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CARTA PARA ALDO QUINTÃO
 Caríssimo Reverendo: Não o conheço pessoalmente, apenas de referências elogiosas sobre sua pessoa e suas atividades pastorais enviadas por amigos paulistas e parentes próximos meus que moram no estado locomotiva do Brasil. Temos um amigo comum, Dom Glauco Soares de Lima, ex-primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, por quem nutro uma admiração de quatro costados, fruto de uma correspondência internética fraternal que mantemos há anos através das Reflexões de Caminhante que envio para ele e para um punhado de anglicanos como a gente, também para mais uns dois mil e tantos endereços eletrônicos, daqui e dos outros recantos do mundo, crentes e agnósticos de todas as crenças, os nacionais sendo maioria esmagadora, quase 95% do total enviado, do Oiapoque ao Chuí de um Brasil que necessita acordar para tornar-se cada vez mais preparado para as eleições do próximo ano.

Mas o motivo destas linhas é pessoal: efusivamente parabenizá-lo pelo lançamento do livro A Graça de Deus, editado pela Sextante no ano passado, onde o irmão lança um desafio que sempre me foi familiar e que me custou, em ocasiões diversas, algumas caras feias de abiscoitados moralistas, portadores de mentes asininamente curtas: Quem disse que humor e espiritualidade não podem caminhar juntos? 

Na Introdução do seu livro, o reverendo narra seus terríveis tempos de infância, em Brasília, sem água encanada, luz e banheiro, embora tudo se resolvendo com lamparina, cisterna e privada sem papel higiênico, xampu e sabonete. Sem jamais faltar, entretanto, aquilo que o irmão ressalta com muita propriedade: um sorriso e uma confiança em Deus de pais, irmãos e derredores. Fé e alegria  que nunca faltaram, advindos de um DNA bendito e divino. Desde as costuras feitas em saco branco pela mãe até as engraxadas feitas pelo pai, tudo cantarolado sem afetações, nem pieguismos bolorentos dos que se imaginam perfeitos e acabados. 

Leitor compulsivo de livros, revistas e jornais, me tocou profundamente a alma quando li que sua apresentação ao universo do saber fora feita através de jornais recolhidos para embrulhar sapatos, queijos, rapaduras e outros produtos de venda, ocasião que lhe favoreceu conhecer as colunas de Nelson Rodrigues, Flávio Rangel, Lourenço Diaféria e tantos outros colunistas famosos brasileiros, leituras que o habilitaram ao ingresso no seminário e nas questões contemporâneas, favorecendo o fortalecimento da sua cidadania brasileira.

Achei de muito bom humor chamar a área de sua moradia, quando adolescente, de Vila do Sem, porque ela era sem asfalto, sem creche, sem restaurante, sem cinema, sem qualquer tipo de lazer, quando chovia tudo se transformando numa imensa poça de lama. E muito ampliei minha consciência quando li seu testemunho exemplar: “Foi naquela vila que aprendi o significado verdadeiro da solidariedade, da fraternidade, da igualdade e da inclusão. O negro, o gay, a prostituta, todos nós éramos iguais e solidários na doença, na fome e na fartura. ... Quando alguém construía mais um quarto na casa, eram muitos os pedreiros e serventes voluntários, pois o rango nesse dia era especial.”    

Vibrei intensamente quando o irmão revelou que foi na Vila dos Sem que “aprendi lá que todas as coisas podem ser vencidas ou amenizadas pela fé e pela alegria. Com Deus e com alegria de viver, a gente verga, mas não quebra. Balança, mas não cai. Perde uma batalha, mas não perde a guerra”. E mais anglicano me tornei ainda quando constatei a existência de suas três creches, matenedora de 700 crianças, apoiadas por inúmeros casais paulistanos que estão sempre ao seu lado para o que der e vier, em nome da mensagem salvífica do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador que tanto amamos.

A recomendação feita no final da Introdução do seu livro, caríssimo irmão Aldo, temperaram meu ânimo existencial, deixando-me ainda mais disposto na ajuda diária a uma mãe de 93 anos, Alzheimer em grau último, e a uma companheira que há oito anos luta bravamente contra um tumor cancerígeno, já tendo se submetido a 36 cirurgias das mais variadas complexidades, sempre com fé e alegria, sem perder a ternura jamais, nem o jeitão meigo de ser mulher cidadã sempre presente na prestação de serviços jurídicos aos desprotegidos da sorte. Transcrevo seu final para os leitores da Besta Fubana, um site idealizado pelo Luiz Berto, um arretado amigo fraternal de muitos anos: “Lembre-se sempre do náufrago que caiu do barco da vida e prometeu a Deus que, se fosse salvo, nunca mais assistiria um jogo de futebol, não olharia para nenhum mulher, pararia de beber e não contaria mais piada. E Deus disse para ele: - Para que, então, você quer ser salvo?”

Na ternura de Deus, o cumprimento. Recomende-me ao Dom Glauco Soares, por quem nutro gigantesco amor fraternal. Que Deus os proteja sempre em suas caminhadas terrestres. Recomende-me à criançada das creches, filhos amados da Criação.

Com afeto deste seu irmão que bebe uma coisinha de nada, continua observando muito as evas bonitonas, vibra com uma boa partida de futebol e não perde uma oportunidade de contar  piadas inteligentes, suaves, médias ou picantes. Das que costumam fazer Deus dar um sorrisão daqueles danado de bom.

(Publicada em 17.06.2013, no Jornal da Besta Fubana, Recife, Pernambuco)
Fernando Antônio Gonçalves
 
 

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