facebook
Aumentar fonte  Diminuir fonte  Indicar esta página  Imprimir esta página
CONSELHOS, PITACOS E CRENÇAS
Outro dia relembrava para um dinâmico comunicador e seus amigos o fenômeno da Perna Cabeluda, que produziu até um curta-duração muito premiado em festivais. Um papo que rendeu alguns bons instantes de prosa, tudo se baseando num lema de Sêneca que dizia “as coisas boas da prosperidade devem ser desejadas, mas as coisas boas da adversidade devem ser admiradas”. Que muito bem se reflete num ditado popular conhecido: “topada só bota pra frente”.

Quase no final, um dos presentes anunciou o lançamento recente, editora Ícone, dos Ensaios de Francis Bacon, tornado público em 1597, 17 anos após os de Montaigne, muito embora poucas semelhanças existem entre os dois, “exceto pela força rara de interesse excitante, e a inconfundível marca da genialidade expressa em ambos”. E o amigo ainda citou o Eclesiastes 7,1, “melhor que um bom óleo é um bom nome”, aquele que não teme a verdade sobre as cafajestadas praticadas ao longo da História,  que sempre trazem à tona as mentiras escabrosas, desnudando corrupções e ganhos fáceis, desmontando maledicências e injustiças vis.

 No livro de Francis Bacon, recomendável para os momentos políticos presentes, quando a simulação e a dissimulação estão cada vez mais presentes nos diferenciados ambientes sociais, inclusive religiosos, um trecho chama a atenção: “Os homens mais capazes sempre foram aqueles abertos e francos e com uma reputação de certeza e veracidade. Entretanto, eram como cavalos bem amestrados, porque sabiam bem quando parar ou virar, quando achavam que o caso de fato requeria dissimulação”. E três graus de esconde-esconde são explicitados no livro. O primeiro se traduz por cautela, reserva, segredo, quando o ser humano não se deixa observar ou quando, por imperiosa necessidade esconde o que ele é ou pretende fazer, tal e qual um confessor, a nudez não sendo imprópria nem para o corpo nem para a mente; o segundo grau é mais negativo, quando o ser humano revela sinais e argumentos de que ele não é o que é, o segredo devendo ser mantido por  necessidade, exercendo a discrição; e o terceiro grau é intensamente negativo, quando o expositor, cinicamente, finge ser o que não é, aparentando uma naturalidade amplamente ensaiada, pouco se lixando para os olhares observadores.

No meu modesto modo de ver as coisas, três tipos de seres humanos me causam profundo asco: o invejoso, o protelador e o que se imagina sábio. Um ser humano sem virtudes consolidadas sempre inveja a virtude dos outros. Típico invejoso é o intrometido, aquele que anseia por informações se possível predadoras, sempre buscando enfiar areia na empada dos outros, tornando-se inimigo número um da fofoca-do-bem, aquela que deixa o fofocado em excelentes lençóis. No Recife, três tipos de fofocas perambulam pelos seus quatro cantos: a fofoca do mal, a fofoca do bem, já citada, e a fofoca aparentemente do bem: “Fulano é um sujeito extremamente capaz e trabalhador, mas é pena que seja amplamente corno!”

O protelador é aquele que desconhece a sabedoria maior das suas funções executoras: saber bem determinar o tempo do início das coisas. Preferível não responder que responder com evasivas mil, como “o serviço de restauração começa amanhã”, “pra semana a gente conversa para resolver o seu assunto”, “fique tranquilo que na semana que vem resolverei o seu problema”, “estamos estudando seu pedido”, etc, etc.   

O saberete, aquele PhD em tudo no mundo, é o que mais me enfurece. Ele se posta como “iluminado”, emposta a voz, arrebita o nariz e olha soberano para os seus derredores como se eles fossem situados  muitos furos abaixo dos seus níveis cognitivos. Imagina-se intelectual, sem nunca ter tido conhecimento da cipoada magistral do padre Daniel Lima, poeta genial, um pensador muito do arretado, 95 anos e ainda em plena atividade: “Estudei gramática, / fiz filosofia, / decifrei charada, / li tudo o que é livro, / aprendi foi coisa / mas não sei é nada”.

No frigir dos ovos, faz bem reler, vez em quando, um livro de sabedoria, para suportar as diatribes do cotidiano e a legião dos fingidos. Um exemplo?: “Até quando vocês, inexperientes, irão contentar-se com sua inexperiência? E vocês, tolos, até quando desprezarão o conhecimento?”  (Pv1,22) 

(Publicada em 23.06.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

Site criado com o sistema Easysite Acadêmico da eCliente.
ECLIENTE INFORMÁTICA