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AS EVAS DE UM MONSTRO
Sempre tive uma grande curiosidade em conhecer melhor Eva Braun, a companheira de Adof Hitler, ditador nazista responsável pelos Eventos Negros, denominação genérica que abarca as atrocidades cometidas sob o seu comando – os experimentos com eutanásia e o seu desenvolvimento como técnica de controle racial; as políticas de eliminação de ciganos, homossexuais, bocheviques, considerados física e mentalmente inaptos de viver numa Utopia Ariana; e, sobretudo, o assassinato de 6 milhões de judeus, cuja raça e religião, abominadas por Hitler e que ele e seus sádicos capatazes pretendiam eliminar da face terrestre.
 
A denominação Eventos Negros tem a explicação dada pela pesquisadora Gitta Sereny, autora de Albert Speer: sua luta com a verdade, RJ, Bertrand Brasil, 2001: “O extermínio dos judeus é ainda hoje a única coisa de que as pessoas se lembram. Claro que o genocídio de Hitler, sua fábrica de matar nos campos da Polônia, foi a pior que perpetrou. As ele fez uma porção de outras coisas. Ele assassinou 3 milhões de católicos poloneses, assassinou milhões de russos, cristãos ou ateus, não apenas judeus.”
 
Três livros foram lidos, ao longo do último ano: A História Perdida de Evan Braun, de Angela Lambert, SP, Globo, 2007; Eva Braun, a vida com Hitler, SP, Companhia das Letras, 2011; e Todas as mulheres de Hitler, SP, Lafonte, 2012. E algumas dúvidas sedimentaram-se ao longo dos dias: quantas mulheres foram apaixonadas pelo Führer? Seria mesmo verdade que ele tinha um pavor excessivo de intimidade com mulheres, durante a juventude? Sua halitose famosa seria a responsável por tal comportamento? Por que mulheres famosas, mais velhas, casadas e viúvas, presenteavam Hitler com grandes somas de dinheiro? 
 
Entretanto, dos livros citados acima, o primeiro deles retrata com maior fidedignidade a trajetória de uma mulher, Eva Braun, que permaneceu atrás da carreira política do ditador, desde os tumultos de Munique até a derrocada sangrenta final no bunker, onde quase todos portavam cápsulas de veneno, testada sua eficácia, por ordem de Hitler, na cadela Blondi, pastor alemão. Uma morte assistida pelo próprio Fürher. Em razão da autora ter proximidades com Eva Braun, uma nascida a 6 de fevereiro de 1912, uma semana antes da sua mãe, Edith Schröder, ambas de oriundas de classe média, o livro traz detalhes significativos. Um deles, o de comprovar que Eva Braun amou Hitler de modo sincero e leal. 
 
Há uma carta do pai de Eva para Hitler, encarecendo o retorno de Eva ao lar, apesar de ele já ter mais de 21 anos. A carta, na íntegra, está reproduzida no livro da Angela Lambert. Eis um pequeno trecho: ... “Naturalmente, sempre censurei Eva com severidade quando chegava em casa muito após o horário normal de fechamento do escritório. Acredito que uma jovem após trabalhar intensamente por oito horas diárias, necessite relaxar à noite em meio ao círculo familiar, a fim de manter saúde. ... Por favor, aconselhe-a a regressar ao seio familiar”. A caminhada da carta não é a tradicional. Ela foi entregue pelo pai da Eva ao fotógrafo Heinrich Hoffman, dono de um estúdio fotográfico onde Eva trabalhava, para ser entregue ao ditador. O fotógrafo, amigo e babão de Hitler, dele fotógrafo oficial, já tendo tirado mais de 2,5 milhões de fotografias, entregou a carta a Eva, que a rasgou em mil pedacinhos.
 
Em setembro de 1936, um jornal sensacionalista francês, o Paris Soir, publicou uma matéria sob título “As Mulheres de Hitler”. Depois de listar algumas delas, a reportagem concluía: “Bem, agora a favorita é sem dúvida Eva Braun, filha de um professor de Munique”. Mas a edição foi toda adquirida pelas autoridades, continuando Eva como “amante invisível”, qualificação que a deixava bastante deprimida. 
 
A história de Eva Braun é narrada pela Angela Lambert de um modo bastante esclarecedor. Eva era uma mulher doentemente vaidosa, que adorava ser fotografada, que mudava de roupa várias vezes ao dia, para matar o tempo e dar asas às suas fantasias. A partir de instruções dadas por Hitler a Martin Bormann, suas gastanças se ampliaram enormemente, sendo exemplo famoso seu banheiro de estrela de cinema, com porcelanas do último tipo. Os aposentos de Hitler, entretanto, colados ao de Eva no Berghof, era simples, até espartano, escrupulosamente organizados, segundo testemunho da criada Anna Plaim. 
 
Uma advertência final Angela Lambert faz: “Retratar Hitler como homem capaz de brincadeiras, sentimentalismo ou paixão sexual – ou sua ausência – pode revelar seu lado humano, mas não o torna menos monstruoso”. Alguns chegam a proclamar que Hitler tinha uma personalidade dual. Havia “o Hitler gritalhão, espumoso que aterrorizava as pessoas com seus berros e explosões de fúria, e o Hitler respeitoso, cortês e atencioso, sempre perguntando pela saúde dos seus auxiliares e parentes.
 
Um livro bem escrito, o da Angela Lambert. Inclusive trazendo A História da Família de Eva Braun em um anexo, escrito por Alois Winbauer, e o Diário de Eva Braun (6/2/28 a 28/3/35) em outro.
 
(Publicado em 20.04.2015, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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