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BESTIALIDADE E IMPUNIDADE
De repente, a imprensa nacional escancara: jovens animalizados paulistas de classe alta espancam brutalmente transeunte indefeso, proclamando depois, cinicamente, que se tratava de apenas uma simples brincadeirinha; policiais sem escrúpulos ordenam troca de beijos na boca entre detentos de mesmo sexo, os torturadores sendo os primeiros a exibirem seus atos, fotografando-se entre si para divulgação e futuras novas iniciativas; outros policiais enterram seus coturnos na cabeça de assaltantes, imaginando estupidamente ser a tortura do agrado de seus superiores hierárquicos; debéis mentais universitários da Universidade de Brasília, sem qualquer criatividade e compostura acadêmica, efetivam trotes grotescamente bizarros, freudianamente explicáveis, sobre vestibulandas 2011. E os noticiários estão repletos de outras barbaridades acontecidas nos quatro recantos de um país onde a impunidade, inclusive a de parlamentares, religiosos, torcedores, autoridades judiciárias e executivos engravatados metidos a empreendedores, todos merecedores de punições exemplares, parece se transformar num  direito natural das classes privilegiadas, às grades somente sendo encaminhados os desassistidos de sempre: negros, pobres, prostitutas, os que não têm sobrenome nem conta bancária, os degradados de sempre.

Desde já, para princípio de conversa, explicito a minha radical ojeriza para com os puritanos e os moralistas de todos os naipes sociais, categorias profissionais e segmentos religiosos, que se declaram hipocritamente incapazes de cometer qualquer delito, imaginando-se libertos de todos os procedimentos desajustados. Para tais personalidades patológicas, recomendo a leitura de A Parte Obscura de Nós Mesmos – Uma História dos Perversos, Zahar 2008, da historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, Universidade de Paris VII, uma intelectual de renome internacional, com vasta obra publicada em mais de 30 idiomas. Um estudo que aponta como perversões os emporcalhamentos, a autodestruição, a flagelação e o ascetismo praticados pelos místicos, que se metamorfoseavam de vítimas para receberem as benesses da Eternidade. Como Liduína de Schiedam, final do século XIV, que impôs ao seu corpo, durante 38 anos, terríveis sofrimentos, horrorizada com a perspectivas de um ato sexual via casamento.

O livro de Roudinesco desenvolve-se a partir de uma questão única - Onde começa a perversão e quem são os perversos? -, quando ela efetiva uma análise crítica das teorias e das práticas elaboradas de tempos passados até a contemporaneidade. E desenvolve suas reflexões através de quatro blocos: a época medieval, com Gilles de Rais; os santos místicos e os flagelantes; o século XVIII, em torno da vida e da obra do marquês de Sade; o século XIX, o da medicina mental, com suas descrições das perversões sexuais; e o século XX, onde a animalidade se opera da maneira a mais abjeta que se possa imaginar nas próprias confissões do carrasco nazista Rudolf Hess, merecidamente enforcado em 16 de abril de 1947 em frente à entrada do crematório de Auschwitz.

Diz a autora: “embora vivamos num mundo em que a ciência ocupou o lugar da autoridade divina, a perversão é sempre, queiramos ou não, sínônimo de perversidade. E, sejam quais forem os seus aspectos, ela aponta sempre para uma espécie de negativo da liberdade: aniquilamento, desumanização, ódio, destruição, domínio, crueldade e gozo”. E conclui: “A perversão é um fenômeno sexual, político, social, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas”.

No momento histórico em que vivemos uma globalização irreversível e crescente, onde os ditadores estão sendo desalojados do poder, por bem ou por mal, e os Estados Unidos tentam reformular sua política externa de proteção aos dirigentes absolutos que lhes abarrotam de obsequiosidades, uma nova utopia se estrutura para tentar erradicar as perversões ainda identificadas. E sendo apenas uma utopia, gera uma outra indagação: será que somente a Educação favorecerá a extinção das atuais perversões existentes?

A conclusão que repasso aos leitores é a de que somente a Educação não eliminará as perversões contemporâneas. A redução delas, nunca a sua total erradicação, deverá vir atrelada também a outras iniciativas: ágil punibilidade do Poder Judiciário, ampliação da Cidadania Comunitária através de uma observância mais objetiva da sociedade civil e a redução do consumismo induzido pelas mídias eletrônicas e impressas atuais, onde o feio, o gordo, o baixo, o deficiente, o negro e o pobre ocupam lugares secundários nos cenários sociais que hoje reverenciam bundas, peitos, pintos e outras “qualidades artísticas”, em detrimento da inteligência, da criatividade e do saber fazer, gerando fortes influências nas classes emergentes, aquelas mais facilmente seguidoras das mídias hipnotizantes, que se imaginam ingenuamente integradas à pós-modernidade.

Especialistas abalizados estão concluindo que a atual sociedade planetária se encontra prestes a se converter numa sociedade perversa. Onde “a midia audiovisual tornou-se, com o consentimento de todos os protagonistas da grande cena pós-moderna da exibição de si, o instrumento proeminente de uma ideologia tão pornográfica quanto puritana”.

A discussão se está aprofundando, envolvendo passarinhos e urubus, a quase totalidade ainda desatenta ao crescimento dos fundamentalismos religiosos que possuem, como “impulsos evagelizadores”, princípios sectários de executibilidade conhecidos de longa data.     

(Publicada em 10.02.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves é professor universitário e pesquisador social

 

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