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ANÁLISE ESCLARECEDORA
Com não raridade, emociono-me com fatos históricos analisados por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da Universidade de São Paulo. Sua coleção Histórias da Intolerância  trata de um só tema, “que vai desde os estudos e pesquisas sobre a história colonial do Brasil, especificamente inquisição e marranismo, até a história contemporânea, que registra o preconceito contra os imigrantes japoneses e chineses radicados no Brasil, o antissemitismo como política do Estado, a proliferação dos mitos políticos e o nazismo como paradigma.” Suas  publicações são dissertações e teses defendidas nos Programas de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, recebendo as orientações devidas, entre outras, das notáveis pesquisadoras Anita Waingort Novinsky, Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro. Estudos e análises só possíveis após a abertura dos arquivos inquisitoriais, policiais e diplomáticos, que se encontravam ocultados por omissão, covardia ou conveniência, abjetas práticas repressivas e totalitárias. Um modo de conhecer melhor o Brasil, conforme Paulo Prado, dinamizada a partir dos anos 60, quando a direção dos Institutos dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Portugal, iniciou a catalogação sistemática  dos seus acervos, abrindo-os aos pesquisadores especializados, “revelando a existência de sociedades secretas onde circulava uma contracultura que questionava os valores e verdades eternas do catolicismo.”

 

Na apresentação da coleção acima citada encontra-se uma explicação basilar: “o elemento central atingido pelo regime totalitário português foi o judeu, que, mascarado de cristão-novo durante quase três séculos, tornou-se alvo  de um programa destrutivo e de um ódio sem precedentes na história. Os judeus foram o único povo para o qual foi criado um tribunal específico, com a finalidade de vigiar e punir qualquer prática e memória do judaísmo. Esse ódio estendeu-se ao Brasil e foi movido e instigado pelos representantes do governo português e da Inquisição; mas não teve a colaboração de uma significativa parcela da população ... Os trabalhos  publicados na coleção Histórias da Intolerância demonstram que o antijudaísmo em Portugal moderno antecedeu em modernidade o nacional-socialismo alemão por apresentar as características mais globais do antissemitismo: foi econômico, racial, político e religioso ... Concentrados em uma temática única, esses estudos demonstram que o racismo  e o fanatismo têm muito em comum: não escolhem raça, religião nem a nacionalidade. Cristalizam-se em momentos de crise, de uma sociedade em transformação que exige reformulação radical de valores”.   

Um dos trabalhos mais tocantes por mim lido foi o do professor Luiz Nazario, Mestre e PhD em História Social pela FFLCH da USP, também com estudos efetuados na Alemanha e em Israel. Seu livro Autos-de-fé como espetáculos de massa, SP, Fapesp, 2005, 210 p., foi prefaciado pela professora Novinsky, sua orientadora. Sua dissertação de mestrado, “apresenta um quadro sobre o funcionamento da Inquisição e os vários ‘tipos’ de autos-de-fé , misto de terror e indignação, que levou o próprio inquisidor a chamá-lo ‘horrendo e tremendo espetáculo’”.

A orelha do livro explicita sem contemporizações espúrias: “O autor observa que, com métodos infalíveis de investigação da alma (espionagem, delação, censura, acusações secretas, prisões preventivas, interrogatórios capciosos e sessões de tortura), a Inquisição afirmou-se como uma instância privilegiada de inspiração divina para apanhar suspeitos, arrancar confissões, julgar e condenar ‘judaizantes’”.  

Segundo Nazario, houve quatro Inquisições, embora tenha sido o antijudaísmo europeu, em diversos momentos históricos, o principal motor para o estabelecimento de todas elas, aqui também se incluindo nas perseguições outras ‘minorias” (dissidentes religiosos e políticos, desajustados sociais, homossexuais, estrangeiros, mouros, índios e, sobretudo, judeus).

 

Com a oficialização da religião cristã por Constantino, em 324, apareceram as primeiras legislações contra aqueles que não aceitavam a doutrina em sua totalidade. Em 394, o imperador Teodósio ordenou a morte dos não-cristãos, com o confiscos dos seus bens. A perseguição foi crescendo e no Concílio de Latrão, 1215, o papa Inocêncio III decretou que “os judeus não poderiam mais ocupar cargos públicos, coabitar com os cristãos ou mostrar-se nas ruas em dias santos, restringindo-se às ruas e bairros judaicos”.

O antijudaísmo disseminou-se através dos meios de comunicação de massa monopolizados pela Igreja. Só as pregações de Santo Antônio de Lisboa, conhecido no século XIII como “Martelo das Heresias”, aconteciam em ambientes apinhados de mais de 30 mil pessoas. Até São Tomás de Aquino, que não incluiu os judeus entre os hereges, recomendava que eles fossem mantidos em estado de servidão perpétua e que os príncipes confiscassem seus bens, deixando-os apenas com o necessário.

O primeiro auto-de-fé português aconteceu em 26 de setembro de 1540, em Lisboa, muito embora o mais terrível tenha se efetivado em 10 de maio de 1682, naquela cidade, quando saíram da penitenciária 102 réus de uma só vez, entre os quais o boticário e poeta judeu Antônio Serrão de Castro, preso há dez anos com seus dois filhos, estudantes de medicina em Coimbra, um morto sob tortura e outro garroteado e queimado na frente do pai, que ficou cego no cárcere, tendo que usar o sambenito (hábito em forma de saco, em baeta amarela e vermelha, que se enfiava pela cabeça, usado pelos penitentes pelo resto da vida).

 

Para quem não está por dentro da história, sabiam os leitores deste Jornal da Besta Fubana arretado de ótimo que as inquisições de Portugal e Espanha foram as únicas que prestavam contas tanto à Coroa quanto à Igreja?

 

O trabalho do Luiz Nazario ressalta exemplarmente a não-criatividade do assassino Adolf Hitler, reles copiador de métodos inquisitoriais pretéritos, que liderou o III Reich e seus facínoras, cujas ideias, vez por outra,  ainda persistem nas mentes de alguns idiopatas contemporâneos, inclusive brasileiros.

(Publicado em 07.03.2016, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com/sempreamatutar)

Fernando Antônio Gonçalves 

 

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