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ANJOS E DEMÔNIOS
 Assisti o filme e muito o apreciei. Enredo de final surpreendente, com apelo para um diálogo mais fecundante entre Religião e Ciência, numa ação convergente pela emersão de uma nova humanidade de muita luz e intensa solidariedade, sem menosprezo de um desenvolvimento científico e tecnológico favorável a todos os povos e nações.
 Quando Dom Hélder Câmara proclamou  que a Igreja será santa e pecadora, ele queria ressaltar a fragilidade humana, com suas ambições e despautérios, inúmeros, por vaidade e cobiça, buscando sobressair-se aos verdadeiramente ajustados à Mensagem do Homão da Galiléia, nosso Irmão Libertador. O Dom não desconhecia o lado negro do Cristianismo, onde incontáveis candidatos a Bispo de Roma se estribaram em táticas muito distanciadas dos mais elementares princípios éticos. Para se ter uma idéia, basta citar o que aconteceu entre 873 e 1003: 33 papas e quatro anti-papas, dez dos quais foram barbaramente assassinados, muitos deles sendo presos e exilados. Um tempo denominado pelos historiadores de “período da pornocracia”.
 Temos que reconhecer que o Cristianismo de todos os tempos, com suas múltiplas denominações e tendências, congregou anjos e demônios, do clero e do laicato. Em todas as regiões do planeta.
 A perplexidade até hoje se estampa nos escritos dos analistas contemporâneos. Como foi possível que o Império que crucificara o Nazareno tenha decidido que o Cristianismo seria a religião do Estado apenas trezentos anos depois do Gólgota? Um império onde mulheres eram consideradas animais de propriedade dos pais e maridos, portadores de direito pleno de nelas bater e matá-las. Um império onde o mesmo imperador mandou assassinar o próprio filho, a mulher, o sogro e o cunhado. E que perseguiu inúmeros seguidores da Boa Nova que apenas buscavam cumprir o Evangelho em sua plenitude. Naquela época de Constantino, muitos foram mortos, outros exilados sem direito a qualquer bem, outros reduzidos à condição de meros escravos.
 Mais recentemente, século XIX, os ingleses se especializaram  no tráfico de drogas, comercializando gigantescas quantidades de ópio à China, cujo imperador de então tinha proibido as negociações, consideradas ilícitas. Em três ocasiões, 1848, 1856 e 1858, os ingleses bombardearam portos chineses para impor a liberdade de comerciar produtos alucinógenos. A História classifica tais agressões como Guerras do Ópio.
 Nos tempos de século XX, não se pode pôr de lado a influência do Cristianismo no desenvolvimento do nazismo, do fascismo, do extermínio de judeus, na Guerra Espanhola, algumas autoridades até abençoando torturadores e esquadrões da morte no Brasil, no Peru, na Bolívia, na Argentina e na Indonésia.
 O filme também não se esquivou de encarecer sutilmente a restauração da dignidade de Galileu Galilei, um cientista cuja inteligência sobrepairava muitos acima das intrigas, fuxicos e conspirações do seu tempo.
 Certamente não foram “anjos” que transformaram a Santa Sé numa potência financeira, administradora de fortunas incalculáveis”. Atualmente, a cidade do Vaticano tem três instituições financeiras: a APSA, que funciona como um banco central, o Ministério da Economia e o IOR, sigla muito conhecida do Instituto de Obras Religiosas, também apelidado de “o banco do Papa”.
 Por uma deferência especial, o filme Anjos e Demônios não toca, nem de leve, nos escândalos da pedofilia, uma perversão sexual eclesiástica que remonta, ao que tudo indica, aos primeiros tempos do século XVII, quando o padre Joseph Calasanz, fundador da Ordem dos Piaristas, proibiu que os abusos sexuais praticados por seus sacerdotes contra crianças se tornassem do conhecimento público.
 A época está a exigir esclarecimentos, perdões e arrependimentos. Principalmente dos maiorais das nossas inúmeras denominações cristãs. Para que, enaltecido o trigo e devidamente segregado o joio, possamos ver um Cristianismo mais fortalecido entre todos aqueles que, nunca sendo ovelhas, desejam continuar bons cabritos cristãos.
 

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