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CONTRA HIPOCRISIAS E OUTRAS FAROLAGENS
Se eu tivesse dinheiro folgado, enojado que estou das hipocrisias e farolagens que estão se multiplicando nos cenários brasileiros, adquiriria exemplares de um livro que bem estimularia o combate à covardia intelectual dos omissos e massificados, onde cínicos bom-mocismos escamoteiam soluções comezinhas, desapercebendo-se de uma consciência comunitária que se  encontra nos limites de sua paciência.

O livro se intitula O Mal que Ronda a Terra – Um Tratado Sobre as Insatisfações do Presente, de Tony Judt, professor de Cambridge, Oxford e Berkeley, ganhador do Prêmio Hannah Arendt, em 2007. Diagnosticado, em 2008, como portador de esclerose amiotrófica lateral conhecida como doença de Lou Gehrig, eternizou-se, aos 62 anos, em agosto do ano passado, pouco depois do lançamento do livro acima citado.

Diria que o texto do Judt é um comentário político perspicaz e muito antenado com os amanhãs planetários. Na sua visão, a era pós-industrial libertou energias escondidas, aumentando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança. Para não falar das ações levianas e devassas cometidas pelos que se dizem cristãos, cada um desejando puxar os óbulos para suas sacolinhas às escondidas, como se Deus estivesse morto, mortinho da silva. Segundo Judt, a evolução tecnológica, fantástica sem ser global, ampliou desesperos, gerando indiferenças, quase já eliminando, do cotidiano primeiromundista, o vocábulo solidariedade.

Observando as análises do Judt, recordamos uma advertência do Dom Hélder Câmara, amado ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife: "O Cristianismo que difundimos no Continente, atribuindo tudo a Deus e quase não apelando para a iniciativa e a responsabilidade do homem chamado, pelo Criador, a dominar a natureza, a completar a Criação, a conduzir a História, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico". Traduzindo em miúdo: está na hora de as Igrejas Cristãs, com o restinho de combustível que ainda lhe restam, perseguirem uma auto-avaliação corajosa, descobrindo seus pontos fracos, suas comunicações deficientes, oferecendo um serviço religioso que incentive as aspirações sociais das nossas comunidades mais debilitadas, pollitizando todas elas sem enganações nem velhacarias.

Na velha China, o filósofo Kouang-tseu (século IV a.C.) sentenciava: “Jamais modificai uma lei para satisfazer os caprichos de um príncipe, posto que a lei está acima do príncipe”. No Brasil, alguns legislativos alteraram suas constituições estaduais, subordinando-as a interesses cavilosos, esquecidos dos reverbérios históricos evolucionários.

No livro O Mal que Ronda a Terra – Um Tratado Sobre as Insatisfações do Presente, Tony Judt enfatiza: “Estamos entrando numa era de insegurança. A insegurança alimenta o  medo. E o medo – da mudança, do declínio, dos desconhecidos e de um mundo estranho – está corroendo a confiança e a interdependência nas quais se apoiam as sociedades civis”. Em outras palavras: uma crise tornar-se-á saudável quando não se contentar em ser apenas uma crítica aos outros, mas quando se tornar um julgamento de si mesma. E isso somente advirá com mais capacitação educacional e mais participação, no Brasil, para os severinos de maria do poeta João Cabral de Melo Neto.

Imagino o espanto de políticos, juízes, desembargadores e até do próprio ministro Jobim, ao lerem Ted Gaebler, autor do Reinventando o Governo, um best-seller com mais de quinhentas mil cópias vendidas nos quatro cantos do mundo, já traduzido no Brasil: “O que mais falta hoje aos governos é energia e paixão”. Tesão administrativa, ética e criatividade empreendedora, eis as três  vertentes das iniciativas vitoriosas, competitivas e carregadas de alto poder germinal. Para isso não sendo necessário ir fazer cursinho jurídico de férias em Nova York...

Nossa região será mais Nordeste quando maior  for o nível de envolvimento dos seus segmentos sociais na elaboração de uma duradoura estratégia alavancadora. Com eleitores conscientes, que valorizem seus votos, e com políticos que persigam propostas estruturadoras, nobilitando a vida de todos os rincões estaduais.

Um exercício de primeira necessidade recomendaria aos os pernambucanos ainda não devidamente politizados: leituras sobre provincianismo. E mais: sobre a artificialidade do apenas progresso, para identificar os arrotos grandiloquentes de um já-fui-bom-nisso e dos que apenas exalam lamuriantes nostalgias.

No mais, é continuar caminhando, jamais abandonando a convicção do compositor Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, nunca espera acontecer”.

PS. O ex-presidente Itamar Franco eternizou-se desencantado com o Congresso Nacional. Tal e qual aqueles que estão desiludidos com os acocoramentos dos parlamentos estaduais e câmaras municipais, repletos de cinismos e fisiologias babaovísticas.

(Publicada em 04/07/2011, no Portal da Revista ALGOMAIS, Recife – PE)
Fernando Antônio Gonçalves
 

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