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ALTERNATIVA SOMBRIA
“Aconteceu em 2050, essa conversa imaginária entre avô e neto, iniciada com a seguinte interpelação pelo pequerrucho: – Vovô, por que o mundo está acabando? A calma da pergunta revela a inocência da alma infante.

No mesmo tom vem a resposta: - Porque não existem mais professores, meu netinho.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?, espanta-se o pirralho.

O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.

– E como foi que eles desapareceram, vovô?
– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. Os professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade”.

O texto acima circula na internet desde 2009, de autor desconhecido. Mas como ele se mantém atualízadíssimo, vale repassá-lo para os ainda apaixonados pela Educação.  Que a imaginam libertadora, paulofreireana crítica, nunca burocratizada, jamais carimbológica, tampouco verborrágica, em tempo algum gerenciada por quem nunca ouviu a palavra pedagogia, que delega sem cobrar, vivendo apenas em solenidades com os maiorais, fingindo que é autoridade, sobrevivendo de macaquices ideológicas, embromações esquerdizóides ou direitosas, sem entender um real da reflexão do poeta Fernando Pessoa: “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”.

PS1. O Ministro da Defesa, Nelson Jobim, deu uma entrevista se jactando de ter votado em Serra em 2010. Ou ele está se preparando para uma breve demissão, saindo de vítima, ou vai sair peladão na Playboy, para aparecer um pouco mais além dos cinco minutos de fama.

PS2. Pode ser uma intuição besta, mas estou sentindo um forte odor de podre no caminho da Copa 2014, todo o Brasil. E dizem que futebol é do povo...

PS3. Um goleiro agressor, quase assassino, depois de ser demitido, é bem capaz de ganhar o Belfort Duarte...

(Publicada em 28.07.2011, no Portal da Globo Nordeste, blog BATE & REBATE)
Fernando Antônio Gonçalves

 

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