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BIOGRAFIA DE UM CAVALEIRO
Como não-marxista radicalmente defensor dos pensares os mais diferenciados possíveis, sempre tive amigos que compartilhavam ideias comunistas e que mereciam a minha mais ampla consideração, a exemplo do escritor Paulo Cavalcanti, por quem tinha uma admiração fraterna. E sempre ouvi múltiplos elogios acerca da Coluna Prestes, comandada por Luiz Carlos Prestes, o lendário Cavaleiro da Esperança.
 
Semana passada, recebi de amigo brasiliense muito admirado, o livro Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, de autoria da historiadora Anita Leocádia Prestes, posto em outubro do corrente ano nas diversas livrarias brasileiras pela editora Boitempo. Com as orelhas do livro escritas pelo paulista José Luiz Del Roio, radialista, político e ativista social, um dos responsáveis pela recuperação de importantes partes do acervo documental do Partido Comunista Brasileiro, devidamente organizado no Archivio Storico Del Movimento Operaio Brasiliano, em Milão, Itália. E na contracapa um comentário do jornalista mineiro Fernando Morais, deputado estadual por São Paulo, autor de A Ilha, Olga e Chatô, o Rei do Brasil, autor premiado três vezes com o Prêmio Esso e quatro vezes com o Prêmio Abril. 
 
A autora, Anita Leocádia Prestes, filha do Cavaleiro da Esperança, trabalhou como assistente do pai, de 1958 até a eternização dele, em 1990. E durante mais de três décadas teve oportunidade de se aprofundar “no estudo de cada período da vida desse personagem singular da história do Brasil”, com sua biografia, agora tornada pública, suprindo uma lacuna acerca de uma forte imbricação histórica entre Prestes e o Partido Comunista Brasileiro, fundado pelo jornalista Astrojildo Pereira, em março de 1922, em Niteroi.
 
Segundo José Luiz Del Roio, Prestes, desde sua aceitação no Partidão, em 1934, foi um líder admirado e seguido, seu prestígio “espraiou-se além das fronteiras, tornando-se conhecido em plagas distantes. Sua longa vida foi pontilhada por decisões complexas e mesmo dolorosas. Seguramente cometeu erros de análises e de ação, porém jamais traiu, nem por um minuto, os ideais que abraçou nos anos 1930”.
 
Na Apresentação, a autora a inicia com uma advertência: “Caluniado ou silenciado pelos donos do poder enquanto viveu, após seu falecimento Prestes teve sua história falsificada por quem pretende legitimar interesses políticos que ele sempre combateu.” E diz que a obra de Jorge Amado intitulada Vida de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, escrita em 1942, retrata menos da metade da sua trajetória, sendo biografia romanceada do notável escritor, “elaborada sem recursos documentais significativos e sem utilização dos métodos peculiares ao ofício do historiador”. Embora, ressalte ela, o livro tenha cumprido “importante papel durante a campanha pela anistia dos presos políticos no final do Estado Novo”.
 
Destaca Anita Leocádia importantes períodos da vida do Cavaleiro da Esperança: a. a influência decisiva da sua mãe Leocádia Prestes na formação do seu caráter, “a cultivar um interesse constante pelos acontecimentos políticos no Brasil e no mundo”; b. sua participação no movimento tenentista, na Coluna Invicta que levou posteriormente seu nome, tornando-se “um militar patriota indignado com os desmandos dos poderosos”; c. os anos de exílio na Argentina, quando teve a oportunidade de estudar marxismo, aproximando-se do movimento comunista internacional; d. sua aceitação, em 1934 e com relutância, nas fileiras do PCB, tornando-se logo após uma liderança inconteste, dotado de imenso carisma político nos meios populares; e. sua coerência como militante explicitada durante seis décadas, desde o seu Manifesto de maio de 1930 até sua eternização em 1990; e f. tornado o principal intelectual orgânico revolucionário do século XX no Brasil, adotado o conceito de intelectual orgânico proposto pelo filósofo e dirigente comunista italiano Antônio Gramsci.          
 
Ainda em sua Apresentação, Leocádia ressalta que “esta não é nem pretende ser a biografia definitiva de Luiz Carlos Prestes, porque na história e na historiografia não existe nada definitivo. ... Como toda biografia, esta é um recorte da vida do biografado, um recorte que coloca em foco sua trajetória política, como patriota, revolucionário e comunista”. E mais: “Como historiadora, é para mim motivo de grande satisfação recordar que a ilustre professora Maria Yedda Leite Linhares, ao prefaciar meu livro A Coluna Prestes, escreveu: ‘Como filha, colocava-se a doutoranda na situação privilegiada de dispor da mais autorizada – e cobiçada – fonte de informações para o trabalho que construía e, ao mesmo tempo, como historiadora era-lhe imprescindível despojar-se, na medida do possível, da carga emocional inerente ao seu tema. Os examinadores da tese foram unânimes em ressaltar a objetividade da autora e a sua preocupação com a seriedade do trabalho científico”.
 
Luiz Carlos Prestes graduou-se como Engenheiro Militar em janeiro de 1920, na Escola Militar, tendo sido orador da turma, dissertando então sobre o desenvolvimento da siderurgia nacional.
 
A reflexão do lusitano Manuel Alegre de Melo Duarte, militante socialista e fundador do CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, inserida no livro, parece cair como uma luva naqueles que desejam a erradicação das associações espúrias entre empresários meliantes e corruptos parlamentares numa quadratura brasileira tão vexatória no cenário internacional: “Mesmo na noite mais triste, / em tempo de servidão, / há sempre alguém que resiste, / há sempre alguém que diz não.”   
 
Fernando Antônio Gonçalves
Recife, dezembro 2015
 

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