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CRIMES BÁRBAROS E INDUÇÕES MIDIÁTICAS
Assinante da revista Carta Capital, admirador de muitos anos e de carteirinha do Mino Carta, li entusiasmado a entrevista A Violência e o Exagero, do jornalista Celso Calheiros, na edição de 27 de julho próximo passado, com a socióloga Patrícia Bandeira de Melo, da Fundação Joaquim Nabuco, também integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas da Universidade Federal de Pernambuco. Na excelente matéria, tomei conhecimento da tese de doutorado da Bandeira de Melo, intitulada Histórias que a Mídia Conta: O discurso sobre o crime violento e o trauma social do medo, Editora Universitária da UFPE, 2010, 384 p., orientada pelo professor José Luiz de Amorim Ratton Jr e devidamente analisada por uma banca de elevado nível científico, composta pelos professores César Barreira, Anderson Moebus Retondar, Alfredo Vizeu, Lilia Junqueira e o orientador já citado.

A edição da UFPE integra o Programa de Publicações de Teses e Dissertações da Pró-Reitoria para Assuntos de Pesquisa e Pós-Graduação, coordenada pelo professor Anísio Brasileiro de Freitas Dourado, recentemente eleito futuro reitor da UFPE.

Na entrevista à Carta Capital, a Patrícia Bandeira de Melo ressalta o principal mote do seu livro: a cobertura dos casos e seus efeitos perversos na geração de pânico na população. Ela própria enfatiza: “A imprensa quer tudo. Investigar, explicar, dar causa rápida, revelar os porquês. Ela se dá o papel de instituição total, ela acha que tem o poder de buscar respostas para todos os problemas – e logo. O mundo não é assim, as pessoas não funcionam nessa rapidez ... Temos uma sociedade marcada pelo crime. Nosso passado é uma história de criminosos. Começa com a escravidão, depois com o cangaço, a malandragem dos anos 1950 e depois a ditadura. Tudo é romantizado ... Vem o discurso do esquecimento, aquela conversa de que a gente precisa apagar isso. É um problema grave. Quando você apaga da história processos traumáticos, você retira o sentido do trauma”.

No prefácio, o professor José Luiz Ratton enfatiza: “O crime violento e o medo de ser por ele atingido têm se constituído em questões que assombram e perturbam o cidadão comum no Brasil há decadas ... O livro de Patrícia Bandeira de Melo é um esforço notável e bem sucedido de compreensão deste fenômeno ... O polêmico e instigante argumento de Patrícia (no decorrer e ao final de sua análise) nos remete à participação dos meios de comunicação na produção direta e indireta, manifesta e latente, do imaginário social do medo do crime e da violência ... As complexas  relações entre mídia e crime violento no Brasil não podem ignorar os sólidos e instigantes argumentos levantados por Patrícia Bandeira de Melo neste livro”.

Lição apreendida após a leitura do livro da Bandeira de Melo: em tudo deve prevalecer um bom senso crítico, que separe o joio do trigo, o verdadeiro do aparentemente reluzente, o caminho do atoleiro. Em nosso dia-a-dia encontramos centenas de afirmações falaciosas, que geram mal-entendidos, desilusões e inconformismos, quando não fuxicos decuplicados pela ignorância dos desavisados.

Numa conferência recente, alguém escreveu num flanelógrafo: “quando quiser saber alguma coisa sobre jóias, não pergunte ao alfaiate, pergunte ao joalheiro”. Eis o caminho mais realista, menos prejudicial, mais consistente. Com apenas um porém: o consultado deve ser bom, mais que muito bom, ótimo, inspirador de muita confiança, conhecedor pleno de uma realidade, a da sua especialidade. Com os seus derredores sociais.

Na iniciante segunda década do presente século, certamente de infindáveis altos e baixos, um binômio torna-se cada vez mais indispensável, de  extrema valia para o desenvolvimento de profissionalidades cidadãss. Competência estratégica x dinamicidade desburocratizada, irmãs siamesas, estão se tornando  requisitos primordiais, para quem deseja enfrentar as turbulências conjunturais do agora, valorizando-se sobremaneira o pensar antológico do poeta Fernando Pessoa: "Viver não é necessário, o que é necessário é criar".

Estamos testemunando momentos encruzilhadais, onde não devem predominar interpretações simplistas ou bla-bla-blás simplórios, negligenciando-se aspectos históricos, políticos e sociais, nestes atentando-se mais para Educação, Saúde e Segurança. Atentando-se para uma máxima de  notória significação: quando se atrofia uma discussão democrática, estrangula-se a visão estratégica decisória, disseminando-se um sentimento maniqueista resultante de um pensar dualista já obsoleto, hoje carta fora do baralho.

Como seria interessante ver uma audiência pública sobre Criminalidade, Medo e Mídia, na Comissão de Cidadania da Assembleia Legislativa de Pernambuco, atualmente presidida pelo dinâmico deputado Betinho Gomes. Logicamente com uma exposição preliminar da própria pesquisadora  Bandeira de Melo, também jornalista dezoito quilates. Uma maneira de conhecer melhor os não muito saudáveis imbricamentos entre criminalidade, mídia e sociedade civil, favorecendo a emersão de políticas públicas e iniciativas midiáticas fortalecedoras de uma Cidadania Estadual muito além dos blá-blá-blás dos apenas arroteiros.

(Publicada em 04.08.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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