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BIBLIOTECAS SEMENTEIRAS
 Já com bons quilômetros de caminhada universitária nunca nostálgica, sempre preocupado com uma educação que deveria estar situada além das meras estratégias LEC – Ler, Escreve e Conta -, inquieta-me a ínfima quantidade de bibliotecas públicas em nosso país, a grande maioria delas desassistidas de bibliotecários qualificados. Bibliotecas e bibliotecários que seguramente supririam as nítidas deficiências culturais de todos os níveis de ensino.
A minha convicção acerca da urgente necessidade da implantação de bibliotecas multiculturais ampliou-se quando da leitura de um texto publicado pela Unesp/Fapesp, contendo partes substantivas de uma longa entrevista concedida por Maurício Tragtenberg à pesquisadora e socióloga Carmem Lúcia Evangelista Lopes, do Centro de Memória Sindical de São Paulo.
 Para quem ainda não ouviu falar de Tragtenberg, intelectual vinculado às lutas sindicais brasileiras e professor de nomeada, o testemunho de Antônio Cândido é mais que esclarecedor: “Ele não trepidava em remar contra a maré do conformismo, denunciando os disfarces da verdade. Ele foi um intelectual exemplar pelo saber, a energia mental, o ânimo combativo e o sentimento da liberdade com que enfeixou essas qualidades na sua trajetória”. Ele eternizou-se em 1998, aos 69 anos, deixando um rastro de admiração incomum.
 O que tem a ver Tragtenberg com bibliotecas públicas? Muito fácil de explicar. Gaúcho judeu de Erexim, com a família migrou para São Paulo. E meninote ainda, pobre porque não tinha vocação para comerciar, ele resolveu devorar os livros da Hebraica, posteriormente passando de oito a dez horas diárias na Biblioteca Municipal de São Paulo, onde leu de Aristóteles a Spengler, de Dostoiévski a Fernando Pessoa. Na entrevista concedida, ele classificou a Biblioteca Municipal de São Paulo de uma outra universidade sua, posto que foi lá, através de leituras múltiplas não sistematizadas, que adquiriu um cabedal cultural capaz de projetá-lo no cenário brasileiro. Tal e qual o Florestan Fernandes, que trabalhava de garçon, fazia Supletivo e também freqüentava a Biblioteca, juntamente com a Ruth Escobar, à época editora de um jornal salazarista.
 Gostaria de testemunhar Pernambuco bem dotado de bibliotecas municipais, capazes de despertar entusiasmos, sedimentando percursos profissionalizantes cidadanizadores. Não acredito em pedra e cal e macadame sem alimentações neuroniais adquiridas numa prática de leitura inspiradora de novos amanhãs. E também não ponho fé em biblioteca-faz-de-conta, aquela que tem placa, alguns almanaques pífios em estantes pebas, uma mente entupida fazendo as vezes de tomadora de conta do espaço, sem qualquer manutenção apropriada, nem tomada para audiovisual e internet.
 A leitura agiganta sentimentos e ideais, multiplica saberes e sonhos, alicerça futuros sociais mais dignos, consolida amizades e erradica abestalhamentos dos mais diferenciados calibres, inclusive religiosos.
 Terá minha integral simpatia um Ministro da Educação não messiânico, tampouco choramingueiro, que contamine a sociedade civil brasileira, inclusive as Universidades Federais, com acervos atualizados, administrados por  profissionais qualificados, capazes de proporcionar cultura e aprimoramento técnico através de eventos e promoções contínuas, novas aquisições sempre presentes nas dotações orçamentárias.
 Bibliotecas inteligentemente localizadas seriam a mais adequada vacina contra analfabetismos funcionais, desfavorecendo as especializações em micro-mundinhos.
 Se o que acalento é apenas sonho, eu me permito sonhar sem medo algum, apesar dos blá-blá-blás coitadísticos da área educacional, sem verbas, só com verbos e sem criatividade alguma.
 

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