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CADERNOS DE VICTOR HUGO
Pouca gente sabe que o famoso escritor francês Victor Hugo (1802-1885), autor dos mundialmente conhecidos romances Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, foi um deputado firme e oponente a Luís Bonaparte, tendo se exilado voluntariamente na ilha britânica de Jersey, a partir de 1852, após tentar estabelecer sem sucesso uma resistência armada contra o tirano que pretendia se eternizar no poder, no exílio permanecendo até 1870, com a queda de Napoleão III. Um exílio que se estenderia por dezenove anos.
 
Após o golpe de Estado de Napoleão III, em 2 de dezembro de 1851, o escritor francês deixa Paris nove dias depois, embarcando no trem das 20 horas com destino a Bruxelas sob a identidade de Jacques  Firmin Lanvin, um tipógrafo. Antes de escolher Jersey, residiu na Antuérpia, em Londres e Southampton. Em 5 de agosto de 1852, Victor Hugo e seu filho Charles desembarcam na ilha anglo-normanda, onde os aguardavam, desde 31 de julho, Adèle Hugo, sua mulher, sua filha chamada também de Adèle, além de Auguste Vacquerie, um amigo fiel.
 
Em Jersey, uma amiga de Victor Hugo, principia a conversar com a família sobre Espiritismo, principalmente narrando as últimas experiências com Mesas Girantes e Falantes que tinham acontecido nos Estados Unidos, posteriormente difundidas por toda a Europa. As primeiras tentativas feitas com as Mesas com Victor Hugo muito o desapontaram, juntamente com seus próximos, amigos e familiares. Entretanto, em setembro de 1853, manifesta-se o espírito de Leópoldine, que havia se afogado dez anos antes, radicalmente modificando o ânimo do escritor e seus parentes. Desta experiência, até 1855, as sessões espíritas realizadas quase diariamente na casa do escrito são registradas em atas, a maioria delas por ele mesmo redigidas.
 
Com a desencarnação de Victor Hugo, em 1885, aos 83 anos, suas experiências espíritas e suas atas foram cercadas de mistério, algumas delas vindo à tona, de modo amplamente esparso.
 
Até que as Éditions Gallimard, em 2014, resolve editar todo o material coletado, no que foi seguido, neste ano, no Brasil, pela Editora Três Estrelas, tornando do conhecimento público brasileiro O Livro das Mesas: as sessões espíritas de Jersey, Victor Hugo, 2018, 628 p.  
 
Nos quatro cadernos agora editados, há diálogos sobre uma série de questões: a condição humana, crime e punição, sofrimento e morte, destino da alma, a vida no além, e a importância do amor e do perdão. Também temas sociais são aventados, bastante adiantados para a época: o direito das mulheres e das crianças, o fim da pena de morte, inclusive a criação dos Estados Unidos da Europa, assuntos essenciais para compreender mais adequadamente a obra de Victor Hugo posterior ao exílio, também favorecendo uma compreensão mais ampla sobre os momentos iniciais da história do espiritismo.
 
No prefácio de Patrice Boivin, uma declaração histórica: “Entre 11 de setembro de 1853 e 8 de outubro de 1855, Victor Hugo dedica-se quase diariamente às sessões espíritas. Nessas ocasiões, dialoga com os espíritos mais ilustres: Aníbal, Dante, Caim, Skakespeare, Lutero, Safo,  Chénier, Alexandre, o Grande, Leônidas, Molière, Jesus, Platão, Ésquilo, Galileu ... – e com as formas mais abstratas: a Sombra do Sepulcro, a Crítica, a Metempsicose, o Drama  ou a Morte”, sempre lhe restando, segundo ele, “passar em revista as constelações de pensamento.
 
Com a chegada de Delphine de Girardim à ilha de Jersey, ela tomou a iniciativa de implementar as Mesas Girantes, cujas revelações muito contribuíram para o desenvolvimento da obra de Victor Hugo. Todo teor  escrupulosamente anotado em cadernos e atas.
 
Foi o próprio Hugo quem concebeu O Livro das Mesas, que projetava sua publicação póstuma, pois nele “havia um espírito na mesa, independente do homem”, “um meio de escoar mais rápido e melhor a produção do cérebro”. Inicialmente impedidas pelo Além de divulgação, as Atas foram posteriormente liberadas, sendo registrados os principais fenômenos acontecidos entre 12 de setembro de 1853 até 5 de outubro de  1855. Para cada sessão, uma ata circunstanciada e amplamente detalhada era da responsabilidade de uma determinada pessoa, os demais participantes da sessão tendo plena liberdade de fazer suas anotações. Tais atas foram , posteriormente, transcrita em cadernos especiais, constituindo-se quatro volumes manuscritos encadernados, “cadernos vermelhos” como foram chamados pelo próprio Victor Hugo. Muitos anos depois, tais cadernos foram parar nas mãos de Gustave Simon, que providenciou uma publicação parcial em 1923, setenta anos após as primeiras sessões acontecidas, intitulada Na casa de Victor Hugo: as Mesas Girantes de Jersey.
 
Desaparecidos misteriosamente, com várias versões aparecidas e novamente disputadas, eis que, em 1972, um dos  cadernos reaparece, sendo oferecido à Biblioteca Nacional, sendo por esta adquirido. Através dele, verifica-se o essencial ocorrido entre setembro de 1853 e outubro de 1855, em Jersey, lançando uma luz inédita sobre os fatos acontecidos.
 
Alerta-se, no prefácio da edição brasileira, que a palavra Mesa com maiúscula remete às vozes dos espíritos, enquanto com minúscula designa o objeto material. A letra X assinala uma palavra ilegível, as intervenções da Mesa estando em negrito.
 
Uma leitura reflexiva apropriada para mentes esclarecidas, com mínimos domínios da Doutrina Kardecista. Vale a pena dar uma conferida.
 
PS1. Indico uma passadinha no capítulo 10 do livro O Semeador de Estrelas, da médium Suely Caldas Schubert, biógrafa de Divaldo Franco. O capítulo intitula-se A Presença de Victor Hugo na Obra Mediúnica de Divaldo Franco.
PS2. Recomendo ainda o romance de Victor Hugo Do Calvário ao Infinito, RJ, Federação Espírita Brasileira, 2007, 580 p., romance psicografado por Zilda Gama (1878-1969), a primeira médium brasileira a obter do mundo do além uma substancial literatura espírita, causando sensação em todos os segmentos de leitores.        
 
 
(Publicado em 11.06.2018 no site do Jornal da Besta Fubana (www.luizberto.com) e em nosso site www.fernandogoncalves.pro.br)  
Fernando Antônio Gonçalves
 

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