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AMPLIANDO A EXISTENCIALIDADE
Não há postura mais cavilosa que a de um sujeito metido “às pregas de Odete”, como dizia minha saudosa avó Zefinha, que tinha uma inteligência privilegiada embora assinasse o nome com dificuldade, mal tendo concluído a alfabetização em Escada, município de Pernambuco, em “mil novecentos muito antes da segunda grande guerra”, conforme ela própria declarava.
 
Outro dia, visitando uma escola de ensino médio, pude observar de longe, sem ser minimamente notado, a exposição de um professor que reproduziu para uma classe de jovens atordoados, atônita mesmo, a reflexão de William Shakespeare, em Rei Lear: “Tu és a própria coisa. O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado”. E, após isso, terminou a aula levantando o braço e de punho cerrado proclamou alto e bom som: “Por isso mesmo, somos todos uns bundões!!”.
 
Num intervalo de aula, fazendo um lanche com toda escola, sentei-me perto de um grupo alegre, serelepe todo, que havia participado da aula do “filósofo”. Foi quando ouvi um deles desabafar numa voz sem uma mínima preocupação de não ser ouvido: “- Bundão um cacete!! Não sabe ensinar e vem com um filosofês macarrônico, bostel mesmo, imaginando que todos da classe nada querem com os amanhãs profissionais!!!”
 
Olhei para ele e sorri concordando. Ele, então, resolveu, sentando na minha mesa, me perguntar o que aconselharia para que ele e seus colegas ampliassem sua visão do mundo. Andava de saco cheio com tanta embromação ouvida de quem não possuía uma mínima capacidade didática para cidadanizar jovens de 15 a 20 anos, alunos de um ensino médio que urgia se reestruturar para propiciar uma ambiência profissional e humanística aos seus alunos, a partir de uma seleção mais efetiva do seus professores.
 
Identificando-me melhor, parabenizei o aluno pela vontade de ampliar sua pensação, favorecendo um caminhar mais resoluto na busca de amanhãs mais condizentes com a dignidade humana pessoal e coletiva. Foi então que ele ponderou: - Que leituras deveria eu efetuar para entender melhor a alegoria da caverna platônica, posto que o professor tinha se atrapalhado todo nas suas explicações?
 
Esclarecendo que não era um especialista em Filosofia, prometi a ele expor neste pedaço de site coordenado pelo escritor Luiz Berto, muito visitado por ele e seus colegas de classe, algumas leituras por mim feitas nos últimos tempos. Ei-las abaixo, com os votos de um fortalecimento existencial para ele e os seus companheiros desabilolados, aqueles que desejam trilhar uma profissionalidade condizente com os desafios de um século trepidante, mortal por derradeiro para quem não sabe fazer a hora, sempre esperando acontecer. Leituras não indigestas, didaticamente compatíveis com a escolaridade deles, parte de uma juventude que deseja ser mais para ter mais.
 
1. Uma Nova História do Mundo, Alex Woolf, SP, M.Books do Brasil Editora, 2014, 320 p. - Uma visão abrangente, ágil e acessível da história da humanidade, elaborada numa linguagem objetiva que proporciona aos leitores uma compreensão sistêmica dos acontecimentos, desde quando, entre dez e cinco milhões de anos atrás, os seres humanos e os macacos antropoides principiaram suas evoluções a partir de um ancestral comum. Um livro de apresentação gráfica inovadora, onde estão incluídas 350 ilustrações. A leitura do livro proporcionará mais enxergância sobre as várias etapas da história da humanidade: a pré-história, o mundo antigo, o clássico, o medieval, o início do mundo moderno, o século XIX e o mundo contemporâneo. Quadros cronológicos favorecem mentalmente a compreensão das evoluções históricas de cada etapa da história mundial.
 
2. Curso de Filosofia: para professores e alunos dos cursos de ensino médio e de graduação, Antônio Rezende (organizador), Rio de Janeiro, Zahar, 2014, 312 p. Considerado um Manuel padrão, mais de 15 vezes reeditado, destina-se àqueles que se iniciam no estudo. De maneira metódica e sistematizada, busca organizar as mais significativas ideias filosóficas, constituindo um instrumento valioso para jovens adolescentes do ensino médio ou ingressados nos primeiros períodos de vida universitária. O livro busca atender, segundo seu organizador, uma reclamação sistemática feita pelo filósofo brasileiro Antônio Cândido, segundo o qual “os da sua geração, nem ele próprio, nada escreveram que tivesse como destinatários os jovens adolescentes dos colégios”. O livro do professor Rezende busca ocupar um espaço no setor específico do saber filosófico, ensejando contribuir para a edificação de uma juvenil inteligência crítica naqueles que são possuidores de uma curiosidade existencial acima da média. Na Introdução – O que Filosofia e para que serve -,a professora Maura Iglésias, da PUC-RJ, mostra como a filosofia tem a ver com uma forma de saber, que não é um saber qualquer, decorebal, próprio das pessoas que decoram sem se preocuparem em aprender ou assimilar. Mas um “saber que se percebe como sendo mais relevante, relativo a coisas mais fundamentais, existencialmente basilares na estruturação de um viver situado e datado”.
 
3. A História da Filosofia: da Grécia Antiga aos tempos modernos, de Anne Rooney, São Paulo, M.Books do Brasil Editora, 2015, 208 p. Uma história do pensamento na Filosofia ocidental, desde os gregos da Antiguidade aos tempos de hoje. Um relato fascinante sobre alguns temas reinantes em todos os tempos: O que é a realidade?; Deus existe?; Como sabemos se algo é verdadeiro?; O que é “virtude”?; Como julgamos o certo e o errado?; Como sabemos o que é bem e o que é mal?; e Como julgamos as nossas concepções que fazemos do mundo?. 
 
Sempre ao seu inteiro dispor, agora amigo JVS! Parabéns por querer ser sempre cidadão, assimilando bem o pensamento de John Stuart Mill: “É melhor ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o idiota, ou o porco, têm opiniões diferentes, é porque  eles só conhecem seu próprio lado da questão”.
 
E pense sempre, JVS, como Platão (427-347 a.C.): “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”.
 
(Publicado em 18.04.2016, no site do Jornal da Besta Fubana – www.luizberto.com/sempreamatutar)
Fernando Antônio Gonçalves 
 

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