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AVENTURA DE MOCIDADE
 Três frases de um pronunciamento feito por Juan Perón, em maio de 1943, fornecem o pano de fundo de um livro do embaixador Sérgio Corrêa da Costa (1919-2005), também integrante da cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a escritora Dinah Silveira de Queiroz. Um trabalho por ele classificado como “uma aventura de mocidade” no reino de Perón e Evita Duarte. Repito-as: “Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso”; “Jamais um civil compreenderá a grandeza de nosso ideal; cumpre, pois, eliminá-los do poder e dar-lhes a única missão que lhes compete: o trabalho e a obediência”; “A luta de Hitler na paz e na Guerra nos servirá de guia”. Frases emitidas num ano onde Adolf Hitler faria um pronunciamento altamente correlacionado: “Criaremos no Brasil uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo que necessitamos.”
 
A aventura  de Corrêa da Costa consistiu “em penetrar nos recintos mais vigiados do Archivo General de la Nación e fotografar documentos ultrassecretos, altamente comprometedores do governo argentino”. Intitulado Crônica de uma Guerra Secreta, Record, 2004, e já esgotado nas livrarias, somente encontrado em “sebos” bem qualificados, o livro descreve a trajetória de Corrêa da Costa como diplomata, 1944-46, no reino de Perón de Evita Duarte, comprovando as ligações próximas da Argentina nas tramas nazifascistas do III Reich, tudo posteriormente ratificado com a chegada a Buenos Aires de inúmeros refugiados criminosos de guerra, que circulavam sem constrangimento algum pelas áreas da capital portenhas.
 
O livro do embaixador Corrêa da Costa se explicita em dois grandes blocos. No primeiro, À Sombra de Adolf Hitler, em oito capítulos, o autor ressalta os grandes mestres da espionagem e as posturas dos militares brasileiros, o peso dos ressentimentos entre nazistas e integralistas, e as bênçãos vaticanas. Na parte segunda, em 12 capítulos, revelam os estudos sobre o desmembramento do Brasil, o fenômeno Perón, a conexão argentina, a política atômica do ditador argentino, o balanço moral e as aberrações do pós-guerra, concluída com o famoso mistério dos dois submarinos chegados a Mar del Plata, em julho de 1945, cujos comandantes, Otto Vermonth e Heinz Schaeffer, foram recebidos como heróis.
 
No livro há fatos pitorescos, inclusive envolvendo a capital pernambucana. Cita o Corrêa da Costa que, em maio de 1941, cinco meses antes da descoberta de um mapa alemão redesenhando a América do Sul, o serviço secreto inglês conseguiu abortar um golpe de Estado nazista na Bolívia. Em maio, 18, o serviço secreto teve ciência de que os planos estariam sendo enviados à Bolívia em avião da LTI, cuja primeira escala seria Recife, numa carta do major Belmonte. E a ordem veio sucinta e clara: “os documentos deveriam ser purloined (roubados) de qualquer maneira durante a escala feita na capital pernambucana”, embora três voos da linha italiana tivessem tocado no Recife sem mala diplomática.
 
No dia 18 de junho, um sujeito chamado Fritz Fenthol partiria do Rio de Janeiro para Buenos Aires, com destino à Bolívia, com um envelope endereçado à embaixada alemã. Chegado em Buenos Aires, Fenthol procurou o edifício do Banco Alemão, onde no sexta andar funcionava a embaixada alemã. Como o elevador estava repleto, antes do sexta andar, Fenthol “perdeu” o envelope. O envelope continha em detalhes um putsch programado para o mês de julho. Os resultados: o ministro alemão declarado persona non grata; residentes alemães foram detidos; uma grande estação de rádio descoberta; quatro jornais pró-eixo suspensos; a carta publicada nos principais jornais e o major Belmonte expulso do exército. Explicação óbvia: a instabilidade política fazia da Bolívia um país vulnerável. Durante os primeiros setenta e cinco anos de vida independente, sessenta revoluções e seis presidentes assassinados.
 
No capítulo 3, Incursão na Guerra Secreta – tem destaque o jornalista americano John L. Spivak, um dos pioneiros do hoje conhecido “jornalismo investigativo”. Suas reportagens, amplamente fundamentadas com  documentos originais, nomes, datas e depoimentos pessoais, foram publicadas em livro – Secret armies – the new technique of Nazi warfare - , sete meses antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, em fevereiro de 1939. Nele estranha o fato de um dos homens mais ricos e poderosos dos Estados Unidos, Henry Ford, valer-se da sua fortuna para disseminar ódio racial, difundindo Os Protocolos dos Sábios de Sion, um texto sabidamente forjado. E questiona também as razões de ter Henry Ford, em 1938, recebido a maior medalha que o Reich poderia conferir a um estrangeiro. Nunca ficando claras as razões do merecimento da honraria pelo seu admirador Adolf Hitler.
 
A pesquisa do embaixador Corrêa da Costa traz ainda um capítulo, o 18, intitulado O fenômeno Eva Perón, onde é sintetizada a vida de  Maria Eva Duarte, indo para a vida aos 16 anos, onde ganhava três pesos por noite, fazendo ponta em pequenos filmes, o ano de 1937 sendo de “falta de trabalho, estômago vazio  e buracos no sapato”. Já em 1945, como amante oficial de Perón, entrevistada por uma revista declarou possuir um imóvel, no bairro mais aristocrático da cidade. Descobriu-se depois ter sido um presente do  bilionário alemão Ludwig Freude, que Perón havia encontrado na Itália.    
 
A grande lição do livro, entretanto, é de autoria do próprio embaixador Sérgio Corrêa da Costa: “A mais importante é a de que não se pode brincar com a democracia. Nela se encontra a vocação legítima do Brasil. Depois da derrapagem do Estado Novo, do flerte de Getúlio Vargas com o nazismo, de suas conversas secretas com o embaixador alemão, às escondidas do seu próprio ministro do Exterior – hoje conhecidas em detalhe -, o presidente pressentiu o perigo e recuou em tempo, evitando mal maior. Não há segredo para a história”. 
 
Uma leitura indispensável para quem busca conhecer melhor os ontens latino-americanos, interpretando sem emocionalismos fuxicosos as manhas e artimanhas dos poderosos. Tampouco desejando colocar nos ontens as incompetências governamentais cometidas nas conjunturas atuais.
 
(Publicado em 16.02.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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