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ASSUNTOS DA SEGUNDA GUERRA
1. UM ASSASSINO COVARDE
Um oportuno livro-reportagem, relatando o acontecido nos dias 15 e 17 de agosto de 1942 nas costas nordestinas, quando o submarino alemão U-507 torpedeou covardemente cinco dos nossos navios mercantes – Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará – ensejando a entrada do Brasil na guerra, atendendo anseios da população que saiu às ruas em protestos furiosos.
 
Intitulado U-507: o submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, Marcelo Monteiro, Salto-SP, 2012, 344 p., o texto relata o drama de mais de 600 brasileiros, vitimados por um plano terrível dos nazistas do III Reich, executado nas costas de Sergipe e Bahia, que tentava amedrontar o Brasil por este se encontrar numa postura aparentemente neutra, embora colaborando com o esforço de guerra norte-americano.
 
O submarino assassino assim foi descrito por Monteiro: “Fabricado em 1940, o submarino tem 1.120 toneladas de deslocamento na superfície, com 76,76 metros de comprimento. Movido por uma combinação de motores diesel e elétrico, quando submerso só pode usar a propulsão elétrica, que, ao contrário dos motores a combustível, não precisa de ar. Em contrapartida, a navegação submersa se dá a uma velocidade bastante inferior, a apenas 4 nós, cerca de 7,5 quilômetros por hora, enquanto, na superfície, a diesel, o U-507 pode alcançar 10 nós, ou 18,5 quilômetros por hora. Contudo, o principal está nas duas pontas da embarcação: na proa e na popa, duas salas podem carregar, juntas, até 22 torpedos, cada um deles capaz de afundar um navio de grande porte.”     
 
 Nos meses que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial, o então ditador brasileiro Getúlio Vargas buscou aparentar uma neutralidade diante do conflito. Assim, em 2 de setembro de 1939, tornou público o Decreto-Lei 1.561, onde seu artigo primeiro assim explicitava: “O governo do Brasil abster-se-á de qualquer ato que, direta ou indiretamente, facilite, auxilie ou hostilize a ação dos beligerantes. Não permitirá também que os nacionais ou residentes no País pratiquem alto algum que possa ser considerado incompatível com os deveres de neutralidade do Brasil.” Paralelamente, no entanto, o Brasil iniciou o reaparelhamento das suas Forças Armadas, sempre com apoio dos Estados Unidos.
 
Ainda em 1941, antes mesmo do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro, as relações entre Brasil e Alemanha se encontravam estremecidas, bem antes da criação do Ministério da Aeronáutica brasileiro, onde aeronaves são fornecidas pelos Estados Unidos, também auxiliando o governo norte-americano na construção de campos de aviação. Ressalte-se que a capacitação dos pilotos brasileiros foi patrocinada pelos EEUU.          
A partir de 1941, alguns fato ampliaram a fúria do III Reich em relação ao Brasil. Em janeiro, quando da efetivação da Conferência de Chanceleres Americanos que redundou no rompimento de relações  com os países do Eixo, uma varredura feita pela polícia brasileira, em conjunto com o FBI, capturou 36 agentes alemães italianos e japoneses em atuação no território brasileiro, inclusive Franz Wasa Jordan, agente especial alemão, de insuspeitada periculosidade, que tinha a missão de assassinar o chanceler Oswaldo Aranha.
Através de rádio recebido de Karl Dönitz, comandante as operações alemães no Atlântico, autorizou o comandante do U-505, Harro Schacht a utilizar “manobras livres” ao longo da costa brasileira, não mais havendo restrições a ataques aos nossos navios, tanto em alto mar quanto em regiões costeiras. Segundo conceitos divulgados à época, Schacht era “destemido, dedicado e impiedoso em ação, o típico oficial disposto a qualquer coisa pelo III Reich”.
 
2. O INFERNO DA GUERRA 1939-1945
Quem desejar conhecer sobre o sofrimento e morte de milhões no período 1939-1945, onde 27 mil pessoas morreram diariamente entre setembro de 1939 e agosto de 1945, a leitura de um livro considerado pelo Washington Post como “a melhor obra sobre a guerra escrita em apenas um volume ... feito monumental sobre todos os aspectos”, é mais que suficiente. Intitulado Inferno – o Mundo em Guerra 1939-1945, de Max Hastings, RJ, Intrínseca, 2012, 764p., seu autor sendo considerado um dos maiores historiadores militares do mundo, o livro traça um vasto painel da Segunda Guerra Mundial em todas as suas frentes, iniciando com a agonia da Polônia, invadida covardemente pelos nazistas, em setembro de 1939, enfocando comoventes testemunhos de pessoas comuns, documentados em cartas, diários, memórias e depoimentos.
 
No livro, o autor esclarece alguns assuntos relevantes. Alguns deles: “A concepção ocidental moderna de que a guerra foi travada por causa dos judeus é tão generalizada que se deve enfatizar que não foi esse o caso. Embora Hitler e seus seguidores preferissem atribuir aos judeus a culpa pelos problemas da Europa e pelas injustiças sofridas pelo Terceiro Reich, a luta da Alemanha contra os Aliados era sobre e dominação hemisférica”; “A limitada atenção dada pelos Aliados às dificuldades dos judeus durante a guerra foi uma fonte de frustração e de revolta para outros judeus bem informados e é motivo de grande indignação desde então”; “Quase todos os participantes da guerra sofreram em algum grau: a escala variada e a natureza diversa de suas experiências são temas do livro, mas o fato de as aflições de outras pessoas serem piores pouco faziam para promover a estoicismo pessoal”.
 
Os testemunhos prestados, documentados em cartas, diários e memórias, muito contribuíram para o autor ir além de uma mera narrativa dos eventos trágicos acontecidos entre 1939-1945., onde o esforço de guerra alemão foi conduzido com assombrosa incompetência, enquanto o exército de Hitler lutava com eficácia estupenda. Realça ainda a morte de mais de um milhão de indianos, em 1943, devido à negligência do governo britânico. Análises feitas sem contemporizações nem inconsequências.
 
Uma leitura sem apologias que amplia o horror pela guerra e suas tenebrosas sequelas, embora ressalte que nem sempre Churchill e Roosevelt eram a voz da razão.  Que um deles acreditava, sem muita convicção, que “os conflitos do futuro serão bastante diferentes, e talvez eu não esteja sendo precipitadamente otimista ao sugerir que serão menos terríveis”. No que acredito que serão “diferentes”, embora nem um pouco menos terríveis. 
 
(Publicada em 12.12.2016, no site do Jornal A Besta Fubana e no www.fernandogoncalves.pro.br) 
Fernando Antônio Gonçalves
 

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