016 pela editora Rocco, a ex-decana de Stanford ressalta: “não é incomum ver pais que se preocupam com a carreira dos filhos antes mesmo de eles começarem o processo de alfabetização. Procuram escolas bilíngues que prometem um eficiente encaminhamento profissional num futuro distante. As crianças são matriculadas em diversos cursos esportivos, artísticos e de reforço escolar. A agenda dos pequenos é cheia. Foi nos Estados Unidos que se cunhou um novo termo para o fenômeno: overparenting”. E ela vai mais além: “ainda que as crianças não demonstrem habilidades físicas ou intelectuais acima da normalidade, ninguém segura o orgulho dos pais quando eles ouvem, por exemplo, que sua cria foi a primeira da classe a aprender uma determinada sílaba. Tudo dentro da normalidade da afeição familiar. O problema é quando os pais ultrapassam os limites desse comportamento e obsessivamente traçam metas para que os filhos brilhem quando adultos.”
 
Para a neuropsicóloga Sylvia Ciasca, professora do Departamento de Neurologia Infantil da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e presidente nacional da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil, esse desejo dos pais de verem os filhos os superarem sempre existiu, mas nunca com tanta ênfase como agora. "Vivemos num mundo mais competitivo que nos força a ter uma posição de competição e a criança se enquadra nisso", explica. Ela aponta para a visão de mundo predominante nos dias de hoje: "é necessário que um adulto bem-sucedido fale três idiomas e tenha determinadas habilidades físicas. Deixou-se de lado o fato de a criança aprender muito brincando e se relacionando”.
 
Uma explicação bastante pertinente foi recentemente apresentada pelo psicólogo organizacional Piers Steel, especializado em procrastinação: “os seres humanos tem uma baixa tolerância à frustração. A cada momento, ao escolher a tarefa a ser feita ou as atividades a serem adotadas, não tendem a escolher a mais gratificante, e sim a mais fácil. Isso significa que as coisas difíceis ou desagradáveis são adiadas”. Nossos principais problemas são sempre projetados para amanhãs nunca chegados. No Brasil, isso vem acontecendo desde 1500, creio eu.
 
O neuropediatra Abram Topczewski amplia o alerta quando declara que os pais estão mal orientados e demandam da escola uma educação que contemple soluções para seus temores, o que envolve, inclusive, a existência de um currículo muitas vezes inadequado para o desenvolvimento normal da criança. Para ele, com medo de perder alunos para a concorrência, muitas escolas se submetem às exigências.
 
Com as novas diretrizes da Educação Fundamental, recentemente estabelecidas pelo MEC, que os prejuízos causados à meninada não se agigantem “mais um cadinho”, como diz frequentemente uma professora de Espanhol que muito amo. E que os professores sejam melhores capacitados e mais bem remunerados, parando de servir como bois de piranha para as estrepolias de bostíferos tecnocratas!
 
(Publicado em 12.10.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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